LEVÍTICO

16. AS FESTAS RELIGIOSAS DE TODO O POVO DE ISRAEL (Lv 23-25)

Toda a estrutura da Nação Israelita era comprometida indestacavelmente com a Aliança, pelo que se completava e se integrava no religioso, onde sempre desaguava. Assim as Festas comemorativas dos vários momentos épicos de sua História são repetições ou celebrações da intervenções em que Iahweh se manifestou e se revelou ao Seu Povo, a começar com o respeito ao Sábado, aqui ventilado pela mesma convocação de reunião que se fazem nas demais solenidades e por inspirar maior respeito e observância. Todas elas foram formalizadas desde o Sinai e instituídas nessa oportunidade as três principais, como expressão de fidelidade e culto exclusivo a Iahweh, tal como descritas (cfr. Capítulo 4, n.º 1).

Agora, observar-se-á outra formalidade que vem enriquecer os rituais, destinada a incrementar ainda mais os laços de união entre todos e cada um com Iahweh, condição de unidade de um povo em torno de um ideal ou sentimento histórico comum: - são as reuniões do povo em Santas Assembléias no Santuário, as quais se incorporam às Festas Religiosas já instituídas. Essas Assembléias Sagradas dever-se-iam convocar com esse sentido solene e santíssimo, incluindo-se entre tais solenidades e antes de todas a do Sábado do Decálogo, reforçando assim a sua exclusiva, distinta e inconfundível importância cultual:

"Depois disse Iahweh a Moisés: Fala aos filhos de Israel, e dize-lhes: As festas fixas de Iahweh, que convocareis como santas assembléias, são estas: Seis dias se fará trabalho, mas o sétimo dia é o sábado do descanso solene, uma santa assembléia; nenhum trabalho fareis; é sábado de Iahweh em todas as vossas habitações" (Lv 23,1-3, cfr. tb. Ex 16,23; 20,8-11; 31,12-17; 35,2).

 

16.1 Inicialmente a Festa da Páscoa e a dos Pães Ázimos

"São estas as festas santas de Iahweh, santas assembléias, que celebrareis no seu tempo: No mês primeiro, aos catorze do mês, à tarde, é a Páscoa de Iahweh. E aos quinze dias desse mês é a Festa dos Pães Ázimos de Iahweh. Durante sete dias comereis sem fermento. No primeiro dia tereis santa assembléia; nenhum trabalho fareis. E por sete dias oferecereis um sacrifício pelo fogo a Iahweh; no sétimo dia haverá santa assembléia e nenhum trabalho fareis" (Lv 23,4-8).

"Três vezes no ano todos os teus homens aparecerão diante de Iahweh teu Deus" (Ex 23,17 / Ex 13,6) era a regra básica em vigor para as três festas principais transcritas, na dos Ázimos, na de Pentecostes e na das Tendas. Nos termos da sua instituição no Sinai, todos os homens deveriam comparecer ao Santuário nas celebrações correspondentes, prevendo então dois dias solenes, o primeiro e o sétimo, quando não haveria nenhum trabalho (Ex 12,15-17).

 

16.2 A Festa da Oferenda das Primícias

É muitas vezes recomendada (Ex 22,29; 23,16.19; 34,26; Lv 2,14-16; Nm 15,17-21; 18,12; Dt 18,4; 26,1-11), para se praticar quando estiverem de posse da Terra Prometida:

"Disse mais Iahweh a Moisés: Fala aos filhos de Israel, e dize-lhes: Quando houverdes entrado na terra que eu vos dou, e fizerdes a ceifa das searas, trareis ao sacerdote um molho das primícias da vossa colheita; e ele moverá o molho perante Iahweh, para que seja aceito em vosso favor. No dia seguinte ao sábado o sacerdote o moverá. E no dia em que moverdes o molho, oferecereis um cordeiro sem defeito, de um ano, em holocausto a Iahweh. Sua oferta de cereais será dois décimos de efá de flor de farinha, amassada com azeite, para oferta queimada em cheiro suave a Iahweh; e a sua oferta de libação será de vinho, um quarto de him. E não comereis pão, nem trigo torrado, nem espigas verdes, até aquele mesmo dia, em que trouxerdes a oferta do vosso Deus; é estatuto perpétuo pelas vossas gerações, em todas as vossas habitações" (Lv 23,9-14).

Essa oferenda das Primícias tem um sentido bem mais amplo que aqui aparenta e para apreendê-lo será necessário antecipar pelo menos superficialmente algumas noções do Instituto das Oferendas, a partir, por ora, de dois trechos onde se destacam algumas noções do significado que tinham para os Israelitas, dentre elas destacando-se:

"Os sacerdotes levitas, e toda a tribo de Levi, não terão parte nem herança com Israel. Alimentar-se-ão das oferendas queimadas a Iahweh e do patrimônio dele. Não terão herança no meio de seus irmãos; Iahweh é a sua herança, como lhes tem dito. Este, pois, será o direito dos sacerdotes, a receber do povo, dos que oferecerem sacrifícios de boi ou de ovelha: o ofertante dará ao sacerdote a espádua, as queixadas e o bucho. Ao sacerdote darás as primícias do teu grão, do teu mosto e do teu azeite, e as primícias da tosquia das tuas ovelhas. Porque Iahweh teu Deus o escolheu dentre todas as tribos, para assistir e ministrar em nome de Iahweh, ele e seus filhos, para sempre" (Dt 18,1-5).

Neste trecho se vê que elas eram a herança dos integrantes da Tribo de Levi, que não receberam nenhuma possessão em terras, a não ser aquele mínimo para se estabelecer e se fixar com independência pessoal e familiar. Assim sendo, as Primícias eram um direito deles e a citação delas é apenas exemplificativa, pois abrangiam todos os produtos que se produzissem. Também, mais adiante, ainda se estabeleceu:

"Também, quando tiveres entrado na terra que Iahweh teu Deus te dá por herança, e a possuíres, e nela habitares, tomarás das primícias de todos os frutos do solo que trouxeres da terra que Iahweh teu Deus te dá, e as porás num cesto, e irás ao lugar que o Iahweh teu Deus escolher para ali fazer habitar o seu nome. E irás ao sacerdote que naqueles dias estiver de serviço, e lhe dirás: Hoje declaro a Iahweh teu Deus que entrei na terra que o senhor com juramento prometeu a nossos pais que nos daria. O sacerdote, pois, tomará o cesto da tua mão, e o porá diante do altar de Iahweh teu Deus (...) o Iahweh nos tirou do Egito com mão forte e braço estendido, com grande espanto, e com sinais e maravilhas; e nos trouxe a este lugar, e nos deu esta terra, terra que mana leite e mel. E eis que agora te trago as primícias dos frutos da terra que tu, ó Iahweh, me deste. Então as porás perante o Iahweh teu Deus, e o adorarás; e te alegrarás por todo o bem que o Iahweh teu Deus te tem dado a ti e à tua casa, tu e o levita, e o estrangeiro que está no meio de ti" (Dt 26,1-5.8b-11).

Neste segundo trecho vai se observar que eram elas levadas num cesto e entregues ao Sacerdote, que dispunha uma parte no Altar, de outras partes se alimentando e entregando aos Sacerdotes a sua herança, para a Santificação geral da colheita. A palavra cesto em latim é "sportula", donde o costume da Igreja em receber espórtulas de alguns atos. É direito dela que nos primórdios do cristianismo era levada num cesto durante o Ofertório da Cerimônia Eucarística e entregue ao Sacerdote que recolhia o conteúdo e depois se lavava para poder manusear e distribuir a Comunhão, donde o rito do Lava - Mãos.

"E no dia em que moverdes o molho, oferecereis um cordeiro sem defeito, de um ano, em holocausto a Iahweh. Sua oferta de cereais será dois décimos de efá de flor de farinha, amassada com azeite, para oferta queimada em cheiro suave a Iahweh; e a sua oferta de libação será de vinho, um quarto de him" - oblação essa que seria o indispensável complemento consecratório de toda a oferenda que se fazia, e somente após a Santificação assim formalizada é que se alimentavam dos frutos da produção então "abençoada" (Lv 23,11 - "...para que sejais aceitos"):

"E não comereis pão, nem trigo torrado, nem espigas verdes, até aquele mesmo dia, em que trouxerdes a oferta do vosso Deus; é estatuto perpétuo pelas vossas gerações, em todas as vossas habitações" (Lv 23,14).

 

16.3 Festa de Pentecostes ou Festa das Semanas

A partir do dia seguinte ao Sábado, quando do Movimento do Feixe de Primícias, contar-se-á sete semanas inteiras, cincoenta dias, para a celebração da Festa de Pentecostes ou Festa das Semanas:

"Contareis para vós, desde o dia depois do sábado, isto é, desde o dia em que houverdes trazido o molho da oferta de movimento, sete semanas inteiras; até o dia seguinte ao sétimo sábado, contareis cinqüenta dias; então oferecereis uma oblação nova de cereais a Iahweh" (Lv 23,15-16).

Então, no qüinquagésimo dia "...oferecereis uma oblação nova de cereais a Iahweh", ou seja, um sacrifício de produtos da colheita feita recentemente, cujo cerimonial se destina a agradecer a Iahweh pela fartura reconhecida e então evidenciada, na prometida "terra boa e espaçosa onde flui o leite e o mel" (Ex 3,8):

"Das vossas habitações trareis, para oferta de movimento, dois pães de dois décimos de efá; serão de flor de farinha, e levedados se cozerão; são primícias a Iahweh. Com os pães oferecereis sete cordeiros sem defeito, de um ano, um novilho e dois carneiros; serão holocausto a Iahweh, com as respectivas ofertas de cereais e de libação, por oferta queimada de cheiro suave a Iahweh. Também oferecereis um bode para oferta pelo pecado, e dois cordeiros de um ano para sacrifício de ofertas pacíficas. Então o sacerdote os moverá, juntamente com os pães das primícias, por oferta de movimento perante Iahweh, com os dois cordeiros; santos serão a Iahweh para uso do sacerdote. E fareis proclamação nesse mesmo dia, pois tereis santa convocação; nenhum trabalho servil fareis; é estatuto perpétuo em todas as vossas habitações pelas vossas gerações" (Lv 23,17-21).

"Das vossas habitações trareis, para oferta de movimento, dois pães de dois décimos de efá, de flor de farinha e cozidos com levedo, como primícias a Iahweh" - a oferenda desses dois pães levedados caracterizam especificamente a solenidade, por causa do fermento que se vedava nos sacrifícios (Lv 2,11s), motivo por que não seriam queimados no Altar, mas junto com dois cordeiros da oferta pacífica, destinar-se-iam ao Sacerdote e seus familiares (Lv 23,20), após o holocausto de sete cordeiros, um novilho e dois carneiros, com as libações do ritual, e o bode do oferenda de expiação (Lv 23,18-19). O nome de Oferta de Movimento se origina do "movimento" feito pelo ofertante empunhando a oferenda junto com o celebrante em direção do Altar, pelo que a entregava e ao recebê-la de volta, de Iahweh, deixava-a nas mãos do sacerdote.

A regulamentação da solenidade termina com uma recomendação humanitária:

"Quando fizeres a sega da tua terra, não segarás totalmente os extremos do teu campo, nem respigarás as espigas caídas que ficarem; para o pobre e para o estrangeiro as deixarás. Eu sou Iahweh vosso Deus" (Lv 23,22).

 

16.4 Festa das Trombetas

Assim era conhecida a festa que tinha início no primeiro dia do sétimo mês religioso, em que se anunciaria mais tarde o começo do ano civil com o toque delas:

"Disse mais Iahweh a Moisés: Fala aos filhos de Israel: No sétimo mês, no primeiro dia do mês, haverá para vós descanso solene, em memorial, com toque de trombetas e uma santa assembléia. Nenhum trabalho servil fareis, e oferecereis sacrifícios pelo fogo a Iahweh" (Lv 23,23-25).

Todos os meses do ano e por ocasião da lua nova havia uma solenidade em que se ofereciam holocaustos e um bode em expiação (Nm 28,11-15). Neste, porém, assumia um caráter especial de Santidade por ser o sétimo, o mês sabático, coincidindo ainda nele a Grande Festa de Expiação e a Festa das Tendas (Lv 23,27-43). Tudo isso faz com que seja distinguido com uma comemoração especial inicialmente de regozijo ao som das Trombetas (Nm 10,1-2a.10), completando-se com mais Holocaustos e Sacrifício Pelo Pecado, aos que já se celebravam mensalmente (Nm 28,11-15):

"No sétimo mês, no primeiro dia do mês, tereis uma assembléia santa; nenhum trabalho servil fareis; será para vós dia de toque de trombetas. Oferecereis um holocausto em cheiro suave a Iahweh: um novilho, um carneiro e sete cordeiros de um ano, todos sem defeito; e a sua oferta de cereais, de flor de farinha misturada com azeite, três décimos de efá para o novilho, dois décimos para o carneiro, e um décimo para cada um dos sete cordeiros; e um bode para oferta pelo pecado, para fazer expiação por vós; além do holocausto do mês e a sua oferta de cereais, e do holocausto contínuo e a sua oferta de cereais, com as suas ofertas de libação, segundo a ordenança, em cheiro suave, oferta queimada a Iahweh" (Nm 29,1-6).

 

16.5 Festa do Grande Dia da Expiação

Soa como um complemento vindo narrada em seguida:

"Disse mais Iahweh a Moisés: Ora, o décimo dia desse sétimo mês será o dia da expiação; tereis santa assembléia, e mortificareis as vossas almas ('jejuareis'); e oferecereis oferta queimada ('holocausto') a Iahweh. Nesse dia não fareis trabalho algum; porque é o dia da expiação, para nele fazer-se expiação por vós perante Iahweh o vosso Deus Pois toda alma que não se afligir (jejuar) nesse dia, será extirpada do seu povo. Também toda alma que nesse dia fizer algum trabalho, eu a destruirei do meio do seu povo. Não fareis nele trabalho algum; isso será estatuto perpétuo pelas vossas gerações em todas as vossas habitações. Sábado de descanso vos será, e afligireis as vossas almas; desde a tarde do dia nono do mês até a outra tarde, guardareis o vosso sábado" (Lv 23,26-32).

Dessa Festa já se tratou no n.º 14, quando se comentou Lv 16, impondo-se então uma breve recordação a que se remete o leitor. Insiste-se aqui na observância rigorosa do jejum e do repouso e sua duração, com graves ameaças para quem não respeitar o cerimonial nos mínimos detalhes.

 

16.6 Festa das Tendas ou dos Tabernáculos ou das Cabanas

Já se falou a respeito quando ainda tinha o nome de Festa da Colheita de fim de ano agrícola. Em virtude da variedade de datas da realização das colheitas na Palestina não se fixa ainda a data dessa comemoração, podendo-se observar a sua diversidade em vários locais (Ex 23,16 / Lv 28,33-43 / Dt 16,13-15 / Nm 29,12-38):

"Disse mais Iahweh a Moisés: Fala aos filhos de Israel, dizendo: Desde o dia quinze desse sétimo mês haverá a festa dos tabernáculos a Iahweh por sete dias. No primeiro dia haverá santa assembléia; nenhum trabalho servil fareis. Por sete dias oferecereis sacrifícios pelo fogo a Iahweh; ao oitavo dia tereis santa assembléia, e oferecereis sacrifício pelo fogo a Iahweh; será uma assembléia solene; nenhum trabalho servil fareis" (Lv 23,33-36).

Ratifica-se então, sem se descuidar dos sábados, todas as comemorações do ano, cada qual com suas oferendas apropriadas e seus Sacrifícios específicos, finalizando-se a sua descrição. Realça-se pelo destaque da repetição a importância da Festa das Cabanas, como fora o encerramento de todas elas exatamente por ser a última do ano. Daí a sua celebração bem mais solene, tal como descrito em Nm 29,12-38, com o oferecimento de Holocaustos, Sacrifícios, Oblações e Libações todos os dias da semana festiva, sem prejuízo do Holocausto Cotidiano, também oferecido (Nm 29,16.19.22.25.28.31.34.38) e dos dons, votos, ofertas voluntárias, oferendas diversas, primícias, primogênitos, dízimos etc. (Dt 12,5-7), como se deduz da nomeação genérica então feita:

"Estas são as festas fixas de Iahweh, que proclamareis como santas assembléias, para oferecer-se a Iahweh oferta queimada, holocausto e oferta de cereais, sacrifícios e ofertas de libação, cada qual em seu dia próprio; além dos sábados de Iahweh, e além dos vossos dons, e além de todos os vossos votos, e além de todas as vossas ofertas voluntárias que derdes ao Senhor" (Lv 23,37-38).

Esclarecida a finalização do ano litúrgico coincidindo com as colheitas finais fixa-se a data inicial da festa, descrevendo-se o caráter comemorativo dela e o motivo da celebração vinculado à Aliança que se corporificou a partir da libertação do Egito, lembrando a vida nômade do Povo de Deus em peregrinação no deserto em busca da Terra Prometida a Abraão, e em fase de cumprimento definitivo:

"Desde o dia quinze do sétimo mês, quando tiverdes colhido os frutos da terra, celebrareis a festa de Iahweh por sete dias; no primeiro dia haverá descanso solene, e no oitavo dia haverá descanso solene. No primeiro dia tomareis para vós o fruto de árvores formosas, folhas de palmeiras, ramos de árvores frondosas e salgueiros de ribeiras; e vos alegrareis perante Iahweh vosso Deus por sete dias. E celebrá-la-eis como festa a Iahweh por sete dias cada ano; estatuto perpétuo será pelas vossas gerações; no mês sétimo a celebrareis. Por sete dias habitareis em tendas de ramos; todos os naturais em Israel habitarão em tendas de ramos, para que as vossas gerações saibam que eu fiz habitar em tendas de ramos os filhos de Israel, quando os tirei da terra do Egito. Eu sou Iahweh vosso Deus" (Lv 23,39-43).

Certos aspectos dela só se esclarecem em outros locais, destacando-se o caráter festivo, de enorme regozijo e solene de que se revestia, chegando a ser denominada simplesmente de "Festa". Era ocasião de verdadeiro reconhecimento das bênçãos com que o Povo de Iahweh foi cumulado, passando da vida rústica e nômade do deserto para a vida de fartura em território fixo, cuja colheita se comemorava, pedindo-as ainda para a próxima semeadura (Ne 8,14-18 / 2Mac 10,6-7 / cfr. tb. Dt 16,13-17). Com esta Festa encerra-se a descrição pormenorizada delas:

"Assim promulgou Moisés aos filhos de Israel as festas fixas de Iahweh " (Lv 23,44).

 

16.7 O Candelabro e os Pães da Apresentação

Novamente são alvo de análise algumas normas de culto cotidiano e de valor fundamental, apesar de sua aparente simplicidade. São as concernentes ao Candelabro e aos Pães da Proposição ou da Apresentação. O Candelabro é descrito de maneira muito idêntica a Ex 27,20-21, a respeito dos quais já se comentou (Capítulo 4, ns.º 2 e 3):

"Disse mais Iahweh a Moisés: Ordena aos filhos de Israel que te tragam, para o candelabro, azeite de oliveira, puro, batido, a fim de manter uma lâmpada acesa continuamente. Aarão a conservará em ordem perante Iahweh, continuamente, desde a tarde até a manhã, fora do véu do testemunho, na tenda da reunião; será estatuto perpétuo pelas vossas gerações. Sobre o candelabro de ouro puro conservará em ordem as lâmpadas perante Iahweh continuamente" (Lv 24,1-4).

Quanto aos Pães da Proposição agora se regulamenta o cerimonial já instituído e anunciado (Ex 25,30), quando foi descrita a mesa onde é colocado (Ex 25,23-30; 37,10-16):

"Também tomarás flor de farinha, e dela cozerás doze pães; cada pão será de dois décimos de efa. E pô-los-ás perante Iahweh, em duas fileiras, seis em cada fileira, sobre a mesa de ouro puro. Sobre cada fileira porás incenso puro, para que seja sobre os pães como memorial, isto é, como oferta queimada a Iahweh. Em cada sábado, colocar-se-ão regularmente perante Iahweh para sempre, como uma aliança perpétua da parte de Israel. Pertencerão os pães a Aarão e a seus filhos, que os comerão em lugar santo, por serem coisa santíssima para eles, das ofertas queimadas a Iahweh por estatuto perpétuo" (Lv 24,5-9).

Em vários locais recebe também o nome de "Pão da Face", qual seja, o "Pão da Presença" (Ex 25,30; 35,13; 39,36; 40,23; Nm 4,7; 1Sm 21,5-7; 1Rs 7,48; 2Cr 4,19) ou o "Pão da Pilha", isto é "partido em fileiras ou pilhas" (1Cr 9,32; 23,29; Ne 10,34; 2Cr 13,11). Eram Pães que se dispunham em mesa a eles destinada (Ex 25,23-30) "na minha presença (de Iahweh - Ex 29,30)" em número de doze, representando logicamente as tribos de Israel, seis em cada fileira, sobre os quais se deitava Incenso a ser queimado em oblação (Lv 2,2). Por se integrar num cerimonial de sacrifício eram "coisa santíssima para os sacerdotes, das oferendas no fogo a Iahweh", devendo ser por eles comidos cada semana ao se substituir por novos e no momento de se queimar o Incenso" como memorial" perene da Aliança. Além do pão há ainda resquícios do uso de libações de vinho, eis que se fala em "copos e taças de ouro" (Ex 25,29; 37,16; Nm 4,7), o que lembra a Ceia Eucarística. Jesus menciona que Davi e seus soldados comeram desse Pão quando em fuga de Saul estando com fome, para mostrar aos fariseus que existem necessidades do homem que permitem o descumprimento de determinadas prescrições legais (Mt 12,4 e par.).

 

 16.8 - O Castigo das Blasfêmias e a Lei do Talião

Regras de Justiça na Comunidade Israelita: A seqüência lógica da exposição é bruscamente deformada pela narrativa de uma desavença ocorrida entre um filho de pai egípcio e mãe Israelita, que culmina com uma ofensa a Iahweh (Lv 24,10-16). Tal blasfêmia era intolerável e desde o Sinai condenada (Ex 22,27), porém não trazia a pena correspondente. Por causa disso é ele enclausurado até que Moisés consultasse Iahweh do castigo a lhe ser imposto, e aquilo que Moisés dissesse era aceito como sendo determinado por Deus, tal como informara ao seu sogro Jetro em situações similares:

"Respondeu Moisés a seu sogro: É por que o povo vem a mim para consultar a Iahweh. Quando eles têm alguma desavença, vêm a mim; e eu julgo entre um e outro e dou-lhes a conhecer os estatutos de Deus e as suas leis" (Ex 18,15-16).

Moisés se impusera ao Povo Israelita como um enviado de Deus. Suas decisões, fruto as mais das vezes de oração e meditação, bem como de oráculos para se decidir pela sorte questões as mais diversas, eram reconhecidas como advindas de Deus. Usava para isso métodos então reconhecidos (Gn 25,22-23) ou o "peitoral do julgamento"(Ex 28,15; 1Sm 14,41). O fato é que Moisés decreta em nome de Iahweh, o que era aceito tal como se fora recebido do próprio Deus:

"Então disse Iahweh a Moisés: Tira para fora do arraial o que tem blasfemado; todos os que o ouviram porão as mãos sobre a cabeça dele, e toda a congregação o apedrejará. E dirás aos filhos de Israel: Todo homem que amaldiçoar o seu Deus, levará sobre si o seu pecado. E aquele que blasfemar o nome de Iahweh, certamente será morto; toda a congregação certamente o apedrejará. Tanto o estrangeiro como o natural, que blasfemar o nome de Iahweh, será morto" (Lv 24,13-16).

A narração do blasfemador recapitula a condição de qualquer um que oferecesse um filho seu a Moloc (Lv 20,2-5), devendo ocorrer aqui também até mesmo a solidariedade de todos com o ato, no caso de se omitir a punição do responsável:

"E aquele que blasfemar o nome de Iahweh, será morto; toda a comunidade o apedrejará. Tanto o estrangeiro como o natural, que blasfemar o nome de Iahweh será morto" (Lv 24,16) / "Disse mais Iahweh a Moisés: Também dirás aos filhos de Israel: Qualquer dos filhos de Israel, ou dos estrangeiros peregrinos em Israel, que der de seus filhos a Moloc, será morto; o povo da terra o apedrejará. Eu porei o meu rosto contra esse homem, e o extirparei do meio do seu povo; porquanto deu de seus filhos a Moloc, assim contaminando o meu santuário e profanando o meu santo nome. E, se o povo da terra de alguma maneira esconder os olhos para não ver esse homem, quando der de seus filhos a Moloc, e não o matar, eu porei o meu rosto contra esse homem, e contra a sua família, e o extirparei do meio do seu povo, bem como a todos os que forem após ele, prostituindo-se após Moloc" (Lv 20,1-5).

Alguns fatos chamam a atenção a começar com a imposição das mãos das testemunhas sobre a cabeça dele, tal como no holocausto são colocadas na cabeça do animal oferecido em expiação. Tal ato tem essa dimensão apoiado na afirmação de que "o blasfemador levará sobre si o seu pecado". As testemunhas e principais acusadoras e executoras (Dt 17,7) declaram assim solenemente a culpa dele apurada no julgamento, e as testemunhas isentavam-se de qualquer solidariedade com o blasfemo sofrendo este a plena responsabilidade do que fizera . Além disso, retiram o infrator para "fora do acampamento" para não contaminá-lo tal como ao Santuário com essa impureza ou profanação, tal como se fazia com as oferendas da Festa da Expiação que contaminadas com as iniqüidades de Israel eram queimadas fora da mesma forma ( Lv 16,27; 24,14; Nm 15,35; Dt 17,2-7; At 7,57).

Surgem então aparentemente deslocadas do contexto essas duas leis, respectivamente contra os que blasfemarem o nome de Iahweh e os que ferirem a outrem da comunidade Israelita, seja natural ou estrangeiro. São meios enérgicos para coibir os abusos que venham a provocar desequilíbrio, desarmonia ou conflito ao meio social, trazendo insegurança aos integrantes da comunidade recém formada. São alvo de reação enérgica e violenta por causa das conseqüências danosas que trazem à nova nação ainda no nascedouro. São os delitos praticados diretamente contra as pessoas, agressões ou outras violências, perturbando a paz social, bem como as blasfêmias, ambos também por ferir a Aliança com Iahweh, fonte de todas as bênção de que o Povo Israelita necessita:

"Quem matar alguém, será morto; e quem matar um animal, o ressarcirá, animal por animal. Se alguém ferir o seu próximo, como ele fez, assim lhe será feito: fratura por fratura, olho por olho, dente por dente; tal como ele tiver ferido um homem, tal lhe será feito. Quem, pois, matar um animal, fará restituição por ele; mas quem matar um homem, será morto. Uma mesma lei tereis, tanto para o estrangeiro como para o natural; pois eu sou o Iahweh vosso Deus" (Lv 24,17-22).

Com isso, há um encerramento parcial das normas punitivas dadas por Iahweh no Monte Sinai para serem cumpridas pela comunidade de Israel. Cumpriram-nas quando disse que "Eu porei o meu rosto contra esse homem, e o extirparei do meio do seu povo", substituindo assim a Deus na execução da pena ditada por Moisés:

"Todo homem que amaldiçoar o seu Deus, levará sobre si o seu pecado. E aquele que blasfemar o nome do Senhor, certamente será morto; toda a congregação certamente o apedrejará. (...) Então falou Moisés aos filhos de Israel. Depois eles levaram para fora do arraial aquele que tinha blasfemado e o apedrejaram. Fizeram, pois, os filhos de Israel como Iahweh ordenara a Moisés" (Lv 24,15-16.23).

No Novo Testamento tanto São Estevão (At 7,57) como Jesus são vítimas do mesmo tratamento, de que Hebreus tira uma sutil conclusão:

"Ouvindo eles isto, enfureciam-se em seus corações, e rangiam os dentes contra Estêvão. Mas ele, cheio do Espírito Santo, fitando os olhos no céu, viu a glória de Deus, e Jesus em pé à direita de Deus, e disse: Eis que vejo os céus abertos, e o Filho do homem em pé à direita de Deus. Então eles gritaram com grande voz, taparam os ouvidos, e arremeteram unânimes contra ele e, lançando-o fora da cidade o apedrejavam. E as testemunhas depuseram as suas vestes aos pés de um mancebo chamado Saulo. Apedrejavam, pois, a Estêvão que orando, dizia: Senhor Jesus, recebe o meu espírito" (At 7,54-59) / "Jesus Cristo é o mesmo, ontem, e hoje, e eternamente. Não vos deixeis levar por doutrinas várias e estranhas; porque bom é que o coração se fortifique com a graça, e não com alimentos, que não trouxeram proveito algum aos que com eles se preocuparam. Temos um altar, do qual não têm direito de comer os que servem ao tabernáculo. Porque os corpos dos animais, cujo sangue é trazido para dentro do santo lugar pelo sumo sacerdote como oferta pelo pecado, são queimados fora do arraial. Por isso também Jesus, para santificar o povo pelo seu próprio sangue, sofreu fora da porta. Saiamos pois a ele fora do arraial, levando o seu opróbrio (Hb 13,8-13).

Também no Evangelho de Mateus que pretendeu mostrar aos judeus que Jesus é o Novo Moisés (Dt 18,15), situa o Sermão da Montanha no alto de um monte (Mt 5,1) tal como ocorrera no Monte Sinai (Ex 19-20) com o Código da Aliança. Tanto é isso certo que Lucas o situa num "lugar plano" (Lc 6,17). Não se pode ver ai uma contradição ou que os Evangelhos sejam mais fruto de artifício literário de seus autores, mas que na distribuição lógica dos temas escolhiam aqueles mais adequados, eis que Cristo não falou as bem-aventuranças uma vez só. E é ai nesse Sermão da Montanha que Jesus nos apresenta a essência de sua doutrina, partindo do princípio de que viera para levar a plena eficácia a Lei e os Profetas:

"Não penseis que vim destruir a lei ou os profetas; não vim destruir, mas cumprir. Porque em verdade vos digo que, até que o céu e a terra passem, de modo nenhum passará da lei um só i ou um só til, até que tudo seja cumprido. Qualquer, pois, que violar um destes mandamentos, por menor que seja, e assim ensinar aos homens, será chamado o menor no reino dos céus; aquele, porém, que os cumprir e ensinar será chamado grande no reino dos céus. Pois eu vos digo que, se a vossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, de modo nenhum entrareis no reino dos céus" (Mt 5,17-20).

Quando à lei do Talião a modificará substancialmente ao "ensinar com autoridade" (Mt 7,29):

"Ouvistes que foi dito: Olho por olho, e dente por dente. Eu, porém, vos digo que não resistais ao homem mau; mas, a qualquer que te bater na face direita, oferece-lhe também a outra; e ao que quiser pleitear contigo, e tirar-te a túnica, larga-lhe também a capa; e, se qualquer te obrigar a caminhar mil passos, vai com ele dois mil. Dá a quem te pedir, e não voltes as costas ao que quiser que lhe emprestes" (Mt 5,38-42).

Também, referindo-se à blasfêmia a esclarece bem:

"Portanto vos digo: Todo pecado e blasfêmia se perdoará aos homens; mas a blasfêmia contra o Espírito não será perdoada. Se alguém disser alguma palavra contra o Filho do Homem, isso lhe será perdoado; mas se alguém falar contra o Espírito Santo, não lhe será perdoado, nem neste mundo, nem no vindouro" (Mt 12,31-32).

<=Volta

Índice do Cap. 4

Índice do Curso

Continua =>


[Volta ao Índice Geral]  [Cadastro no Curso]  [Evangelho do Dia]  [Home]

CURSO DE BÍBLIA PELA INTERNET
- MUNDO CATÓLICO WEB SITE
  Copyright © 1997 by J.Haical Haddad - Página criada em 16/08/98
Hosted by C.Ss.R.Redemptor, Visite a Editora Santuário