LEVÍTICO    

13. A PUREZA LEGAL

Terminada a cerimônia da Investidura Sacerdotal tem início a apresentação das condições de Pureza Legal para aproximar-se de Iahweh, principalmente para a participação nos Sacrifícios, seja como Vítima, seja como Ofertante e seja como Celebrante, destacando-se uma classificação de animais em "puros e impuros", cuja observância far-se-á até mesmo nas refeições cotidianas:

"(1) Falou o Senhor a Moisés e a Aarão, dizendo-lhes: Dizei aos filhos de Israel: Estes são os animais que podereis comer dentre todos os animais que há sobre a terra ...(...)... Os seguintes, contudo, não comereis...(...)... (8) Da sua carne não comereis, nem tocareis nos seus cadáveres; esses vos serão imundos ...(...)... (44) Porque eu sou o Senhor vosso Deus; portanto santificai-vos, e sede santos, porque eu sou santo; e não vos contaminareis ...(...)... porque eu sou o Senhor, que vos fiz subir da terra do Egito, para ser o vosso Deus, sereis pois santos, porque eu sou santo. Esta é a lei sobre os animais e as aves, e sobre toda criatura vivente que se move nas águas e toda criatura que se arrasta sobre a terra; para fazer separação entre o imundo e o limpo, e entre animais que se podem comer e os animais que não se podem comer" (Lv 11,1-4.8.44-47).

Cabe observar que, ao contrário do que possa parecer, são cuidados a serem observados pelos Israelitas para se conseguir a santidade necessária para a participação nos Sacrifícios, só se aproximando de Iahweh aquele que fosse santo:

"Porque eu sou o Senhor vosso Deus; portanto santificai-vos, e sede santos, porque eu sou santo ...(...)... eu sou o Senhor, que vos fiz subir da terra do Egito, para ser o vosso Deus, sereis pois santos, porque eu sou santo" (Lv 11,44-46).

"Esta é a lei sobre os animais e as aves ...(...)... para fazer separação entre o imundo e o limpo, e entre animais que se podem comer e os animais que não se podem comer" - apesar dessas palavras não se pode concluir que se trate de normas de higiene e limpeza físicas propriamente ditas, tais como são concebidas atualmente. Coerentemente com toda a estrutura já montada, o Israelita mantém-se fiel a Iahweh em torno do compromisso assumido na Aliança a que se incluiu a Missão de Israel:

"...e eu os exterminar, não adorarás os seus deuses, nem lhes prestarás culto, imitando seus costumes. Ao contrário derrubarás e quebrarás as suas colunas. Servireis ao Senhor vosso Deus, e ele abençoará teu pão e tua água, e afastará do teu meio as enfermidades. (...) Não farás aliança com eles nem com seus deuses. ...te fariam pecar contra mim: Servirias aos seus deuses, e isso seria uma armadilha para ti" (Ex 23,23-33).

Esta Missão de Israel é várias vezes ratificada (cfr. Ex 34,13; Lv 18,3.24-30; Nm 33,52; Dt 7,5; 12,3.29-31) e foi ela que serviu de orientação ao legislador para a elaboração das leis atinentes ao "puro e impuro", donde se conclui que se evitou principalmente as práticas dos pagãos que os rodeavam seja nos vários sacrifícios seja na alimentação cotidiana (Os 9,3; Ez 4,13; Tb 1,10-12; Dn 1,8-12; Jdt 12,2-4; Lv 18,2-5). Israel deveria se distinguir de outros povos pela conformação de sua conduta e de seu comportamento com a vontade de Iahweh, que não aceita de forma nenhuma a "impureza" (Dt 23,13-15), o que o leva a se "santificar (em hebraico = 'separar')" e a todos os objetos ou seres que o rodeiam para poder assim apresentá-los e a si mesmo perante Deus (Ex 19,6.10.22; Lv 11,44s; 19,2; 20,7; 21,1-8; 22,1-9.31-33; Nm 31,19-24). Por causa dessa "impureza" que a Iahweh repugna, a Missão de Israel era destruir os altares e santuários pagãos (Dt 7,5.25). Tal repugnância vai crescer sobremaneira até que vedar-se-á qualquer contato com eles (Jo 18,28; At 10,28; 11,3). Vê-se facilmente que essa "pureza" se relaciona com o homem como um todo carnal e não se limita a uma higiene física nem se identifica apenas com norma moral nem com a castidade. Tem referências exclusivamente com o religioso, nas suas relações com Iahweh e a Aliança, proveniente do interior e não se restringe ao exterior do Homem apenas, apesar de só a ele se referir:

"Advertireis os filhos de Israel da sua impureza, para que não morram por causa dela, contaminando o minha Habitação que está no meio deles" (Lv 15,31).

Então retirar a "impureza" é santificar-se e a "pureza" é a condição que torna apto a aproximar-se de Iahweh e não contaminando o Santuário. Por outro lado, é interessante observar que se tivesse sido instituída por motivos de higiene física ou de moral ou de castidade, não teria sido abolida ou modificada pelo Cristianismo:

"Respondeu-lhes ele: Assim também vós estais sem entender? Não compreendeis que tudo o que de fora entra no homem não o pode contaminar, porque não lhe entra no coração, mas no ventre, e é lançado fora? Assim declarou puros todos os alimentos" (Mc 7,18-19)

"...subiu Pedro ao eirado para orar, cerca de hora sexta. E tendo fome, quis comer; mas enquanto lhe preparavam a comida, sobreveio-lhe um êxtase, e via o céu aberto e um objeto descendo, como se fosse um grande lençol, sendo baixado pelas quatro pontas sobre a terra, no qual havia de todos os quadrúpedes e répteis da terra e aves do céu. E uma voz lhe disse: Levanta-te, Pedro, mata e come. Mas Pedro respondeu: De modo nenhum, Senhor, porque nunca comi coisa alguma profana e imunda. Pela segunda vez lhe falou a voz: Não chames tu profano ao que Deus purificou. Sucedeu isto por três vezes; e logo foi o objeto recolhido ao céu" (At 10,9-16).

Assim é que, perde-se a "pureza legal" até mesmo por um simples contato, principalmente com cadáveres (Lv 11,24-28.29-38.39-40) e a sua recuperação não se dá pela prática de atos virtuosos ou morais ou de higiene, podendo-se destacar várias maneiras de se adquirir novamente a Santidade:

1) Pelo desaparecimento da "impureza" por si mesma e no decurso do tempo:

"Também por eles vos tornareis imundos; qualquer que tocar nos seus cadáveres, será imundo até a tarde, e quem levar qualquer parte dos seus cadáveres, lavará as suas vestes, e será imundo até a tarde" (Lv 11,24-25).

2) Pela ablução do corpo ou das vestes:

"Disse mais o Senhor a Moisés: Vai ao povo, e santifica-os hoje e amanhã; lavem eles os seus vestidos (...) Então Moisés desceu do monte ao povo, e santificou o povo; e lavaram os seus vestidos" (Ex 19.10.14)

"E todo homem, quer natural quer estrangeiro, que comer do que morre por si ou do que é dilacerado por feras, lavará as suas vestes, e se banhará em água, e será imundo até a tarde; depois será limpo. Mas, se não as lavar, nem banhar o seu corpo, levará sobre si a sua iniquidade" (Lv 17,15-16).

3) Pelo Holocausto e pelo Sacrifício Expiatório ou Pelo Pecado:

"E, quando forem cumpridos os dias da sua purificação, seja por filho ou por filha, trará um cordeiro de um ano para holocausto, e um pombinho ou uma rola para oferta pelo pecado, à porta da tenda da reunião, ao sacerdote, o qual o oferecerá perante o Senhor, e fará expiação por ela; então ela será limpa do fluxo do seu sangue. Esta é a lei da que der à luz menino ou menina" (Lv 12,6-7).

4) No Grande Dia da Expiação e, durante essa festa, pelo "Bode Expiatório ou Emissário":

"Disse, pois, o Senhor a Moisés: Dize a Arão, teu irmão ...(...)... da congregação dos filhos de Israel tomará dois bodes para oferta pelo pecado e um carneiro para holocausto ...(...)... assim fará expiação pelo santuário; também fará expiação pela tenda da reunião e pelo altar; igualmente fará expiação e pelos sacerdotes e por todo o povo da congregação. Isto vos será por estatuto perpétuo, para fazer expiação uma vez no ano pelos filhos de Israel por causa de todos os seus pecados. E fez Aarão como o Senhor ordenara a Moisés" (Lv 16,1-34, só as partes inicial e final pois será objeto de estudo).

O valor fundamental dessa Instituição da Pureza Legal foi o de evidenciar a fidelidade à Aliança (Lv 11,44-45) entregando-se ao martírio vários fiéis para não desrespeitá-la nem profaná-la (2Mc 6,18-31; 7,1-42). Concorreu para se caracterizar e se firmar paulatinamente o monoteísmo e manter firme o Povo de Deus na obediência a Iahweh e no caminho da renúncia de si mesmo como base para uma moralidade que irá se "cumprir" na perfeição da disciplina cristã, que condenará o formalismo a que se reduziu (Mt 15,2; 23,24-25). Não há necessidade de se delinear todos os animais puros e impuros, e todos os casos em que se contrai a "impureza" ou se perde a "pureza", dada a facilidade com que vêm narrados, bastando um estudo atencioso da narrativa (Lv 11-15).


13.1 A Pureza Legal e a Mulher

Quando se narrou as conseqüências do Dilúvio foi dito que ao tempo acreditava-se que ao se frustrar a menstruação da mulher era concebido o nascituro, entendendo-se que o sangue materno coagulava-se ao desaparecer, em virtude da mescla com o esperma, gerando-se o feto (Jó 10,10; Sb 7,2; Lv 17,11):

"No seio de minha mãe, no espaço de dez meses em carne fui formado do sangue coagulado, por força do sêmen viril e do prazer que acompanha o sono" (Sb 7,1-2)

"Não me verteste como leite e me coalhaste como queijo?" (Jó 10,10).

Por outro lado, é de se recordar o que Deus disse à mulher, quando do Pecado Original:

"...Multiplicarei o teu sofrimento na tua gravidez; em dor darás à luz filhos..." (Gn 3,16).

Já Adão recebe, além das conseqüências pessoais e as da natureza, aquelas que penalizavam o seu trabalho pessoal, tendo sido amaldiçoada a terra (Gn 3,17-19), percebendo-se facilmente que Eva foi mais responsabilizada pelo acontecido (Gn 3,6.12.13.16). Além da maior culpa pelo Pecado Original, é identificada com a geração da vida, tendo até recebido de Adão o nome de "Eva, a mãe de todos os viventes" (Gn 3,20). Além disso, as palavras "...darás à luz filhos entre dores..." caracterizam que o parto já era de sua constituição física, acontecendo que o seu "sofrimento foi-lhe multiplicado" (Gn 3,16). Ocorrem também nela, tanto na menstruação, como quando dá à luz, duas efusões do sangue em decorrência dessa geração de vida, sangue que é alvo de profundo sentido religioso (Lv 17,11). Juntando-se tudo isto com a concepção de que "a vida da carne está no sangue" e que "...a carne com sua vida, isto é, com seu sangue, não comereis" (Gn 9,4), estabelece-se um profundo respeito e veneração por ele, por estar vinculado inseparavelmente com a vida:

"Porque a vida da carne está no sangue; pelo que vo-lo tenho dado sobre o altar, para fazer expiação pelas vossas almas; porquanto é o sangue que expia em virtude da vida. Portanto tenho dito aos filhos de Israel: Nenhum de vós comerá sangue; nem o estrangeiro que peregrina entre vós comerá sangue. Também, qualquer homem dos filhos de Israel, ou dos estrangeiros que peregrinam entre eles, que apanhar caça de fera ou de ave que se pode comer, derramará o sangue dela e o cobrirá com terra. Pois, a vida de toda a carne está no seu sangue; por isso eu disse aos filhos de Israel: Não comereis o sangue de nenhuma carne, porque a vida de toda a carne é o seu sangue; qualquer que o comer será extirpado" (Lv 17,11-14).

O trecho fala por si, correndo-se o risco de atrapalhar o entendimento claro com qualquer tentativa de explicação, cabendo apenas frisar a noção então bastante difundida do sangue "expiar em virtude da vida", fazendo acreditar que por cada uma de suas efusões se exigisse um restabelecimento de vitalidade que teria sido perdida em conseqüência: assim aconteceria no Parto, assim aconteceria na Menstruação. Pode-se concluir que o Israelita de então via tanto a menstruação como o parto da mulher como fontes de vida, donde o respeito e verdadeira veneração religiosa por esses estados físicos. E é esse o ponto central da posição da mulher na vida social, familiar e moral de então. Por isso a mulher desempenhava uma função de grande projeção na vida religiosa do Povo dos Filhos de Israel donde a existência de alguns capítulos especiais que tratam da "impureza" dela tanto quando da menstruação (Lv 15,19-30) como quando do parto (Lv 12,1-8). Nunca se deve perder de vista que a "impureza" não é tal qual se entende atualmente no tocante à higiene, com se fora uma "sujeira", mas se resumia na impossibilidade de comparecimento ao Santuário, bem como para qualquer ofício religioso, aqui por causa do sangue por ela perdido, "sangue que foi a vida que gerou", no parto ou "em vias de gerar", na menstruação. Tanto é assim que a oferenda no Holocausto e no Sacrifício de Expiação, no parto, busca restituir-lhe a "pureza do fluxo do seu sangue", não se tratando de perdão de qualquer falta como nos rituais típicos (Lv 5, 10.13.16-19.25-26), eis que o narrador é explícito ao dizer que ela "será limpa do fluxo do seu sangue" e não que ela "será perdoada do fluxo do seu sangue":

"E, quando forem cumpridos os dias da sua purificação, seja por filho ou por filha, trará um cordeiro de um ano para holocausto, e um pombinho ou uma rola para oferta pelo pecado, à porta da tenda da revelação, ao sacerdote, o qual o oferecerá perante o Senhor, e fará expiação por ela; então ela será limpa do fluxo do seu sangue. Esta é a lei da que der à luz menino ou menina. Mas, se as suas posses não bastarem para um cordeiro, então tomará duas rolas, ou dois pombinhos: um para o holocausto e outro para a oferta pelo pecado; assim o sacerdote fará expiação por ela, e ela será limpa" (Lv 12,6-8).

Cabe levar em conta também que o respeito pelo sangue que devotava o Israelita, vem manifestado de várias formas destacando-se algumas dentre elas:

  1. É proibido na alimentação sob pena grave de exclusão do meio social (Gn 9,3-4; Lv 7,26-27; 17,10-12; Dt 12,16.23; 15,23; 1Sm 14,32-35).
  2. É "escorrido no chão e coberto com terra", "como água" (Lv 17,13; Dt 12,24).
  3. É derramado em torno do Altar em oferenda a Iahweh (Lv 1,5.11.15; caps. 3-5).
  4. Nas Alianças de Sangue, estabelece laço vital (Gn 15,10-12; Ex 24,4-8; Hb 9,18-21).
  5. Proteção (Ex 12,7.23.27).
  6. Era usado para aspergir o Altar (Ex 29,16; Lv 3,2); o Sumo Sacerdote (Ex 29,21); o véu do Templo (Lv 4,6); para "untar / ungir" ('limpar') os chifres dos Altares" (Lv 4,7.18; 8,15).
  7. O sangue do Sacrifício purifica (Lv 14,6-7.14; Nm 19,4); expia (Lv 16; Lv 17; Lv 18); santifica (Ex 29,30-31).

Com ele se consagra (Ex 29,20-21; Lv 8,23-24.30; Ez 43,20).

Assim, com tal respeito pelo Sangue animal, o Israelita não poderia deixar de tratar com maior veneração ainda o Sangue da Mulher, "a mãe de todos os viventes" (Gn 3,20). E, conclui, de maneira imediata, que ocorre a morte quando o sangue se esvai e que de sua vida é que exala o vapor naturalmente quente quando escorre. Assim, como "o sangue expia enquanto é vida" (Lv 17,11) e em cada parto ocorre uma geração, há uma perda de vitalidade da mulher, eis que logicamente se então "perdeu sangue, perdeu vida". Necessita ela então de mais tempo para a recuperação de sua integridade vital e, então "purificada do fluxo do seu sangue" (Lv 12,7), comparecer perante Iahweh legalmente Santificada. Ocorre a necessidade de mais tempo também quando o nascituro é do sexo feminino, outra "mãe de viventes", outra "geradora de vida pelo fluxo do sangue" (Lv 12,5-6), influindo também nesse critério a maior responsabilidade da Mulher pelo desate do Pecado Original.

Já no caso do Homem, e do Homem e da Mulher no relacionamento sexual, em virtude de emissão seminal normal, a impureza de ambos desaparece pelo decurso do tempo "até a tarde" (Lv 15,16-17), e da mesma forma a Mulher na menstruação demandará o decurso do tempo de sete dias (Lv 15,19), pelos mesmos motivos já delineados no caso de parto. Exigem o Holocausto e o Sacrifício Expiatório os casos de emissão seminal ou de sangue quando enfermos pelo que, ao oitavo dia após os sete dias de purificação, buscarão a intervenção do Sacerdote para a purificação sacrificial (Lv 15,13-15.28-30). De qualquer maneira o aspecto da reprodução humana no que se refere ao genital e suas manifestações é objeto de instituição especial no tocante à Santidade exigida para o Povo de Deus:

"Assim separareis os filhos de Israel da sua impureza, para que não morram por causa delas, contaminando o meu tabernáculo, que está no meio deles. Esta é a lei daquele que tem o fluxo e daquele de quem sai o sêmen, de modo que por eles se torna impuro; como também da mulher enferma com a sua impureza e daquele que tem o fluxo, tanto do homem como da mulher, e do homem que se deita com mulher impura" (Lv 15,31-33).

Maria, fiel cumpridora dos compromissos religiosos, após os sete dias de sua purificação, no oitavo dia, quando da circuncisão de Jesus, cumpre este preceito junto com a "consagração de 'seu filho primogênito'" (Ex 13,1.11 / Lc 2,7), com a oferta de pobre que era e como exigia a lei (Lv 12,8):

"Terminados os dias da purificação, segundo a lei de Moisés, levaram-no a Jerusalém, para apresentá-lo ao Senhor, como está escrito na Lei do Senhor: 'Todo primogênito será consagrado ao Senhor', e para oferecerem um sacrifício segundo o disposto na lei do Senhor: 'um par de rolas, ou dois pombinhos'" (Lc 2,22-24).

Ainda no Evangelho há, a cura que Cristo operou da hemorroíssa:

"E eis que certa mulher, que havia doze anos padecia de fluxo de sangue, chegou por detrás dele e tocou-lhe a orla do manto; porque dizia consigo: Se eu tão somente tocar-lhe o manto, ficarei curada. Mas Jesus, voltando-se e vendo-a, disse: Tem ânimo, filha, a tua fé te salvou. E desde aquela hora a mulher ficou curada" (Mt 9,20-22).

Por estar assim profundamente vinculado indestacavelmente à vida é que ingerindo o Sangue de Cristo na Ceia Eucarística, ingerimos a Sua Vida, tal como anunciara:

"Disse-lhes Jesus: ...(...)... Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia. Porque a minha carne verdadeiramente é comida, e o meu sangue verdadeiramente é bebida. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele. Assim como o Pai, que vive, me enviou, e eu vivo pelo Pai, assim, quem de mim se alimenta, também viverá por mim" (Jo 6,53-57).

"...eu vim para que tenham vida e a tenham em plenitude" (Jo 10,10).


13.2 A Pureza Legal e a Lepra

A Bíblia, escrita sob a Inspiração do Espírito Santo, tem nEle um só e único Autor, pelo que mantém entre os livros que a compõem uma coerência inflexível. Assim entendido, quando se esbarra com algo inexplicável, é de se procurar em outras de suas partes o esclarecimento necessário. É o caso da Lepra aqui narrada, que tanto pavor instilava antigamente, observando-se inicialmente que não se narra em lugar nenhum os sintomas mais drásticos e conhecidos da falta de sensibilidade em locais do corpo bem como de decomposição e deformação de extremidades. Além disso, pelos vários sintomas descritos (Lv 13 e Lv 14), evidencia-se que não se deve tratar de uma mesma doença, bastando a menção de sintomas de úlceras, feridas e manchas de pele, até mesmo de Lepra de Casas (Lv 14,33-53) e de Vestes (Lv 13,47-59) para confirmar esta afirmação. Além disso, sabendo-se que a lepra propriamente dita era incurável naquele tempo, não deixa de ser contraditório um ritual para o caso de sua cura. Acontece, porém, que, conforme afirmado, vê-se em vários outros trechos da Escritura a mesma denominação aparecendo como sendo fruto de "um castigo de Iahweh" e com os mais variados nomes:

"Então disse o Senhor a Moisés e a Aarão: Tomai mancheias de cinza do forno, e Moisés a espalhe para o céu diante dos olhos de Faraó; (...) e ela se tornou em tumores que arrebentavam em úlceras nos homens e no gado" (Ex 9-10).

"Assim se acendeu a ira do Senhor contra eles; e ele se retirou; também a nuvem se retirou de sobre a tenda; e eis que Miriã se tornara leprosa, branca como a neve; e olhou Aarão para Miriã e eis que estava leprosa. (...) Clamou, pois, Moisés ao Senhor, dizendo: Ó Deus, rogo-te que a cures" (Nm 12,9-13)

"O Senhor te ferirá com as úlceras do Egito, com tumores, com sarna e com coceira, de que não possas curar-te (...) Com úlceras malignas, de que não possas sarar, o Senhor te ferirá nos joelhos e nas pernas, sim, desde a planta do pé até o alto da cabeça" (Dt 28,27.35).

"Tendo o rei de Israel lido a carta, rasgou as suas vestes, e disse: Sou eu Deus, que possa matar e vivificar, para que este envie a mim um homem a fim de que eu o cure da sua lepra? (...) Desceu ele, pois, e mergulhou-se no Jordão sete vezes, conforme a palavra do homem de Deus; e a sua carne tornou-se como a carne dum menino, e ficou purificado" (2Rs 5,7-14).

"...e se opuseram ao rei Uzias, dizendo-lhe: A ti, Uzias, não compete queimar incenso perante o Senhor, mas aos sacerdotes, filhos de Aarão, que foram consagrados para queimarem incenso. (...) Então Uzias se indignou; e tinha na mão um incensário para queimar incenso. Indignando-se ele, pois, contra os sacerdotes, nasceu-lhe a lepra na testa, perante os sacerdotes, na casa do Senhor, junto ao altar do incenso. (...) pois Iahweh o ferira. Assim ficou leproso o rei Uzias até o dia da sua morte..." (2Cr 26,18-23 / 2Rs 15,5).

O que se constata de tudo isto é que tanto a lepra propriamente dita era incurável como o exame das feridas, úlceras, manchas na pele, mofo e bolor nas casas e nas vestes etc., conhecidos também pelo mesmo nome de lepra, se destinavam a localizá-la no início, isolando-se o portador do contato "impuro" com o Santuário e com os demais membros da comunidade Israelita, por causa da sua "impureza", até que fosse curado e voltasse ao convívio. Dois fatores se destacam: Primeiro, não se buscava o doente para curá-lo, mas para isolá-lo; e, segundo, localizado, se não se constatou ter sido contaminado, ou se foi curado, após o exame pelo Sacerdote, um ritual todo especial o reintegrava na comunidade. O fato é que a lepra propriamente dita era um sinal de castigo divino tal como transcrito pelo que tudo era feito para se evitar a presença do impuro no Santuário ou qualquer ofício religioso, na mesma perspectiva já encontrada anteriormente em todos os casos. O ritual de sua reintegração era muito mais solene que os demais dada a seriedade das conseqüências da presença do mal e dos meios usados para se evitar o contágio da impureza. Tanto é assim que o primeiro ato do Sacerdote em qualquer caso é o isolamento do chagado, somente o reintegrando após a verificação da inexistência do mal.

Jesus em todas as oportunidades em que curou leprosos ou os purificou ("limpou") determinou o comparecimento deles para exame do Sacerdote para o retorno deles ao convívio:

"Quando Jesus desceu do monte, grandes multidões o seguiram. E eis que veio um leproso e o adorava, dizendo: Senhor, se quiseres, podes tornar-me limpo. Jesus, pois, estendendo a mão, tocou-o, dizendo: Quero; sê limpo. No mesmo instante ficou purificado da sua lepra. Disse-lhe então Jesus: Olha, não contes isto a ninguém; mas vai, mostra-te ao sacerdote, e apresenta a oferta que Moisés determinou, para lhes servir de testemunho" (Mt 8,1-4 / Lc 5,12-14; cfr. tb. Lc 17,11-19).

A purificação de leprosos é um dos sinais Messiânicos, mencionado por Jesus, e um dos poderes que deu na Missão Apostólica, ambos narrados por Mateus, respectivamente:

"Respondeu-lhes Jesus: Ide contar a João as coisas que ouvis e vedes: os cegos vêem, e os coxos andam; os leprosos são purificados, e os surdos ouvem; os mortos são ressuscitados, e aos pobres é anunciado o evangelho" (Mt 11,4-5).

"A estes doze enviou Jesus, e ordenou-lhes, dizendo: Não ireis aos gentios, nem entrareis em cidade de samaritanos; mas ide antes às ovelhas perdidas da casa de Israel; e indo, pregai, dizendo: É chegado o reino dos céus. Curai os enfermos, ressuscitai os mortos, limpai os leprosos, expulsai os demônios; de graça recebestes, de graça daí" (Mt 10,5-8).


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