LEVÍTICO    

10. O SACRIFICIO E OS DIREITOS, FUNÇÕES E DEVERES DOS SACERDOTES

Apresenta o narrador a seguir disposições relacionadas com os sacrifícios já descritos, especificando-se que partes seriam comidas pelos ofertantes, pelos sacerdotes oficiantes e sua família, pelo ofertante e seus familiares e quais seriam o "Pão de Iahweh" (Lv 21,6.8). Também a maneira de como se apresentar no Santuário e como manter-se na Santidade necessária ao seu ministério sacerdotal, na Pureza funcional dos Sacerdotes. Delas se deduz o que se denomina aqui de "direitos e deveres dos Sacerdotes", conforme os Sacrifícios a que se vinculam certas práticas racionalmente bem distribuídas. Por "direitos" ver-se-á aquelas porções que lhes sejam destinadas nos Sacrifícios e por "deveres" aqueles elementos constitutivos dos rituais litúrgicos a que dever-se-iam vincular cumprindo-os religiosamente. Seguindo a mesma ordem em que já foram apresentados: 

1.°) - No Holocausto Cotidiano - Desde Abraão excita a curiosidade o fato de Isaac, "enquanto caminhavam" (Gn 22,7a) e ao reclamar a ausência da vítima, mencionar a presença de um "fogo" (Gn 22,7c), já referido antes pelo narrador (Gn 22,6 - "...tomou na mão o fogo e o cutelo..."), indicando a existência e a exigência de um fogo especial, uma espécie de fogo sagrado que deveria ser mantido aceso. Quando da investidura de Aarão e seus filhos para o exercício do Sacerdócio, o Holocausto então oferecido foi consumido por um fogo do céu: 

"...e um fogo enviado por Iahweh consumiu o holocausto e as gorduras que estavam sobre o altar. Vendo, o povo inteiro prorrompeu em gritos de alegria, e prostraram-se todos com o rosto por terra" (Lv 9,24). 

Este fato vai se repetir outras vezes (Jz 6,21; 1Cro 21,26; 2Mac 2,10) e também quando da inauguração do Templo por Salomão, o que não deixa de ser um fato bem significativo pela freqüência com que ocorre: 

"Quando Salomão terminou a oração, caiu fogo do céu e devorou o holocausto e os sacrifícios; e a glória do Senhor encheu o templo. Os sacerdotes não puderam entrar no templo do Senhor, pois a glória do Senhor o enchia. Todos os filhos de Israel, quando viram o fogo descer e a glória do Senhor sobre o templo, se ajoelharam, com o rosto em terra, sobre o pavimento, adoraram e louvaram o Senhor: "Sim, ele é bom e eterno é seu amor". E Salomão com todo o povo ofereceu sacrifícios diante do Senhor . O rei Salomão imolou vinte e dois mil bois e cento e vinte mil ovelhas. Assim o rei e todo o povo inauguraram o templo de Deus" (2Cro 7,1-4). 

A existência desse tipo de fogo vem confirmada por um dos livros de Macabeus:

"Estamos para celebrar, no dia 25 do mês de Casleu, a purificação do templo. Por isso julgamos necessário dar-vos esta informação, para que também vós a celebreis a modo da festa das Tendas, e em memória do fogo que foi reencontrado quando Neemias ofereceu sacrifícios, depois de ter reconstruído o templo e o altar. Com efeito, quando nossos pais foram levados à Pérsia, os piedosos sacerdotes de então tiraram o fogo do altar e o ocultaram secretamente no fundo de um poço de água seco, resguardando-o de tal modo que o lugar permaneceu desconhecido de todos. Passados muitos anos, quando aprouve a Deus, Neemias, enviado pelo rei da Pérsia, determinou que os descendentes dos sacerdotes que haviam ocultado o fogo, o fossem procurar. Quando eles nos informaram que não tinham encontrado o fogo, mas sim um líquido espesso, ordenou-lhes que apanhassem daquele líquido e o trouxessem. Estando tudo disposto para o sacrifício, Neemias ordenou aos sacerdotes que aspergissem com o líquido a lenha e o que se encontrava sobre ela. A ordem foi executada. Quando o sol, antes recoberto por nuvens, recomeçou a brilhar, acendeu-se grande fogo, causando admiração em todos" (2Mac 1,18-22). 

Este fogo deve ser do tipo mantido sempre aceso pelos Sacerdotes num Holocausto Cotidiano (Ex 29,38-42; Nm 28,3-8), isto é, segundo uma antiga tradição, "o fogo vindo do céu" (Lv 9,24 / Ex 40,38), que dever-se-ia manter sempre aceso: 

"O Senhor falou a Moisés: "Manda dizer a Aarão e a seus filhos: Esta é a lei do holocausto: o holocausto ficará sobre a lareira do altar a noite inteira, até a manhã seguinte, e o fogo do altar será mantido aceso. (...) O fogo, porém, que arde sobre o altar, jamais se deve extinguir. Todas as manhãs o sacerdote o alimentará com lenha, porá sobre ela o holocausto, e queimará a gordura dos sacrifícios pacíficos. O fogo deve arder continuamente no altar, sem jamais se apagar" (Lv 6,1-6). 

Há tão grande respeito e veneração pela Santidade do Santuário que o Sacerdote que cuidava deste fogo sagrado deveria trocar a roupa que usava para levar as cinzas para fora do acampamento, evitando assim a contaminação com o profano (Lv 6,4). É que tanto o santificado como o impuro contaminavam as pessoas bem como os objetos que os tocavam (Lv 6,11c.18-23; Ex 29,37; Lv 11,24-28.31-40): 

" O sacerdote, vestindo túnica e roupa de baixo de linho, removerá as cinzas deixadas pelo fogo que consumiu o holocausto, e as depositará ao lado do altar. Depois de despir essas vestes e vestir outras, levará as cinzas para fora do acampamento, a um lugar não contaminado" (Lv 6,3-4). 

2.°) - Nas Oblações (Lv 2,1-16 / 6,7-11): 

"Esta é a lei da oblação: Os filhos de Aarão devem apresentá-la ao Senhor diante do altar. O sacerdote pegará um punhado de flor de farinha da oblação com azeite, bem como todo o incenso posto sobre a oferenda, e queimará no altar como memorial de suave odor ao Senhor. O restante da oblação, Aarão e seus filhos o comerão; deverá ser comido sem fermento, em lugar santo, no átrio da tenda de reunião. Não será assado com fermento. É a parte que lhes destinei dos sacrifícios que me são oferecidos pelo fogo. É coisa santíssima, da mesma forma como o sacrifício de expiação e o de reparação. Dela poderão comer todos os filhos de Aarão do sexo masculino. É uma lei perpétua para vossos descendentes, referente aos sacrifícios pelo fogo ao Senhor: tudo que os tocar fica sagrado" (Lv 6,7-11). 

Parte da Oblação constituída por "um punhado de flor de farinha com azeite, bem como todo o incenso posto sobre a oferenda" seria "queimada no altar como memorial de suave odor ao Senhor; e, o restante dela, Aarão e seus filhos comeriam sem fermento" no Santuário e "no átrio da Tenda de Reunião". Só Aarão e os seus filhos e descendentes masculinos dela poderiam comer, no Átrio em frente da Tenda da Reunião, nesse lugar sagrado, por ser Santíssima, dela "comendo" também Deus queimando-se uma parte "como memorial de suave odor ao Senhor" (Lv 6,8). Somente os homens comeriam dessas oblações pelo fato das mulheres da Casa de Aarão não terem sido "ungidas", e assim, "não santificadas para o múnus sacerdotal", não as poderiam tocar "por serem oferendas santíssimas" pelo que as profanariam pelo contagio. 

Apresenta-se a seguir uma Oblação especial que os filhos de Aarão deveriam oferecer no dia em que fossem "ungidos", distribuindo-a "metade de manhã e metade de tarde", instituída de forma perpétua e sempre que ocorresse a consagração para o exercício do Sacerdócio. O Sacerdote que a oferece, diferentemente de outros, dela não se beneficiaria comendo, pois pertence inteiramente a Iahweh: 

"O Senhor falou a Moisés, dizendo: "Esta é a oferta que Aarão e seus filhos farão no dia em que forem ungidos: quatro litros e meio de flor de farinha, como oblação perpétua, metade de manhã e metade de tarde. Será preparada na chapa e apresentá-la-ás embebida em azeite. Triturando-a em pedacinhos, oferecê-la-ás em suave odor ao Senhor. A mesma oblação fará o sacerdote que entre os filhos for ungido em seu lugar. É uma lei perpétua: será inteiramente queimada em honra ao Senhor. Toda oblação de um sacerdote será total, e não se comerá" (Lv 6,13-16). 

3.°) - Nos Sacrifícios Expiatórios ou Pelo Pecado (Lv 6,17-23 / Lv 4) - Esse ritual destaca a Santidade da vítima seja pelo lugar onde se dá a imolação, seja por onde se deve comê-la, seja pelos efeitos de qualquer contato com a carne ou com o sangue, seja pela parte reservada apenas aos Sacerdotes, seja por não comer dela o Ofertante que pecou, para não se beneficiar de seu pecado e em penitência. É imolada, após a imposição das mãos pelo Sacerdote em nome do Ofertante, no mesmo local do Holocausto e após a efusão do Sangue no Santuário, tornando-se assim Santíssima, pelo que qualquer contato com ela infunde Santidade, donde somente o Sacerdote celebrante e os colegas masculinos que permitir podem dela comer. No caso do oferecido pelo pecado do Sumo Sacerdote ou da Comunidade, ninguém dela comerá, devendo ser totalmente queimada, pois o sangue é derramado em lugar santo (Lv 6,23): 

"O Senhor falou a Moisés, dizendo: "Fala para Aarão e seus filhos: Esta é a lei do sacrifício expiatório. No lugar onde se imola o holocausto, também será imolada diante do Senhor a vítima pelo pecado. É coisa santíssima. O sacerdote que oferecer a vítima pelo pecado, dela poderá comer. Deve ser comida em lugar santo, no átrio da tenda de reunião. Tudo que tocar esta carne, ficará consagrado. Se o sangue respingar alguma veste, lavarás a mancha em lugar santo. A vasilha em que for cozida, será quebrada, se for de barro. Se for de bronze, será esfregada e lavada em água. Todo indivíduo de sexo masculino entre os sacerdotes poderá comer desta carne. É coisa santíssima. Mas não se poderá comer nenhuma vítima expiatória da qual se levou sangue à tenda de reunião para fazer a expiação no santuário; será queimada no fogo" (Lv 6,17-23). 

3.1. - Nos Sacrifícios Pelo Delito ou de Reparação (Lv 7,1-10) - Há aqui como que uma espécie de complemento delineando-se outros ritos a serem também observados no caso de ofensas mais simples, os delitos (Lv 5,14-26). A vítima será imolada no mesmo local do Holocausto e segue o mesmo ritual do Sacrifício de Reparação, podendo assim ter o seu dano avaliado, acrescido de um quinto e então pago ao Sacerdote que fará a expiação por ele (Lv 5,16.23-26). A vítima após a efusão do sangue torna-se "coisa santíssima" entregue ao sacerdote que fará a reparação pelo ofertante obedecendo as regras seguintes, dispensando-se comentários pela simplicidade do ato: 

"Será oferecida toda a gordura da vítima: a cauda, a gordura que envolve as vísceras, os dois rins com a gordura que os cobre na região lombar, e a camada de gordura do fígado que será separada com os rins. O sacerdote queimará tudo no altar, como sacrifício pelo fogo ao Senhor. Trata-se de um sacrifício de reparação. Dele poderá comer, em lugar santo, toda pessoa do sexo masculino entre os sacerdotes. É coisa santíssima" (Lv 7,3-6). 

Tanto aqui como no anterior a vítima é do sacerdote que faz a expiação, isto é, daquele que oferece a gordura queimando-a e derrama o sangue: 

"Vale a mesma lei tanto para o sacrifício expiatório, como para o sacrifício de reparação: A vítima pertence ao sacerdote que faz a expiação. Ao sacerdote que oferece o holocausto de alguém, pertence a pele da vítima que ofereceu. Toda oblação assada ao forno ou preparada em panela ou chapa, pertence ao sacerdote que oferece. Toda oferenda amassada com azeite ou seca, será para todos os descendentes de Aarão, sem distinção" (Lv 7,6-10). 

Destacam-se nos versículos finais a propriedade do Sacerdote que faz a expiação, da pele dos animais e das Oblações peculiares a estes tipos de Sacrifícios, se assada ao forno ou na panela, ou se amassada com ou sem azeite, pertencerá então a todos os filhos de Aarão indistintamente.

4.°) - Nos Sacrifícios Pacíficos, ou Salutares ou Refeições Sagradas (Lv 3,1-17 / Lv 7,11-21) - Pela sua relação com a Multiplicação dos Pães e com a Ceia Pascal, unidas por Cristo na Eucaristia, este ritual é muito importante para os Cristãos. Completando-se o que já foi apresentado a respeito, aparece um tipo especial de Oblação que se incorpora à vítima (Lv 7,12-14) bem como regras atinentes ao consumo da carne (Lv 7,15-21). Divide-se conforme a finalidade pretendida em Sacrifícios de Ação de Graças ou de Louvor ou de Reconhecimento (Lv 7,12-15) e o Sacrifício Votivo ou Espontâneo por qualquer motivo (Lv 7,16-17). Por primeiro vem o Sacrifício de Ação de Graças, que em grego se diz "Eucaristia": 

"Esta é a lei do sacrifício pacífico que se oferece ao Senhor: Se for oferecido em ação de graças, além da vítima de ação de graças, serão oferecidos pães ázimos amassados com azeite, bolos ázimos untados de azeite, e flor de farinha embebida em azeite. Além destes, com o sacrifício pacífico de ação de graças, será oferecido pão fermentado" (Lv 7,11-13)  

Não pode haver outro motivo para assim se denominar a Ceia Eucarística das Missas, vendo nela a Oblação de Cristo, "atualizada" no "Pão Ázimo" da Hóstia da Comunhão, que é o Seu Corpo, tal como a ela se refere o Catecismo da Igreja Católica, no n.° 610: 

"Jesus fez a manifestação suprema da Oblação Livre de Si mesmo na refeição que tomou com os doze Apóstolos (cf. Mt 26,20), na "noite em que foi entregue" (1Cor 11,23). Na véspera da sua Paixão, quando ainda era livre, Jesus fez desta última Ceia com os Apóstolos o memorial da Sua Oblação Voluntária ao Pai (cf. 1Cor 5,7) para a salvação dos homens: "Isto é o meu Carpo, que vai ser entregue por vós" (Lc 22,19). "Isto é o meu 'Sangue de Aliança', que vai ser derramado por uma multidão, para a remissão dos pecados" (Mt 26,28) (negritos propositais). 

Prossegue o Catecismo n.°s. 1328 a 1332 referindo-se ao Sacramento da Eucaristia: 

1328 - II. Como é chamado este sacramento? 

A riqueza inesgotável deste sacramento exprime-se nos diferentes nomes que lhe são dados. Cada um destes nomes evoca alguns dos seus aspectos. Ele é chamado: 

Eucaristia, porque é ação de graças a Deus. As palavras "eucharistein" (Lc 22,19; 1Co 11,24) e "eulogein" (Mt 26,26; Mc 14,22) lembram as bênçãos judaicas que proclamam - sobretudo durante a refeição - as Obras de Deus: a Criação, a Redenção e a Santificação. 

1329 - Banquete do Senhor (1Co 11,20), porque se trata da Ceia que o Senhor tomou com os discípulos na véspera da sua Paixão e da antecipação do banquete nupcial do Cordeiro (Ap 19,9) na Jerusalém Celeste. 

Fração do Pão, porque este rito, próprio da refeição dos judeus, foi utilizado por Jesus quando abençoava e distribuía o pão como chefe de família (Mt 14,19; 15,36; Mc 8,6.19), sobretudo aquando da última Ceia (cf. Mt 26,26; 1Co 11,24). É por este gesto que os discípulos O reconhecerão depois da Ressurreição (cf. Lc 24,13-35) e é com esta expressão que os primeiros cristãos designarão as suas Assembléias Eucarísticas (cf. At 2,42.46; 20,7.11). Querem com isso significar que todos os que comem do único pão partido, Cristo, entram em comunhão com ele e formam um só corpo nEle (cf. 1Co 10,16-17). 

Assembléia Eucarística ("synaxis"), porque a Eucaristia é celebrada em Assembléia de Fiéis, expressão visível da Igreja (cf. 1Co 11,17-34). 

1330 - Memorial da Paixão e Ressurreição do Senhor. 

Santo Sacrifício, porque atualiza o único Sacrifício de Cristo Salvador e inclui a oferenda da Igreja; ou ainda Santo Sacrifício da Missa, "Sacrifício de Louvor" (Hb 13,15) [cf. Sl 116,13.17], Sacrifício Espiritual (1Pe 2,5), Sacrifício Puro e Santo (cf. Ml 1,11), pois completa e ultrapassa todos os Sacrifícios da Antiga Aliança. 

Santa e Divina Liturgia, porque toda a Liturgia da Igreja encontra o centro e a sua expressão mais densa na celebração deste Sacramento; no mesmo sentido também se lhe chama celebração dos Santos Mistérios. Fala-se igualmente do Santíssimo Sacramento, porque é o Sacramentos dos Sacramentos. E, com este nome, se designam as Espécies Eucarísticas guardadas no Sacrário. 

1331 - Comunhão, pois é por este Sacramento que nos unimos a Cristo, o qual nos torna participantes do Seu Corpo e do Seu Sangue, para formarmos um só Corpo (cf. 1Co 10,16-17); designa-se ainda as coisas santas ("ta hagia"; "sancta") (Const. App. 8, 13, 12; Didaké 9,5; 10,6) - é o sentido primário da "Comunhão dos Santos" de que fala o Símbolo dos Apóstolos -, pão dos anjos, pão do céu, remédio da imortalidade (Santo Inácio de Antioquia, Ef 20,2), viático... 

1332 - Santa Missa, porque a Liturgia em que se realiza o Mistério da Salvação termina pela despedida dos fiéis ("missio"), para que vão cumprir a vontade de Deus na sua vida quotidiana" (negritos a propósito). 

A comunhão em "figura" que se buscava vai se "cumprir" no Sacrifício Eucarístico que "atualiza o único Sacrifício de Cristo Salvador e inclui a oferenda da Igreja". Não seria possível essa afirmação do Catecismo se não tivesse seu fundamento na Instituição da Eucaristia por Jesus. É preciso se lembrar que se necessitamos de estudar a Lei dos Sacrifícios, com os Apóstolos não acontecia o mesmo, eis que, vinculados à mesma cultura de seu tempo, conheciam a Teologia das Oferendas o suficiente para não lhes parecer um mistério. Compreenderam desde então que na Festa dos Pães Ázimos (Ex 13,3-7), terminada a Ceia Pascal judaica (Lc 22,18), Jesus toma o Pão e se faz a Oblação Eucarística (Lc 22,19): 

"Chegou, pois, o dia da Festa dos Pães Ázimos, em que se devia matar o Cordeiro Pascal. Jesus enviou Pedro e João, dizendo-lhes: "Ide preparar-nos a Ceia da Páscoa"... (...) ... Ao chegar a hora, Jesus se pôs à mesa com os apóstolos e lhes falou: "Desejei ardentemente comer esta Ceia da Páscoa convosco antes de sofrer. Pois eu vos digo: Nunca mais a comerei, até que ela se realize no reino de Deus". Tomando um cálice, deu graças e disse: "Tomai este cálice e distribuí entre vós. (18) Pois eu vos digo: Não mais beberei deste vinho até que chegue o reino de Deus". (19) E tomando um pão, deu graças, partiu-o e deu-lhes dizendo: "Isto é o meu corpo, que é dado por vós. Fazei isto em memória de mim". Do mesmo modo, depois de haver ceado, tomou o cálice, dizendo: "Este cálice é a nova aliança em meu sangue, derramado por vós" [Lc 22,7-8.14-20 - versículos (18) e (19) destacados a propósito]. 

Enquanto que Cristo se faz o Único Sacerdote, o Único Ofertante,. a Única Vítima e a Única Oblação, do que todos participam, no Sacrifício Israelita há uma distribuição da vítima imolada, destacando-se aqui a parte que pertencerá ao Sacerdote Celebrante, que é aquela que se destina a Iahweh: 

"Além destes, com o sacrifício pacífico de ação de graças, será oferecido pão fermentado. Uma parte de cada uma destas oferendas será oferecida como tributo ao Senhor, e pertencerá ao sacerdote que derramou o sangue da vítima do sacrifício pacífico" (Lv 7,13-14). 

Já a carne desse tipo de Sacrifício, por ser mais santa que a dos Pacíficos, dever-se-á cuidar para não se tornar impura ou corrompida, motivo pelo qual comer-se-á toda no mesmo dia. Já a dos votivos ou espontâneos poderá permanecer até o dia seguinte, após cujos intervalos deverão ser totalmente queimadas, sob pena de ineficácia da oferenda: 

"A carne da vítima do sacrifício pacífico de ação de graças será comida no próprio dia em que for oferecida; dela nada se deverá deixar para o dia seguinte. Se a oferta do sacrifício for em cumprimento de um voto, ou for espontânea, será comida no dia em que se oferecer. O que sobrar poderá ser comido no dia seguinte. Mas o que sobrar da carne do sacrifício para o terceiro dia, deverá ser queimado. Se alguém ao terceiro dia comer do sacrifício pacífico, o ofertante não será aceito, nem lhe será levado em conta o que ofereceu. É carne infecta e a pessoa que dela comer carregará o peso da sua culpa" (Lv 7,15-18). 

O cuidado com a carne imolada como vítima exigia que se evitasse o menor contato com aquilo que fosse considerado impuro (Lv 11-15), sob pena de ser queimada, para não comprometer a sua Santidade, e, pelo mesmo motivo, os participantes "impuros" não poderiam dela comer: 

"A carne que tiver tocado qualquer coisa impura não se deverá comer. Será consumida pelo fogo. Mas da outra carne poderá comer quem estiver puro. Mas quem comer carne do sacrifício pacífico oferecido ao Senhor, apesar de estar impuro, será eliminado do seu povo. Quem tocar qualquer imundície de homem ou animal, ou qualquer outra imundície abominável, e comer carne do sacrifício pacífico pertencente ao Senhor, será eliminado do seu povo" (Lv 7,19-21). 

Por tudo isso se vê o cuidado com o Sagrado e a Santidade daí emanadas, caráter especificamente Israelita quanto aos Sacrifícios. Tudo aquilo que a ele se referia, pessoas, objetos e coisas, eram Santificadas pela "unção" ou pelo contato com o que o fosse, devendo assim permanecer. Este zelo pelo sagrado faz da Aliança muito mais do que um simples compromisso de boa conduta e comportamento, mas leva a traduzir em gestos e atitudes de reconhecimento interior, a majestade de Deus convertido em cuidadosa e elaborada adoração, em que Deus é o centro de tudo e tudo o mais gira em seu redor. Nos Sacrifícios traduzia-se um profundo respeito pelo que Lhe concernia, assim como no modo de se alimentar, abstendo-se da gordura e do Sangue de animais, mesmo abatidos por acidente, sendo muito mais rigorosa a sanção em se tratando de Sangue: 

"O Senhor falou a Moisés: "Fala aos israelitas: Não comereis gordura alguma de boi, ovelha ou cabra. Da gordura de um animal morto ou estraçalhado, podereis servir-vos para qualquer uso, mas de maneira alguma a comereis. Pois todo aquele que comer gordura de animal que se oferece pelo fogo ao Senhor, será eliminado do povo. Não comereis sangue algum, nem de ave, nem de animal, em nenhuma de vossas moradias. Aquele que comer qualquer espécie de sangue, será extirpado do povo" (Lv 7,22-27).  

"... É um alimento oferecido pelo fogo, de suave odor. Toda a gordura pertence ao Senhor. Esta é uma lei perpétua, válida para vossos descendentes, onde quer que habiteis: Não devereis comer nenhuma gordura ou sangue" (Lv 3,16-17). 

Coerentemente com toda a estrutura básica do Santuário, finaliza-se então a regulamentação de todos os Sacrifícios com a previsão das partes dos sacerdotes, as parte de Iahweh: 

"O Senhor falou a Moisés, dizendo: "Fala aos israelitas: Aquele que oferecer ao Senhor um sacrifício pacífico, levará ao Senhor a oferta tirada do sacrifício pacífico. Levará com as próprias mãos o que se oferecer pelo fogo ao Senhor: levará a gordura além do peito a ser agitado ritualmente diante ao Senhor. O sacerdote queimará a gordura no altar, e o peito ficará para Aarão e seus filhos. Dareis também ao sacerdote a coxa direita, como tributo de vossos sacrifícios pacíficos. Aquele dentre os filhos de Aarão que oferecer o sangue do sacrifício pacífico e a gordura, é que terá a coxa direita como parte. Pois dos sacrifícios pacíficos dos israelitas reservei para mim o peito agitado ritualmente e a coxa do tributo, e dei-os a Aarão e a seus filhos, como lei perpétua a ser observada pelos israelitas. Essa é a parte de Aarão e de seus filhos nos sacrifícios oferecidos pelo fogo ao Senhor, desde o dia em que foram promovidos a exercer o sacrifício diante do Senhor. Foi o que o Senhor lhes mandou dar da parte dos israelitas, desde o dia da unção, como lei perpétua para todas as gerações". Esta é a lei para o holocausto, a oblação, o sacrifício pelo pecado, o sacrifício de reparação, o sacrifício da consagração e o sacrifício pacífico. Foi o que o Senhor ordenou a Moisés no monte Sinai, no dia em que mandou os israelitas oferecerem oblações ao Senhor no deserto do Sinai" (Lv 7,28-38). 

"Pois dos sacrifícios pacíficos dos israelitas reservei para mim o peito agitado ritualmente e a coxa da elevação, e dei-os a Aarão e a seus filhos, como lei perpétua a ser observada pelos israelitas" (Lv 7,34) - este cerimonial será sempre observado entendendo-se pela agitação feita da parte a destinação dela a Iahweh pelo primeiro lance do movimento e a sua destinação ao Sacerdote passando pelas mãos do ofertante, no seu retorno de Iahweh, e da mesma forma o ritual da elevação da coxa: 

"Dareis também ao sacerdote a coxa direita, como tributo de vossos sacrifícios pacíficos. Aquele dentre os filhos de Aarão que oferecer o sangue do sacrifício pacífico e a gordura, é que terá a coxa direita como parte. Pois dos sacrifícios pacíficos dos israelitas reservei para mim o peito agitado ritualmente e a coxa do tributo, e dei-os a Aarão e a seus filhos, como lei perpétua a ser observada pelos israelitas. Essa é a parte de Aarão e de seus filhos nos sacrifícios oferecidos pelo fogo ao Senhor, desde o dia em que foram promovidos a exercer o sacrifício diante do Senhor. Foi o que o Senhor lhes mandou dar da parte dos israelitas, desde o dia da unção, como lei perpétua para todas as gerações". Esta é a lei para o holocausto, a oblação, o sacrifício pelo pecado, o sacrifício de reparação, o sacrifício da consagração e o sacrifício pacífico. Foi o que o Senhor ordenou a Moisés no monte Sinai, no dia em que mandou os israelitas oferecerem oblações ao Senhor no deserto do Sinai" (Lv 7,35-38). 

Desde o Sinai, em várias ocasiões, a Lei da Aliança quando determinava que "ninguém compareça à minha presença de mãos vazias" (Ex 23,15...) e também com a distribuição aos Sacerdotes de partes da vítima, "como tributo a Iahweh", já se anunciava uma das finalidades das "Oferendas", agora como meio provisório de manutenção do culto, o que posteriormente receberá grande modificação cultual, em cuja composição situar-se-á o "Dízimo", que é uma delas.


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