Porém o Maná não livrara os Israelitas de problemas outros e com os amalecitas repete-se outro milagre com a "Vara de Deus", aquela que foi entregue a Moisés e Aarão para a execução dos prodígios (Ex 4,17 / 14,16 / 17,6): "enquanto Moisés mantinha as mãos que a empunhava suspensas Israel prevalecia" obrigando Aarão e Hur a forçar a sustentação delas nessa posição até que Josué os vence em definitivo (Ex 17,8-16), e se tornam inimigos irreconciliáveis e tradicionais, por ordem do próprio Deus (Ex 17,14 / 1Sm 15):
"As mãos de Moisés,
porém, ficaram cansadas; por isso tomaram uma pedra, e a puseram
debaixo dele, e ele sentou-se nela. Aarão e Hur sustentavam-lhe
as mãos, um de um lado e o outro do outro; assim ficaram as suas
mãos firmes até o pôr do sol. Josué prostrou
a Amalec e a seu povo, ao fio da espada. Então disse o Senhor a
Moisés: Escreve isto para memorial num livro, e relata-o aos ouvidos
de Josué; que eu hei de riscar totalmente a memória de Amalec
de debaixo do céu. Pelo que Moisés edificou um altar..."
(Ex 17,12-15).
Como ação de graças pela vitória Moisés
oferece um sacrifício, "pelo que Moisés edificou um altar...",
prosseguindo a tradição dos Patriarcas que o têm como
centro do culto. Cumprida a sua missão libertadora, Moisés
recebe a visita de Jetro, seu sogro, trazendo-lhe de volta a esposa e os
filhos (Ex 4,24-26). Tomando conhecimento
de tudo o que acontecera (Ex 18,8) parece
se converter reconhecendo "Iahweh como o maior de todos os deuses" (Ex
18,9-11) e aconselha Moisés a distribuir funções
para administrar a justiça entre os israelitas e a manutenção
da ordem (Ex 18,17-26):
"E alegrou-se Jetro por
todo o bem que o Senhor tinha feito a Israel, livrando-o da mão
dos egípcios, e disse: Bendito seja o Senhor, que vos livrou da
mão dos egípcios e da mão de Faraó; que livrou
o povo de debaixo da mão dos egípcios. Agora sei que o Senhor
é maior que todos os deuses; até naquilo em que se houveram
arrogantemente contra o povo. Então Jetro, o sogro de Moisés,
tomou holocausto e sacrifícios para Deus; e veio Aarão, e
todos os anciãos de Israel, para comerem pão com o sogro
de Moisés diante de Deus" (Ex
18,9-12).
"... Jetro, o sogro de Moisés, tomou holocausto e sacrifícios
para Deus; e veio Aarão, e todos os anciãos de Israel, para
comerem pão com o sogro de Moisés diante de Deus" - novamente
o sacrifício compondo o culto israelita em que todos participam
"comendo o pão diante de Deus", santificando-se pela comunhão
estabelecida. Aqui se trava contato com a expressão "comento
o pão" que é o modo como se denominava a vítima
imolada e consumida no sacrifício e se estabelecia a comunhão
com Deus ("...o pão de seu Deus..." - Lv
21,6.8 / 1Cor 10,18). Além disso ofereceu-se "holocausto
e sacrifícios", o holocausto como oferenda toda queimada (Lv
1) e os sacrifícios como refeições sagradas
(Lv 3-5). O clima religioso e místico
atingia o seu ápice e caminhava para o "servir a Deus no monte Sinai"
tal como anunciado por Deus (Ex 3,12). A presença
ai do sacrifício, antes de sua regulamentação ritual,
demonstra o uso anterior de tudo o que agora se ordenava.
Aquele desígnio de Deus de estabelecer com o Homem uma vida em comunhão, intimidade e familiaridade, retardado pelo Pecado Original, e que se renovou na Aliança com Abraão, deverá se realizar "numa grande nação" (Gn 12,2) que agora se torna o Povo de Deus. E é nesse Monte Sinai que o Povo dos Filhos de Israel se torna oficialmente Povo de Deus, cujos compromissos com os Patriarcas deverão ser ratificados e assumidos por ele. Para isso, por primeiro, Deus se propõe:
"Então subiu Moisés
a Deus, e do monte o Senhor o chamou, dizendo: 'Assim falarás à
casa de Jacó, e anunciarás aos filhos de Israel: Vós
tendes visto o que fiz aos egípcios, como vos levei sobre asas de
águia, e vos trouxe a mim. Agora, pois, se ouvirdes a minha voz
e guardardes a minha Aliança, sereis a minha propriedade peculiar
entre todos os povos, porque minha é toda a terra; e vós
sereis para mim um reino de sacerdotes e uma nação santa.
São estas as palavras que falarás aos filhos de Israel"
(Ex 19,3-6).
"...se ouvirdes a minha voz e guardardes a minha Aliança..."
- A Aliança contraída com Abraão, Isaac e Jacó
deveria ser ratificada com os Povo dos Filhos de Israel. Então,
na condição de profeta e medianeiro, "veio Moisés
e, tendo convocado os anciãos do povo, expôs diante deles
todas estas palavras, que o Senhor lhe tinha ordenado" (Ex
19,7), e o Povo de Deus assume sua missão:
"Então todo o
povo respondeu a uma voz: Tudo o que Iahweh disse, nós o faremos"
(Ex 19,8a).
"E relatou Moisés ao Senhor as palavras do povo" (Ex
19,8b). Pode-se imaginar o suspense que se estabeleceu no momento,
a emoção que deve ter tomado conta de todos, num clima de
profunda comunhão, um Povo que ali se formava no seio de Deus, o
"Primogênito de Deus" (Ex 4,22), "as
primícias da fecundidade salvífica de Deus" (parodiando Gn
49,3):
"Então disse o Senhor a Moisés: 'Eis que eu virei a ti
em uma nuvem espessa, para que o povo ouça quando eu falar contigo
e também sempre creia em ti.' E Moisés relatou a Iahweh as
palavras do seu povo" (Ex 19,9).
De algum modo esta cena lembra a "Transfiguração de Jesus",
principalmente pela presença da "nuvem", característica de
toda teofania:
"Seis dias depois, tomou
Jesus consigo a Pedro, a Tiago e a João, irmão deste, e os
conduziu à parte a um alto monte; e foi transfigurado diante deles;
o seu rosto resplandeceu como o sol, e as suas vestes tornaram-se brancas
como a luz. E eis que lhes apareceram Moisés e Elias, falando com
ele. Pedro, tomando a palavra, disse a Jesus: 'Senhor, bom é estarmos
aqui; se queres, farei aqui três cabanas, uma para ti, outra para
Moisés, e outra para Elias.' Estando ele ainda a falar, eis que
uma nuvem luminosa os cobriu; e dela saiu uma voz que dizia: 'Este
é o meu Filho amado, em quem me comprazo; a ele ouvi.' Os discípulos,
ouvindo isso, caíram com o rosto em terra, e ficaram grandemente
atemorizados" (Mt 17,1-6).
Momento dramático da vida de Jesus logo após haver anunciado
a sua Paixão necessitando os apóstolos então muito
mais fortalecimento da fé, em que Deus se manifesta "na nuvem" e
lhes afiança: - "Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo;
a ele ouvi", pelo mesmo motivo com Moisés em que "eu virei a ti
em uma nuvem espessa, para que o povo ouça quando eu falar contigo
e também sempre creia em ti."
Aqui também foi um momento dramático em que Deus e o Povo de Israel selariam uma Aliança para todo o sempre e passa Moisés a preparar os Filhos de Israel para a teofania que iria selar a Aliança aceita:
"Disse mais o Senhor
a Moisés: "Vai ao povo, e santifica-os hoje e amanhã; lavem
eles as suas vestes, e estejam prontos para o terceiro dia; porquanto no
terceiro dia descerá o Senhor diante dos olhos de todo o povo
sobre o monte Sinai. Também marcarás limites ao povo
em redor, dizendo: Guardai-vos, não subais ao monte, nem toqueis
o seu termo; todo aquele que tocar o monte será morto. Mão
alguma tocará naquele que o fizer, mas ele será apedrejado
ou flechado; quer seja animal, quer seja homem, não viverá.
Quando soar a buzina longamente, subirão eles até o pé
do monte." Então Moisés desceu do monte ao povo, e santificou
o povo; e lavaram os seus vestidos. E disse ele ao povo: "Estai prontos
para o terceiro dia; e não vos unais a mulher" (Ex
19,10-15).
"... santifica-os hoje e amanhã...", "...lavem eles as suas vestes..."
e "... não vos unais a mulher" - são três expressões
muito vinculadas entre si, formando um todo. No termo "santificar" está
clara a "separação do profano", o sentido da consagração
a Deus, depois a purificação simbolizada no "lavar suas vestes".
Já na determinação de "... não vos unais a
mulher" não se há de entender que a união com a mulher
em si teria sido tida como impura, eis que a mulher fazia parte do povo
ali em congregação, mas no sentido de que no ato de separação,
ou santificação, inclui-se a relação sexual
pelo respeito à vida que gerava, tal como o respeito ao sangue (Lv
15,18; 1Sm 21,5), num gesto de consagração total,
e nunca de repulsa. Assim preparados, manifesta-se Deus:
"Ao terceiro dia, ao
amanhecer, houve trovões, relâmpagos, e uma nuvem espessa
sobre o monte; e ouviu-se um som de trombeta mui forte, de maneira que
todo o povo que estava no acampamento estremeceu. E Moisés levou
o povo fora do acampamento ao encontro de Deus; e puseram-se ao pé
do monte. Nisso todo o monte Sinai fumegava, porque o Senhor descera sobre
ele em fogo; e a fumaça subiu como a fumaça de uma fornalha,
e todo o monte tremia fortemente. E, o som da trombeta cada vez mais forte,
Moisés falava, e Deus lhe respondia. E, tendo o Senhor descido sobre
o monte Sinai, sobre o cume do monte, chamou Moisés; e Moisés
subiu. Então disse o Senhor a Moisés: "Desce, adverte ao
povo, para não suceder que traspasse os limites até o Senhor,
a fim de ver, e muitos deles pereçam. Ora, santifiquem-se também
os sacerdotes, que se chegam ao Senhor, para que o Senhor não se
lance sobre eles". Respondeu Moisés ao Senhor: "O povo não
poderá subir ao monte Sinai, porque tu nos tens advertido, dizendo:
'Marca limites ao redor do monte, e santifica-o". Ao que lhe disse o Senhor:
"Vai, desce; depois subirás tu, e Aarão contigo; os sacerdotes,
porém, e o povo não traspassem os limites para subir ao Senhor,
para que ele não se lance sobre eles". Então Moisés
desceu ao povo, e disse-lhes isso" (Ex
19,16-25).
A presença de Deus foi de tal majestade que apesar do povo estremecer,
não fugiu, sendo até necessário impor-lhe limites
de acesso ao lugar sob pena de lapidação. Então a
descrição do fenômeno não se limita ao natural
que ocorre com um vulcão que a tudo destrói e a todos amedronta.
Não houve tal reação, ao contrário, aqui a
teofania atraiu. Deus preparava uma solenidade à altura do que ali
se consumava: a Aliança de Deus com o Homem, em que as condições
são todas pronunciadas e claramente ouvidas, uma a uma:
"Então falou
Deus todas estas palavras, dizendo: Eu sou o Senhor teu Deus, que te
tirei da terra do Egito, da casa da servidão. Não terás
outros deuses diante de mim. Não farás para ti imagem esculpida,
nem figura alguma do que há em cima no céu, nem em baixo
na terra, nem nas águas debaixo da terra. Não as adorarás
nem as servirás; porque eu, o Senhor teu Deus, sou Deus zeloso,
que vingo a iniqüidade dos pais nos filhos até a terceira e
quarta geração daqueles que me odeiam e uso de misericórdia
até mil gerações com os que me amam e guardam os meus
mandamentos. Não tomarás o nome do Senhor teu Deus em vão;
porque o Senhor não terá por inocente aquele que tomar o
seu nome em vão. Lembra-te do dia do sábado, para o santificar.
Seis dias trabalharás, e farás todo o teu trabalho; mas o
sétimo dia é o sábado do Senhor teu Deus. Nesse dia
não farás trabalho algum, nem tu, nem teu filho, nem tua
filha, nem o teu servo, nem a tua serva, nem o teu animal, nem o estrangeiro
que está dentro das tuas portas. Porque em seis dias fez o Senhor
o céu e a terra, o mar e tudo o que neles há, e ao sétimo
dia descansou; por isso o Senhor abençoou o dia do sábado,
e o santificou. Honra a teu pai e a tua mãe, para que se prolonguem
os teus dias na terra que o Senhor teu Deus te dá. Não matarás.
Não adulterarás. Não furtarás. Não dirás
falso testemunho contra o teu próximo. Não cobiçarás
a casa do teu próximo, não cobiçarás a mulher
do teu próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi,
nem o seu jumento, nem coisa alguma do teu próximo. Ora, todo o
povo presenciava os trovões, e os relâmpagos, e o som da trombeta,
e o monte a fumegar; e o povo, vendo isso, estremeceu e pôs-se de
longe" (Ex 20,1-18).
É a Lei da Aliança: Assim denominar-se-á aqui
"o decálogo" ou as "dez palavras" ou os "dez mandamentos", pois
a sua referência com a Aliança de Abraão é mais
que clara. Tudo o que o Povo Israelita faz está resumido nela e
se projeta em casos particulares já amontoados conforme um uso costumeiro
e enraizado culturalmente, a que uma divisão mais voltada para a
didática deu o nome de Código da Aliança (Ex
21-24). Apesar de toda a cerimônia e majestade presente ali
e de toda a dramaticidade a voz de Deus ecoou firme principalmente no coração
de todos. Quando se diz que Deus falou e pronunciou todas as palavras,
se diz que se revelou e que aquilo que disse é de si mesmo tendo
todos os seus atributos, até mesmo a santidade. E, partindo de seu
íntimo revela principalmente o amor que devota ao Povo de Israel.
Só a Palavra revela o íntimo daquele que fala, Deus falando
Se Revela no mais íntimo de Seu Ser. Não se pode concluir
diferentemente, tendo-se em vista a presença de todo o povo até
o final de todas as palavras que Deus pronunciou, sem que fugissem. Por
mais que se esforce não se pode dizer que se trate de uma espécie
de constituição, das que compõem a estrutura
"política" de uma nação moderna, eis que não
se trata da luta do povo contra um poder que teve por resultado uma carta
de direitos do cidadão, que o delimitasse. Nada desvirtua mais o
Decálogo que essa comparação absurda. Não foi
uma conquista, foi uma dádiva, um dom de Deus que Se "abriu" e ofereceu
uma orientação e um chamamento dirigido a cada um e a todo
o Seu Povo para se conseguir uma norma de conduta e comportamento, com
que se identificasse ao Criador, de quem é "imagem e semelhança"
(Gn 1,26s) a fim de se estabelecer uma comunhão
de vidas:
"2085 - O Deus
único e verdadeiro revela, primeiro, a sua glória a Israel
(cf. Ex
19,16-25; 24,15-18).
A revelação da vocação e da verdade do homem
está ligada à revelação de Deus. O homem tem
a vocação de manifestar Deus pelo seu agir, em conformidade
com a sua Criação, "à imagem e semelhança de
Deus" (Catecismo da Igreja Católica).
Ainda e por outro lado as "palavras" então pronunciadas diretamente
por Deus não se confinavam apenas a um grupo de israelitas ali presentes
assistindo a uma teofania, mas traçavam normas destinadas à
unificação e comunhão de vidas em torno de uma fé
comum, mantendo-o em todas as suas gerações e para sempre
coeso em vista de um objetivo bem maior do que poder-se-ia ao menos imaginar.
Tudo o que ali se plantava se destinava à Obra da Redenção,
era a semente da cristandade que se esboçava em linhas ainda tímidas,
mas que seriam provadas no cadinho do peregrinar pelo deserto e em toda
a História do Povo Primogênito de Deus, "primícias
da glória de Deus" anunciando a farta colheita "de uma multidão
de outros povos de que seria pai Abraão" (Gn
17,3):
"Agora, pois, se ouvirdes
a minha voz e guardardes a minha Aliança, sereis a minha propriedade
peculiar entre todos os povos, porque minha é toda a terra; e vós
sereis para mim um reino de sacerdotes e uma nação santa.
São estas as palavras que falarás aos filhos de Israel"
(Ex 19,5-6).
Por causa disso, da missão irradiadora de seu "sacerdócio
e nação santa", a severidade das determinações
e muitas vezes as punições até mesmo dramáticas
em caso de violação dos preceitos (Ex
21,14.17.23-25...), passando a ser conhecidas como Os Dez Mandamentos.
Era necessário, em vista das vicissitudes por que passaria e que
o amadureceria, povo ainda em gestação, levando-o à
tomada de consciência de sua própria identidade e missão.
Necessário também tendo em vista a paz e a segurança
de todos bem como a da própria nacionalidade nascente.
1º) "... falou Deus todas estas palavras..." - Moisés no futuro ficará preocupado com o Povo de Israel depois de sua morte e pronuncia uma série de discursos que lhe serviria de orientação. Em um deles vai lembrá-lo de que:
"Chamou, pois, Moisés
a todo o Israel, e disse-lhes: Ouve, ó Israel, os estatutos e preceitos
que hoje vos falo aos ouvidos, para que os aprendais e cuideis em os cumprir.
O Senhor nosso Deus fez uma Aliança conosco em Horeb. Não
com nossos pais fez o Senhor essa Aliança, mas conosco, com todos
nós que hoje estamos aqui vivos. Face a face falou o Senhor
conosco no monte, do meio o fogo. Estava eu nesse tempo entre o Senhor
e vós, para vos anunciar a palavra do Senhor; porque tivestes medo
por causa do fogo, e não subistes ao monte, dizendo ele: Eu sou
o Senhor teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão.
Não terás outros deuses diante de mim"
(Dt 5,1-7).
"Não com nossos pais fez o Senhor essa Aliança, mas conosco,
com todos nós que hoje estamos aqui vivos. Face a face falou o Senhor
conosco no monte, do meio o fogo..." - Moisés lembra-lhes a
teofania por todos presenciada, vista e ouvida que indicava, pela demonstração
de majestade e poder, a origem do que se convencionou denominar de Decálogo
(= Dez Palavras), ou de Dez Mandamentos, vinculando-o, e também
todo o episódio, à Aliança, donde a denominação
que lhe seria mais apropriada de Lei da Aliança. É
um desses fatos espantosos que compõem a História do Povo
de Israel, e se tornou um legado do cristianismo, que evidenciam por si
só a presença de um Deus Pessoal e Dinâmico a conduzir
inexoravelmente a história humana para Seu Desígnio, para
aquela intimidade, familiaridade e comunhão de vidas do Jardim do
Éden. O mesmo Deus que "passeava pelo Jardim à brisa do dia"
(Gn 3,8) agora se manifesta no Monte Sinai
(ou Horeb) num encontro inesquecível com o mesmo Homem e lhe diz:
"Eu sou o Senhor teu
Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão. Não
terás outros deuses diante de mim" (Ex
20,2-3).
É necessário um exame dessa frase para dimensionar o que
fora transmitido e recebido pelos Israelitas ao ouvi-la. Em primeiro lugar
é um Deus que demonstrou amar os "Filhos de Abraão" ali remanescentes
libertando-os de uma servidão e que por isso merece uma demonstração
de amor como resposta. Em seguida começam-se as formas de se dar
a resposta, como reconhecimento e que só pode ser outra demonstração
de amor e de fidelidade em retribuição. Por isso ela vem
expressa em uma forma negativa do imperativo, após uma expressão
tangencial, deixando de ser assim uma ordem imperativa positiva e direta,
como aquelas da Criação ou aquelas após o pecado,
tal como se pode observar:
"...Frutificai e multiplicai-vos; enchei a terra e sujeitai-a; dominai..." (Gn 1,18)
"...em dor darás
à luz filhos (...) e ele te dominará. E ao homem disse:
(...) maldita é a terra por tua causa; em fadiga comerás
dela (...) comerás das ervas do campo. (...) comerás
o teu pão, até que tornes à terra, porque dela foste
tomado; porquanto és pó, e ao pó tornarás"
(Gn 3,16-19).
"Frutificai..., multiplicai..., enchei... sujeitai...;
dominai" "darás..., ...dominará...,
...maldita é..., comerás..., ao pó
tornarás" são expressões imperativas positivas,
enquanto que no Decálogo há uma maneira diferente de ordenar,
da forma "... não terás...", após uma ampla
e carinhosa exposição de motivos tal como um pai dizendo
ao seu filho:
"Eu sou o teu pai que
te sustento e paguei a tua escola com muita dificuldade e trabalho; não
me trairás, não darás ouvidos a estranhos e não
te desviarás de mim, não perderás o ano escolar."
Seria isso uma ordem? Parece mais um pedido, um apelo de amor, feito após
a prática de um ato que o tenha demonstrado, como se dissesse:
"Fui Eu quem livremente
te libertou da escravidão: não me troques por outro Deus,
que nada fez por ti: Não terás outros deuses diante de mim.
Não farás para ti imagem esculpida, nem figura alguma do
que há em cima no céu, nem em baixo na terra, nem nas águas
debaixo da terra. Não te encurvarás diante delas, nem as
servirás..."
Eis ai o motivo do pedido, no perigo de desvio do Israelita para a prática
de então de se adorar vários ídolos, de servir a vários
deuses, entre os quais Iahweh não deveria ser incluído "porque
eu, o Senhor teu Deus, sou Deus ciumento, que vingo a iniqüidade dos
pais nos filhos até a terceira e quarta geração daqueles
que me odeiam e uso de misericórdia até mil gerações
com os que me amam e guardam os meus mandamentos". Esta última frase
causa certa repulsa por transparecer que Deus vinga nos filhos o erro dos
pais, mas não é assim. Lançando a semente do monoteísmo,
Deus está dizendo que enquanto os deuses dos pagãos não
se incomodam em se enfileirar junto com outros num "panteão", Iahweh
não aceita outro ao seu lado como igual ou ser considerado outro
dentre os deuses. Soava então para o Israelita a obrigação
de adorar somente a Ele, lembrando-se de que enquanto as conseqüências
de um ato "dos que me odeiam" (um pecado) atingem "três ou quatro
gerações", a "sua misericórdia com aqueles que o amam
atinge mil gerações", isto é, vai até o infinito,
naquele tempo representado pelo número mil. É uma demonstração
da dimensão da misericórdia de Deus, que não é
atingido e não se altera, em si, face ao desvio por causa do pecado;
e, cujo efeito somente ao próprio Homem atinge e é ele mesmo
quem o provoca, repercutindo nos descendentes por causa de uma solidariedade
mais sensível naquele tempo por estar alicerçada numa dinâmica
tribal e patriarcal. O israelita de então não vivia só
e numa comunidade sempre se correlaciona, e os efeitos danosos de um ato
contra Deus não se limitam a quem o praticou apenas, mas atinge
os seus contemporâneos, pela violação das Leis da Aliança
e seus efeitos sociais. Mesmo assim porém a relação
proporcional entre a "vingança" e a "misericórdia" de Deus
é infinita, que em números seria de mil para três ou
quatro unidades. É a impossibilidade de se conjugar outro deus juntamente
com Iahweh por ser "ciumento", cujas conseqüências deste ato
de infidelidade ou fidelidade respectivamente não ficará
impune ou sem recompensa, mas se refletirá para sempre, seja pelo
cultivo e colheita dos efeitos do pecado, seja pela libertação
do mesmo pecado, conduzindo a própria vida a atingir a sua vocação
natural. Para um grupo humano permanecer unido e coeso é indispensável
uma fé comum, unida e exteriorizada em uma codificação
comum de procedimento moral, ligada a um só Deus e um só
"Mandamento", principalmente pela missão de "povo de sacerdotes
e nação santa" que era. Nenhuma infidelidade poderia ocorrer,
seja ela individual seja coletiva.
É necessário destacar aqui que este "Primeiro Mandamento" ou "Primeira Palavra" vai crescer, transformar e se tornar bem mais aprofundado após a peregrinação dos israelitas pelo deserto, a ponto de registrar no livro de Deuteronômio amplo desenvolvimento enriquecendo-se o sentido de se "amar a Deus" (Dt 5-11), que com Jesus foi ratificada nesses termos:
"Os fariseus, quando
souberam, que ele fizera emudecer os saduceus, reuniram-se todos; e um
deles, doutor da lei, para o experimentar, interrogou-o, dizendo: Mestre,
qual é o grande mandamento na lei? Respondeu-lhe Jesus: Amarás
ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma,
e de todo o teu entendimento. Este é o grande e primeiro mandamento.
E o segundo, semelhante a este, é: Amarás ao teu próximo
como a ti mesmo. Destes dois mandamentos dependem toda a lei e os profetas"
(Mt 22,34-40).
Esse fato comprova a qualidade de Mandamentos de Amor, dando-lhe validade
perene para a salvação, tal como confirmada pelo mesmo Jesus:
"E eis que se aproximou
dele um jovem, e lhe disse: Mestre, que farei para conseguir a vida eterna?
Respondeu-lhe ele: (...) se queres entrar na vida, guarda os mandamentos..."
(Mt 19,16-19).
Não é diferente o que ensina a Igreja ainda atualmente:
"2083 - Jesus
resumiu os deveres do homem para com Deus nesta palavra: "Amarás
o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua
alma, com toda a tua mente (Mt
22,37; cf.
Lc 10,27:
"e com todas as tuas forças"). Esta palavra é o eco imediato
ao apelo solene: "Escuta, Israel: o Senhor nosso Deus é o único"
(Dt 6,4-5).
"Deus foi o primeiro a amar.
O amor do Deus único é lembrado na primeira das "Dez Palavras".
Em seguida, os mandamentos explicitam a resposta de amor que o homem é
chamado a dar ao seu Deus" (Catecismo
da Igreja Católica).
2.º) O CULTO DAS IMAGENS
- Muitos cristãos, até mesmo entre os católicos, têm
séria dificuldade com o que se entende ser uma proibição
de veneração de imagens, principalmente em uso na Igreja
Católica, pelo que se impõe uma análise mais detida
a partir do texto original:
"Não farás para ti imagem esculpida, nem figura alguma do que há em cima no céu, nem em baixo na terra, nem nas águas debaixo da terra" (Ex 20,4).
Analisando-se este versículo apenas, isoladamente, só se
pode deduzir que não se pode reproduzir numa imagem qualquer objeto,
seja ele o que for. Nessas condições vai se chegar ao absurdo
de que nem mesmo uma fotografia com a imagem dos pais ou de uma paisagem
poder-se-ia confeccionar. E, atualmente seria de se precaver até
mesmo contra as imagens da tela de um televisor, assim como os heróis
ou as figuras da história de um povo não poderiam ter nem
mesmo o seu busto em praça pública. Porém, quando
se analisa o referido versículo em conjunto com todo o contexto
em que foi escrito e considerando-se o que lhe antecede e o que lhe segue
a conclusão muda de perspectiva, ou seja:
Assim dispostos vê-se que a preocupação de Deus é a confecção de ídolos que fossem objeto de adoração juntamente com Ele ou em Seu lugar ("Não terás outros deuses diante de mim"). Não se pode deixar de lado que já fora fixada a aceitação do Povo de Israel pela Aliança em resposta ao que Deus lhe dissera: "Tudo o que Iahweh disse, nós o faremos" (Ex 19,5-8).
Assim, a principal norma da Aliança era essa de fidelidade impar e exclusiva ao Deus que os libertou do Egito, "não adorando nem servindo" a outro deus que além de estranho nada por eles fizera ("Não farás para ti imagem esculpida, nem figura alguma do que há em cima no céu, nem em baixo na terra, nem nas águas debaixo da terra. Não as adorarás nem as servirás...").
Tanto é assim que nem mesmo em Israel essa disposição era assim tão radical ou pacífica, existindo exemplos de confecção de imagens por determinação do próprio Iahweh tanto na representação dos querubins na Arca da Aliança (Ex 25,18-21) como na da serpente de bronze no deserto (Nm 21,8s). Existem também de outras imagens no Templo construído por Salomão em Jerusalém tais como as de querubins (1Rs 6,23-29), as dos doze touros do Mar de Bronze (1Rs 7,25); e, várias imagens de querubins, bois, romãs, botões e flor de amêndoa esculpidos e dispostos em muitos outros locais (Ex 25,31; 1Rs 6,29.32.35; 7,18s.29.36.42; 1Cro 28,18; 2Cro 3,10) e as dos leões do trono do próprio Salomão (1Rs 10,19s). Também, a confecção por Gedeão de um éfode, que tinha quase sempre a forma de uma imagem cultual, usada para adivinhação (Jz 8,24-27), existindo também outro junto da espada tomada de Golias (1Sm 21,10a) e até mesmo um tipo para se tirar a sorte (1Sm 14,3.18s.37.41; 23,6.9s; 30,7s) . Destaca-se até mesmo o caso de uma imagem (éfode e terafim) colocada em um nicho, que foi servida por um sacerdote levita, que vale a pena reproduzir, eis que, apesar de alguns comentários do narrador, indicam o seu uso entre os israelitas:
"Quando ele restituiu
o dinheiro a sua mãe, ela tomou duzentas moedas de prata, e as deu
ao ourives, o qual fez delas uma imagem esculpida e uma de fundição,
as quais ficaram em casa de Mica. Ora, tinha este homem, Mica, um santuário
e fez um éfode e terafins, e consagrou um de seus filhos,
que lhe serviu de sacerdote. Naquelas dias não havia rei em
Israel e cada qual fazia o que parecia bem aos seus olhos. E havia um jovem
de Belém de Judá, da família de Judá, que era
levita, e peregrinava ali. Este homem partiu da cidade de Belém
de Judá para ir estabelecer-se onde pudesse. Seguindo ele o seu
caminho, chegou à região montanhosa de Efraim, à casa
de Mica, o qual lhe perguntou: Donde vens? E ele lhe respondeu: Sou levita
de Belém de Judá, e vou peregrinar até me estabelecer
onde achar conveniente. Então lhe disse Mica: Fica comigo, e sê-me
por pai e sacerdote; e cada ano te darei dez moedas de prata, o vestuário
e o sustento. E o levita entrou. Consentiu, pois, o levita em ficar com
aquele homem, e lhe foi como um de seus filhos. E Mica consagrou o levita,
que lhe serviu de sacerdote, e ficou em sua casa. Então disse Mica:
Agora sei que o Senhor me fará bem, porque tenho um levita por sacerdote"
(Jz 17,4-13).
Apesar de dizer que "naqueles dias não havia rei em Israel e cada
qual fazia o que parecia bem aos seus olhos", em virtude de não
se haver ainda definido o local do "único santuário" (Dt
12,4-9 / Ex 20,24; 25,8s), as imagens aqui erigidas eram anteriormente
servidas pelo sacerdócio segundo o costume, pelo "primogênito",
é claro ("e consagrou um dos seus filhos"), e depois por um sacerdote
levita (domiciliado em Judá), tal como então oficializado
para o culto (Nm 8,15-18). Estes ídolos
e imagens foram apropriados pelos danitas e levados a Silo (Jz
18,15-31). Por ai se vê que mesmo em Israel a questão
não tinha uma conotação tão literal e não
se pode deixar de lado a dos Bezerros de Ouro (Ex
32), que serão futuramente erigidos por Jeroboão um
em Betel e outro em Dã (1Rs 12,26-33),
apesar da crítica ferrenha de vários profetas quanto aos
últimos, causada as mais das vezes por uma indignação
política, provocada pela separação havida do Reino
do Norte, desligando-se da Nação Israelita (cfr. Am
4,4; 5,5s; 7,9; Os 8,5; 13,2).
Assim a proibição do Decálogo só pode ser a de se confeccionar imagens para se "adorar", isto é, "prestar-lhes culto no lugar de Deus", reconhecendo-se um criador e senhor diferente (Ex 20,23; 22,19; 23,24s.32s), na condição "servo", em franca e ostensiva violação da Aliança. Já a "veneração" tem o sentido de se honrar a santidade, obra de Deus pela Redenção em Seu Filho, melhor esclarecido pelo Catecismo da Igreja Católica, nºs. 2129 - 2132:
"IV. "Não farás para ti qualquer
imagem esculpida"
"2129 - Esta disposição
divina comportava a interdição de qualquer representação
de Deus por mão do homem. O Deuteronômio explica: "Tomais
cuidado convosco; não vistes figura alguma, no dia em que o Senhor
vos falou do meio do fogo, no Horeb. Evitai, pois, perverter-vos, fabricando
qualquer ídolo como representação ou símbolo
do que quer que seja" (Dt
4,15-16).
Deus que Se revelou a Israel é absolutamente transcendente. "Ele
é tudo", mas, ao mesmo tempo, "está acima de todas as suas
obras" (Eclo
43,27-28).
Ele é "a própria fonte de toda a beleza criada" (Sb
13,3).
2130 - No entanto, já desde o Antigo Testamento Deus ordenou ou permitiu a instituição de imagens, que conduziriam simbolicamente à salvação pelo Verbo Encarnado: por exemplo, a serpente de bronze (cfr. Nm 21,4-9; Sb 16,5-14; Jo 3,14-15), a arca da aliança e os querubins (cfr. Ex 25,10-22; 1Rs 6,23-28; 7,23-26).
2131 - Com base no mistério do Verbo Encarnado, o sétimo Concílio Ecumênico, de Nicéia (ano de 787) justificou, contra os iconoclastas, o culto dos ícones: dos de Cristo, e também dos da Mãe de Deus, dos anjos e de todos os santos. Encarnando, o Filho de Deus inaugurou uma nova "economia" das imagens.
2132 - O culto cristão das imagens não é contrário ao primeiro mandamento, que proíbe os ídolos. Com efeito, "a honra prestada a uma imagem remonta ao modelo original" (S. Basílio, Spir. 18,45) e "quem venera uma imagem venera nela a pessoa representada" (Conc. II de Nicéia: DS 601; cf. Concílio de Trento: DS 1821-1825; Concílio do Vaticano II: SC 126; LG 67). A honra prestada às santas imagens é uma "veneração respeitosa", e não uma adoração, que só a Deus se deve:
"O culto da religião não se dirige às imagens em si mesmas como realidades, mas olha-as sob o seu aspecto próprio de imagens, que nos conduzem ao Verbo Encarnado. Ora, o movimento que se dirige à imagem enquanto tal não se queda nela, mas passa à realidade de que é imagem (S. Tomás de Aquino, Summa Theologica, 2-2,81,3,ad3)."
A imagem se torna então um meio material e até mesmo didático ou pedagógico, principalmente durante a oração, que usa o sensível para se atingir mentalmente a Santidade que o Verbo Encarnado trouxe ao Homem. Seria como que um meio sensível de se vislumbrar "imagi"nariamente o sobrenatural e santo, obra exclusiva de Deus, pois "Deus é que santifica" (Lv 19,2 / 20,8). O culto assim não se fixa nela, mas se dirige desde o início da invocação, a Deus, ao único Autor da Santidade ali representada. E, até mesmo o próprio Jesus se identifica com a imagem da serpente de bronze confeccionada no deserto, ao dizer a Nicodemos:
"E como Moisés
levantou a serpente no deserto, assim importa que o Filho do homem seja
levantado; para que todo aquele que nele crê tenha a vida eterna"
(Jo,3,14-15).
Ao dizer isso quis significar mentalmente a imagem de Sua Morte Redentora
Na Cruz, para que Nicodemos A unisse didaticamente à imagem da serpente
que Moisés levantou no deserto para curar os israelitas, Ele que
curaria o Homem das chagas do pecado:
"Porque os que dantes
conheceu, também os predestinou para serem conformes à
imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre
muitos irmãos..." (Rm8,29)
"Ele nos tirou do poder
das trevas, e nos transportou para o reino do seu Filho amado; em quem
temos a redenção, a saber, a remissão dos pecados;
o qual é imagem do Deus invisível, o primogênito
de toda a criação..." (Col
1,13-15).
3.º) - "Não tomarás
o nome do Senhor teu Deus em vão; porque o Senhor não terá
por inocente aquele que tomar o seu nome em vão" - Emprega-se o
nome de Deus em vão quando for "à toa", sem motivo, ou por
razões fúteis e sem nenhuma necessidade. Mas, para o Israelita,
além disso, como são indestacáveis e inseparáveis
da pessoa o nome e a palavra, no que se refere a Iahweh Deus, o Seu Nome
detém Sua Santidade e, Sua Palavra o Seu Poder, e ambos a Sua Majestade.
Assim, "tomar-lhe o nome em vão" é um indesculpável
desrespeito que Deus "não terá como sendo fruto de inocência,
sem culpa". A causa principal disso é o mau uso que se pode fazer
em juramentos falsos em que Deus é colocado como "testemunha" para
afiançar aquilo que falsamente se afirma (Lv
19,12), além do uso supersticioso do Seu Nome para a prática
da magia, ou pelos necromantes, em busca de efeitos fantasiosos até
mesmo nos ritos pagãos pelo poder de que se apodera e adquire quem
O pronuncia (Lv 19,31; 20,6.27; Nm 23,23; Dt 18,10-12).
Tais costumes seriam intoleráveis para o Povo dos Filhos de Israel
pela corrupção que produziriam no meio comunitário
em formação, ferindo com uma insuperável desunião
ou conflitos de sérias conseqüências a fé e a
Aliança.
4.º) "Lembra-te do dia do sábado, para o santificar. Seis dias trabalharás, e farás todo o teu trabalho; mas o sétimo dia é o sábado do Senhor teu Deus. Nesse dia não farás trabalho algum, nem tu, nem teu filho, nem tua filha, nem o teu servo, nem a tua serva, nem o teu animal, nem o estrangeiro que está dentro das tuas portas. Porque em seis dias fez o Senhor o céu e a terra, o mar e tudo o que neles há, e ao sétimo dia descansou; por isso o Senhor abençoou o dia do sábado, e o santificou" - O respeito pelo dia de sábado já existia antes da promulgação das Leis da Aliança, como se vê por ocasião do Maná (Ex 16,22-30). No entanto, aqui, vai se vincular à Aliança, base de toda a estrutura do Decálogo:
"Disse mais o Senhor
a Moisés: Falarás também aos filhos de Israel, dizendo:
Certamente guardareis os meus sábados; porque isso é
um sinal entre mim e vós pelas vossas gerações;
para que saibais que eu sou o Senhor, que vos santifica. Portanto guardareis
o sábado, porque santo é para vós; aquele que o profanar
certamente será morto; porque qualquer que nele fizer algum trabalho,
será exterminado do meio do seu povo. Seis dias se trabalhará,
mas o sétimo dia será o sábado de descanso solene,
santo ao Senhor; qualquer que no dia do sábado fizer algum trabalho,
certamente será morto. Guardarão, pois, o sábado
os filhos de Israel, celebrando-o nas suas gerações como
aliança perpétua. Entre mim e os filhos de Israel será
ele um sinal para sempre; porque em seis dias fez o Senhor o céu
e a terra, e ao sétimo dia descansou, e achou refrigério"
(Ex 31,12-17).
Pela consagração do sábado é testemunhado por
Israel a sua fé em Iahweh, separando-o dos outros dias e assim santificando,
e principalmente demonstrando por um ato externo que lhe atingia a vida
material, deixando de trabalhar junto com os seus serviçais e até
mesmo escravos, a sua fidelidade à Aliança. O sábado
vai assim juntar-se à circuncisão como sinal visível
de uma adesão ao Povo dos Filhos de Israel. Por ai se vê a
seriedade da instituição pelo que a sua violação
seria sinal de quebra de unidade nacional trazendo sério perigo
de ordem até mesmo social, pelo que a reação do meio
deveria ser mesmo extremada.
Para melhor compreensão da origem e significado da "instituição
da consagração do sábado" é oportuno aqui a
transcrição do que consta do Capítulo 1 deste Curso,
quando da narrativa da Criação:
"O escritor bíblico ao idealizar os acontecimentos do passado
mesclou-os com a cultura de então, levando para a origem ou para
a Criação as instituições vigentes no seu tempo,
ai localizando-as, tal como que justificando-as. É o caso do sábado,
como é conhecido o sétimo dia da semana. Com base no
que já vimos podemos compreender o significado dado originariamente
a ele, e qual o seu sentido religioso:
"Assim foram terminados
o céu e a terra e todo o seu exército. E no sétimo
dia Deus deu por terminada a obra por ele feita; e no sétimo dia
cessou de toda a obra que havia feito; e, por isso, deus abençoou
o sétimo dia e o santificou, porque nele cessou de toda
a obra que, ele, criando, tinha feito. Esta é a geração
do céu e da terra na sua criação" (Gn
2,1-4).
A palavra "cessar" em hebraico pronuncia-se mais ou menos "shabbat",
de onde nos veio o nome e a pronúncia do sétimo dia da semana,
do sábado, tal como é conhecido. Nesse trecho não
se trata da instituição do respeito ao sábado, mas
de explicar a sua distinção entre os outros dias, a ponto
de se lhe vedar nele todo e qualquer trabalho. Não se trata de um
"repouso de Deus", propriamente falando, Deus não precisa
de repouso algum (Jo 5,17), mas do dia em que termina a Criação
e lhe dá o acabamento final, "abençoando-a". E,
quando Deus abençoa, fecunda e "energiza" para que cumpra a sua
finalidade, conforme os Seus Desígnios, tal como abençoara
os animais e o homem ao criá-los. Não se trata de fecundar
e "energizar" um dia tornando-o fértil para a "reprodução
de outros dias iguais", mas de imprimir na Obra da Criação
as leis que lhe são peculiares, fecundando-a e "energizando-a"
para que prossiga de conformidade com seus desígnios, abençoando-a
toda. Deus cessa de criar, apenas, tal como o próprio
Jesus nos revela, mas não cessa de governar:
"...: meu pai trabalha
sempre e eu também trabalho" (Jo
5,17).
Deus nada criou sem motivo e sem meta a atingir, muito menos para destruir.
Daí porque Deus "santificou" o sétimo dia, qual seja, num
sentido bíblico, "separou", distinguiu. Aparece então com
toda a clareza a irreversibilidade e inexorabilidade da criação:
"Enquanto durar a terra,
semeadura e colheita, frio e calor, verão e inverno, dia e noite
não há de faltar" (Gn
8,22)."
Pelo exposto se pode deduzir Deus "cessou" de criar no "sétimo dia",
no início dos tempos quando ainda não se dera nomes aos dias
da semana e nem se denominava "sábado", tendo por origem etimológica
o verbo hebraico "shabbat", cujo significado é "cessar de
fazer o que se está fazendo e retornar ao anterior estado", motivo
que levou a se dizer que Deus "repousou". Por isso, o Homem, "imagem e
semelhança de Deus" também "repousa", "cessa o que faz e
volta ao estado anterior", "descansa e guarda o sétimo dia", passando
para a fé praticada essa terminologia e ficando assim conhecido.
DOMINGO OU SÁBADO? - "Seis dias trabalharás, e farás todo o teu trabalho; mas o sétimo dia é o sábado do Senhor teu Deus" - Pelo fato de muitos adotarem a guarda do domingo em vez do sábado, alguns cristãos ficam com escrúpulo, entendendo que não se observa o mandamento. Mudando-se para o "dia do senhor" (que é o significado da palavra "domingo") não se desrespeita o preceito eis que se trabalha "seis dias e se cessa no sétimo", cumprindo-o na íntegra. De maneira mais clara verifica-se que se trabalha segunda (1.° dia), terça (2.° dia), quarta (3.° dia), quinta (4.° dia), sexta (5.° dia) e sábado (6.° dia), isto é, "seis dias" como manda o estatuto e se "cessa" o trabalho no domingo (7.° dia) - isto é, "trabalha-se seis dias e "descansa-se" no sétimo".
É que, em virtude de ocorrer no "Primeiro Dia da Semana" a Ressurreição de Cristo (Mt 28,1; Mc 16,1-2; Lc 24,1; Jo 20,1) e o Dia de Pentecostes (At 2,1-40 / Lv 23,15-16) os primeiros cristãos passaram a guardá-lo como "o dia do senhor", em lugar do sábado dos israelitas, não sem luta e relutância de alguns, que a isso se opunham. Não é outro o motivo por que existem tantos episódios nos Evangelhos onde se narram várias atitudes de Jesus ocasionando os desencontros com os chefes religiosos dos judeus, acusando-o de violá-lo (Mt 12,1-8.9-21; Mc 1,21-28; 2,23-28; 3,1-6; Lc 4,31-37.38-39; 6,1-5.6-11; 13,10-17; 14,1-6; Jo 5,7-15; 9,13-25), que nada mais são que justificações da permissibilidade da mudança, pois "o Filho do Homem é Senhor do sábado" (Mt 12,8).
Por outro lado, há uma narrativa que nos mostra um acontecimento muito útil para se entender o que ocorria naqueles dias dos primórdios quando do entrechoque das duas culturas:
"No primeiro dia da
semana, tendo-nos reunido a fim de partir o pão, Paulo, que
havia de sair no dia seguinte, falava com eles, e prolongou o seu discurso
até a meia-noite" (At 20,7).
"No primeiro dia da semana, tendo-nos reunido a fim de partir o pão..."
-, isto é, "reuniram-se no domingo (=primeiro dia da semana) para
a Eucaristia (= a fim de partir o pão)", tendo Paulo " prolongado
o seu discurso até a meia-noite" - Ora, o horário dos judeus
difere do nosso, eis que contam o dia a partir da nossa dezoito horas até
as dezoito horas do dia seguinte. Então partiam o pão à
noite do nosso sábado que já era domingo para eles, única
possibilidade de Paulo haver "prolongado o seu discurso até a meia
noite". Outras referências existem que confirmam a existência
da reunião festiva no domingo (1Cor
16,2 e Ap 1,9-11).
Um outro dispositivo existe que evidencia outro aspecto da visão cristã do sábado, identificando-se com o que dissera Cristo: "o sábado existe para o homem e não o homem para o sábado" (Mc 2,27), manifestado por São Paulo:
"Portanto, ninguém
vos julgue por questões de comida e de bebida, ou a respeito de
festas anuais ou de lua nova ou de sábados, que são
apenas sombra de coisas que haviam de vir, mas a realidade é
o corpo de Cristo" (Col 2,16-17).
"2174 - Jesus ressuscitou de entre os mortos "no primeiro dia da semana
(Mt 28,1; Mc 16,2; Lc 24,1; Jo 20,1). Enquanto
"primeiro dia", o dia da Ressurreição de Cristo lembra a
primeira Criação. Enquanto "oitavo dia", a seguir ao shabbat
(Mc 16,1; Mt 28,1), significa a nova Criação,
inaugurada com a Ressurreição de Cristo. Este dia tornou-se
para os cristãos o primeiro de todos os dias, a primeira de todas
as festas, o dia do Senhor ("Hé kuriaké hémera", "dies
dominica"), o "Domingo":
"Reunimo-nos todos precisamente
no dia do Sol, não só porque foi o primeiro dia em que Deus,
transformando as trevas e a matéria, criou o mundo, mas também
porque Jesus Cristo, Nosso Salvador, nesse dia ressuscitou dos mortos (São
Justino, Apol. 1,67)"
"2175 - O Domingo distingue-se expressamente do shabbat, ao qual sucede
cronologicamente, em cada semana, e cuja prescrição de caráter
cerimonial substitui para os cristãos. O Domingo completa, na Páscoa
de Cristo, a verdade espiritual do shabbat judaico e anuncia o descanso
eterno do homem em Deus. Porque o culto da Lei preparava para o mistério
de Cristo e o que nela se praticava era figura de algum pormenor relativo
a Cristo (1Cor 10,11):
2176 - A celebração do Domingo é o cumprimento da
prescrição moral, naturalmente inscrita no coração
do homem, de "prestar a Deus um culto exterior, visível, público
e regular, sob o signo do seu benefício universal para com os homens"
(S. Tomás de
Aquino, Summa Theologica 2-2, 122,4). O Culto Dominical
cumpre o preceito moral da Antiga Aliança, cujo ritmo e espírito
retoma, ao celebrar em cada semana o Criador e o Redentor do Seu Povo."
Facilmente se constata que o Culto do Domingo é o mesmo Culto do Sábado, não havendo motivo para o receio de descumprimento do conhecido "mandamento" da Lei de Deus.
5.º) " Honra a teu pai e a
tua mãe, para que se prolonguem os teus dias na terra que o Senhor
teu Deus te dá" - Até aqui o Decálogo gira em torno
da adoração a Deus com a exclusão de qualquer outro,
cujo nome nem ao menos pronunciar era lícito ao Israelita (Ex
23,13). O seu culto só poderia se dirigir a Iahweh a quem
invocaria conforme as especificações dos quatro mandamentos
já examinadas, cuja finalidade e missão era mais ampla ainda:
"Porque o meu anjo irá
adiante de ti, e te introduzirá na terra dos (..."outros povos"...)
e eu os aniquilarei. Não adorarás os seus deuses, nem os
servirás, nem imitarás as suas obras; antes os destruirás
totalmente, e quebrarás de todo as suas colunas. Servireis, pois,
ao Senhor vosso Deus, ... (...) Não farás aliança
alguma com eles, nem com os seus deuses. ...pois se servires os seus deuses,
certamente isso te será uma armadilha"
(Ex 23,23-25.31-33).
"Vós, filhos,
sede obedientes a vossos pais no Senhor, porque isto é justo. Honra
a teu pai e a tua mãe, que é o primeiro mandamento com
promessa, para seres feliz e teres uma longa vida sobre a terra"
(Ef 6,1-3).
Muitos destes dispositivos, que se manifestam no grupo social, não
passaram a ser observados somente após a sua promulgação,
como se demonstrou com a existência dos sacrifícios, mas já
eram costumeiramente usados, com base na própria experiência
do grupo, fenômeno que ocorre com toda a legislação
escrita. Assim, quanto aos dispositivos "não matarás", "não
cometerás adultério", "não furtarás" e "não
dirás falso testemunho contra o teu próximo" (Ex
20,13-16) dizem respeito aos atos exteriores do homem, que ferem
em cheio o próximo, prejudicando-o e com isso sabotando a Paz Social,
dispensando-se maiores comentários a respeito, cujos efeitos danosos
são sobejamente conhecidos. O que é necessário notar
é a necessidade de uma base comum centrada no espírito para
a harmonia de um grupo humano, sem o quê ela é impossível.
É de se registrar porém que o adultério vai sofrer
modificação com Cristo que vai acabar com a poligamia dos
judeus e instituir a monogamia cristã, pelo que o adultério
vai atingir também o homem, antes um dos "privilégios" exclusivos
da mulher.
Resta o Décimo Mandamento que diz "não cobiçarás
a casa de teu próximo... nem coisa alguma que lhe pertença,"
onde há uma originalidade que fere o preconceito que se tem da cultura
antiga, de ser assim como que superficial e sem profundidade. Preste-se-lhe
a devida atenção e ver-se-á que este mandamento procura
atingir o íntimo do Homem, seu recanto mais privado, onde alimenta
as mais das vezes os seus mais queridos sonhos e ideais e lhe diz: "não
cobiçarás...!!! Vai falar-lhe no mais íntimo
de seu ser e evitar-se-á muitos males oriundos de uma cobiça
desenfreada e inescrupulosa.
Diferença notável é aqui o conceito de "próximo"
aplicado a outro Israelita, que Jesus irá estender a qualquer ser
humano.
Também não é outro o ensino do Catecismo da Igreja
Católica que doutrina e explica suficientemente:
Os que viveram segundo
a Antiga Aliança alcançaram uma nova esperança, não
guardando já o sábado mas celebrando o dia do Senhor, porque
nesse dia surgiu a nossa vida, fruto da sua morte
(Santo Inácio de Antioquia,
Mgn 9,11).
Após aquelas disposições de fidelidade a Iahweh o
Decálogo vai começar a ordenar o relacionamento das pessoas
umas com as outras, com vistas na paz social e comunitária, a começar
com os pais, qual seja, em família, mesmo nômades e no peregrinar
a que se sujeitaram. Também fator indispensável para a paz
num regime tribal e patriarcal, onde tudo se centraliza no pai, chefe da
tribo. Com referência a esse mandamento São Paulo vai lembrar
aos filhos:
O mesmo regime patriarcal impõe as normas que são capazes
de manter a paz interna e de que depende para a própria sobrevivência,
e elas passam a reger coercivamente a conduta do grupo. Porém, nesse
caso a coerção é mais interior, vem de dentro da pessoa,
de sua própria consciência religiosa e se impõe, se
bem que com uma promessa de recompensa. Basta para se comprovar isso o
fato de que não se diz "amar pai e mãe", mas se diz "honrar
pai e mãe". Ora, o "amar" é uma ação normal
e natural no ser humano, mas o "honrar" vai mais longe e independentemente
do "amar" exige uma interiorização, concentração
racional e um esforço pessoal, algo mais que a própria natureza
sentimental a agir. Mas isso não acontece somente na vida nômade
e mesmo quando do assentamento do Povo de Israel na Terra Prometida não
haverá modificação sensível nesse nem no conjunto
dos demais dispositivos, sofrendo apenas e tão somente aperfeiçoamentos.
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