O marco inicial do cumprimento da missão libertadora de Moisés é o seu encontro com Aarão, que o procurava também a mando de Deus, a quem tudo esclarece para juntos procurarem os anciãos e o povo, que só se convenceram a vista dos sinais:
"Disse o Senhor a Aarão: Vai ao deserto, ao encontro de Moisés. E ele foi e, encontrando-o no monte de Deus, o beijou. E relatou Moisés a Arão todas as palavras com que o Senhor o enviara e todos os sinais que lhe mandara. Então foram Moisés e Aarão e ajuntaram todos os anciãos dos filhos de Israel; e Aarão falou todas as palavras que o Senhor havia dito a Moisés e fez os sinais perante os olhos do povo. E o povo creu; e quando ouviram que o Senhor havia visitado os filhos de Israel e que tinha visto a sua aflição, inclinaram-se, e adoraram" (Ex 4,27-31).
Em seguida deveriam ir ao Faraó, em nome de Deus, não reconhecido por ele, que recusou-se a deixar sair o Povo para "oferecer-Lhe sacrifícios" ou "celebrar-Lhe uma festa no deserto" (Ex 5,1.3):
"Depois foram Moisés e Aarão e disseram a Faraó: Assim diz o Senhor, o Deus de Israel: Deixa ir o meu povo, para que me celebre uma festa no deserto. Mas Faraó respondeu: Quem é o Senhor, para que eu ouça a sua voz para deixar ir Israel? Não conheço o Senhor, nem tampouco deixarei ir Israel" (Ex 5,1-2).
"Não conheço o Senhor, nem tampouco deixarei ir Israel" (Ex 5,2). O Faraó, desconhecendo Deus, não se curvou, pelo contrário, vendo Sua presença arraigada no coração daquele povo, e vendo também a predileção generalizada por Ele, enciumado "endureceu-se-lhe" orgulhosamente o seu "coração" (Ex 3,19; 4,21; 7,3.13.22; 8,11.15; 9,7.12.34s; 10,1.20.27; 11,10; 14,4.8.17). Deus não "endurece o coração" de ninguém a não ser como efeito do próprio orgulho, opondo-se ou virando-se contra Ele (Ex 3,19), não O aceitando nos sinais de Sua manifestação. Por isso a multiforme expressão usada de "endurecer o coração", tendo por autor ora o próprio Deus (Ex 4,21; 7,3; 9,12; 10,1.20.27; 11,10; 14,4.8.17), ora o próprio coração (Ex 7,13.22; 8,15; 9,7.35), ora o Faraó (Ex 8,11.28; 9,34), tal como Moisés fora alertado pelo próprio Iahweh (Ex 3,19). Além disso, para combater e sabotar o pedido, o Faraó dá ordens para seus capatazes mais ainda oprimirem os israelitas (Ex 5,6-19), o que causou revolta contra Moisés e Aarão, fazendo com que Deus fosse invocado (Ex 5,20-23) e novamente se referisse ao modo como seria vencida aquela obstinação:
"Então disse o Senhor a Moisés: Agora verás o que hei de fazer a Faraó; pois por uma poderosa mão os deixará ir, sim, por uma poderosa mão os expulsará de sua terra" (Ex 6,1).
Neste ponto há uma segunda narrativa da vocação de Moisés e da sua genealogia, bem como uma explicação do nome de Deus, que será objeto de análise posterior, anteriormente conhecido pelos Patriarcas como El-Shaddai, agora recebendo por intermédio de Moisés o nome de Iahweh (Ex 6,2-3), que com esse nome ratifica a Aliança, toda a obra decorrente e a confirma:
"Ademais, tenho ouvido o gemer dos filhos de Israel, que os egípcios escravizam; e lembrei-me da minha Aliança. Portanto dize aos filhos de Israel: Eu sou Iahweh; eu vos tirarei de debaixo das cargas dos egípcios, livrar-vos-ei da sua servidão, e vos resgatarei com braço estendido e com grandes juízos. Tomar-vos-ei por meu povo e serei vosso Deus; e vós sabereis que eu sou Iahweh vosso Deus, que vos tiro de debaixo das cargas dos egípcios. Introduzir-vos-ei na terra que jurei dar a Abraão, a Isaac e a Jacó; e vo-la darei por herança. Eu sou Iahweh" (Ex 6,5-8).
"Tomar-vos-ei por meu povo e serei vosso Deus; e vós sabereis que eu sou Iahweh vosso Deus" - Deus ratifica a formação de Seu Povo e confirma toda a esperança que alimentaram de serem "introduzidos na terra que jurei dar a Abraão, a Isaac e a Jacó; e vo-la darei por herança. Eu sou Iahweh", condição que irá impregnar a Obra da Redenção:
"Mas Faraó não vos ouvirá; e eu porei minha mão sobre o Egito, e tirarei os meus exércitos, o meu povo, os filhos de Israel, da terra do Egito, com grandes juízos. E os egípcios saberão que eu sou o Senhor, quando estender a minha mão sobre o Egito, e tirar os filhos de Israel do meio deles" (Ex 7,4-5).
"E os egípcios saberão que eu sou o Senhor", essa a finalidade de todos os "grandes juízos" ou prodígios que faria: - convencê-los de que Iahweh é o verdadeiro Deus. Deus quer não só libertar e convencer os israelitas (Ex 4,30-31 / Ex 10,2), mas também levar os egípcios a se converterem (Sb 11,15s.23), em virtude do poder que demonstrava com os seus prodígios "para que saibais que não há ninguém como Iahweh" (Ex 8,6; 9,14). Assim, os israelitas (Ex 10,2) e os egípcios foram alvos da mesma demonstração, uma vez que "Deus não faz acepção de pessoas" (Dt 10,17; At. 10,34; Rm 2,11). Assim como adoravam vários répteis, crocodilos, serpentes, lagartos, rãs, até o escaravelho, Deus lhes demonstra o seu grande poder capaz de superar e até mesmo destruir os deuses deles, "para levá-los ao arrependimento" (Sb 11,15; 12,23-24). Os primeiros prodígios foram repetidos pelos magos do Egito (Ex 7,11.22; 8,3), mas de certo ponto em diante não mais o conseguem (Ex 8,14; 10,11) e até mesmo admitem:
"... Então disseram os magos a Faraó: Isto é o dedo de (um) Deus... " (Ex 8,15).
Reconheceram assim, os magos, a presença de Iahweh, enquanto o Faraó mais se obstinava. Porém, a partir desse reconhecimento vai se enfraquecendo, principalmente quando Iahweh lhe mostra "que distingue entre o meu povo e o teu povo" (Ex 8,19), excluindo dos efeitos dos prodígios o Povo de Israel (Ex 8,18-20). Se antes até mais oprimia os israelitas agora muda de atitude e passa a querer permitir os sacrifícios, porém mantendo-os sob pleno controle e observação, eis que temia que fugissem, "deixassem de os servir" (Ex 14,5) e, logicamente, não lhe agradava ver animais que adorava se tornarem vítimas em oferenda a Iahweh. Mas, Moisés quer afastar por um espaço de três dias, lembrando-lhe do antagonismo entre as duas formas de culto sacrificial, pelo que corriam o risco de serem lapidados pelos egípcios:
"Então chamou Faraó a Moisés e a Aarão, e disse: Ide, e oferecei sacrifícios ao vosso Deus nesta terra. Respondeu Moisés: Não convém que assim se faça, porque é abominação aos egípcios o que havemos de oferecer ao Senhor nosso Deus. Sacrificando nós a abominação dos egípcios perante os seus olhos, não nos apedrejarão eles? Havemos de ir caminho de três dias ao deserto, para que ofereçamos sacrifícios ao Senhor nosso Deus, como ele nos ordenar" (Ex 8,21-23).
Prosseguem os prodígios cada vez mais sérios e graves, fazendo com que o Faraó fosse se enfraquecendo, mas ao sinal de que os israelitas deixariam o país, novamente endurecia o coração e voltava atrás, até que os seus próprios servos o advertiram, levando-o a tentar outra alternativa, sem nada conseguir:
"Então disse Faraó: Eu vos deixarei ir, para que ofereçais sacrifícios ao Senhor vosso Deus no deserto; somente não ireis muito longe; e orai por mim" (Ex 8,24).
"...e orai por mim" - esta frase do Faraó, em conjunto com as várias maneiras de se referir ao "endurecimento de seu coração", chama a atenção e requer uma explicação para uma incoerência assim tão clara. Ainda mais quando se percebe que não existe uma só referência a um dos deuses do Egito, tão combatidos, mesmo quando da praga das rãs, tendo no seu panteão uma "deusa - rã". Nesta luta de Iahweh contra os deuses, o nome deles não é mencionado, sabendo-se do escrúpulo israelita a esse respeito, não os mencionando nem mesmo pronunciando o nome deles. Mas a presença dos magos leva a concluir que estavam sempre influenciando o Faraó, mesmo quando ele começava a ceder aos hebreus. Mais se parece com séria dificuldade por que passavam ele, os magos e os seus oficiais ou servos (Ex 8,4.14.15.24; 9,11.20.30; 10,7.11.16.20.24.27 etc.), debatendo-se entre a crença supersticiosa em seus deuses e no Deus do Povo dos Filhos de Israel, comprovadamente mais poderoso pelas obras que realizava. E as concessões que fizeram não passaram de tentativas para impedir a saída do Egito, já convencidos da sua superioridade de fé. Em uma das últimas oportunidades, após uma manifestação de medo e desespero (Ex 10,7), buscaram até mesmo que oferecessem o sacrifício sem a imolação de animais, alguns sagrados para eles, quando o Faraó tenta ainda uma forma de conseguir que não saíssem do país, pretendendo que somente os homens fossem ao sacrifício (Ex 10,7-11). Finalmente, Iahweh vem, de uma vez por todas, por fim à luta:
"Disse o Senhor a Moisés: Ainda mais uma praga trarei sobre Faraó, e sobre o Egito; depois ele vos deixará ir daqui; e, deixando vos ir a todos, com efeito vos expulsará daqui. (...) À meia-noite eu sairei pelo meio do Egito; e todos os primogênitos na terra do Egito morrerão, desde o primogênito do Faraó, que se assenta sobre o seu trono, até o primogênito da serva que está detrás da mó, e todos os primogênitos dos animais. Pelo que haverá grande clamor em toda a terra do Egito, como nunca houve nem haverá jamais. Mas contra os filhos de Israel desde os homens até os animais nem mesmo um cão ganirá, para que saibais que o Senhor faz distinção entre os egípcios e os filhos de Israel" (Ex 11,1-7).
"... todos os primogênitos na terra do Egito morrerão, desde o primogênito de Faraó, que se assenta sobre o seu trono, até o primogênito da serva que está detrás da mó, e todos os primogênitos dos animais" - "todos os primogênitos dos egípcios morrerão" - Por quê os primogênitos? O resultado seria menos assustador, ou menos devastador, fossem mortos outros filhos que não os primogênitos? Se Deus houvera anunciado a morte da totalidade de uma determinada criatura, de um tipo só e em todo o Egito, seria também assustador o acontecimento. E o resultado seria o mesmo tal como previsto, até mesmo com a mesma obstinação seguida ao reconhecimento, condição já se tornando por demais presente, mas agora com uma esperança de solução derradeira e definitiva:
"Disse o Senhor a Moisés: Ainda mais uma praga trarei sobre Faraó, e sobre o Egito; depois ele vos deixará ir daqui; e, deixando vos ir a todos, com efeito vos expulsará daqui (...) Então todos estes teus servos descerão a mim, e se inclinarão diante de mim, dizendo: Sai tu, e todo o povo que te segue as pisadas. Depois disso eu sairei. E Moisés saiu da presença de Faraó ardendo em ira. Pois o Senhor dissera a Moisés: Faraó não vos ouvirá, para que as minhas maravilhas se multipliquem na terra do Egito. E Moisés e Aarão fizeram todas estas maravilhas diante de Faraó; mas o Senhor endureceu o coração de Faraó, que não deixou ir da sua terra os filhos de Israel" (Ex 11,1.8-10).
Não se submeteu o Faraó, apesar da ameaça da eliminação dos primogênitos, já anunciada e prevista por Deus, bem antes de iniciada a missão de Moisés. As palavras seguintes teriam sido ditas por Deus no início do ministério de Moisés, quando ainda estava no exílio em Madiã, e já lhe resumira tudo o que aconteceria e até mesmo praticamente já lhe anunciara a "última praga": a morte dos primogênitos:
"Disse ainda o Senhor a Moisés: Quando voltares ao Egito, vê que faças diante de Faraó todas as maravilhas que tenho posto na tua mão; mas eu endurecerei o seu coração, e ele não deixará ir o povo. Então dirás a Faraó: Assim diz o Senhor: Israel é meu filho, meu primogênito; e eu te tenho dito: Deixa partir meu filho para que me sirva; mas tu recusaste deixá-lo ir; eis que eu matarei o teu filho, o teu primogênito" (Ex 4,21-23).
Ora, Deus não comunica nada à toa nem sem sentido ou que não seja compreendido pelo seu "eleito", que sempre pede esclarecimentos quando não O entende. Então Moisés compreendeu o que Deus quisera dizer com a eliminação dos primogênitos. O que já se viu a respeito dessa instituição é que o primogênito se destinava à chefia da tribo ou clã, enquanto nômades. Mesmo que entre os egípcios isso se aplicasse, já que não o eram e lhes nutriam antipatia (Gn 46,34c), o único primogênito que a ela destinar-se-ia seria filho do Faraó. Mas, foram incluídos "todos os primogênitos na terra do Egito..., desde o primogênito de Faraó, que se assenta sobre o seu trono, até o primogênito da serva que está detrás da mó, e todos os primogênitos dos animais", numa ampla generalização. Alguma outra qualidade existe que tanto valorizava essa instituição, principalmente fazendo coincidir com a Instituição da Páscoa uma eliminação em massa dos primogênitos de todo o Egito, tanto de homens como de animais, e ainda com essa mesma denominação qualificar Israel:
"...Assim diz o Senhor: Israel é meu filho, meu primogênito..." (Ex 4,22)
Mesmo que alguns se insurjam contra as pragas do Egito, julgando-as mais fruto da lenda popular ou do nacionalismo extremado israelita, bem como de fatos naturais que ocorrem normalmente na região, muitos dados existem que comprovam a ocorrência de algo extraordinário levando os israelitas a conseguirem se libertar. De imediato se destacam dois fatos sobremaneira estranhos: a aceitação do nome Iahweh como o nome de Deus pelos Israelitas e a aceitação de Moisés como líder, apesar da tácita recusa inicial de sua liderança pela exclusão da tribo de Levi da Primogenitura:
"A este Moisés que eles haviam repelido, dizendo: Quem te constituiu senhor e juiz? a este enviou Deus como senhor e libertador, pela mão do anjo que lhe aparecera na sarça. Foi este que os conduziu para fora, fazendo prodígios e sinais na terra do Egito, e no Mar Vermelho, e no deserto por quarenta anos" (At 7,35-36).
"Foi este que os
conduziu para fora, fazendo prodígios e sinais na terra do Egito...",
mesmo que fossem fenômenos naturais como alguns querem, sua ocorrência
súbita e o seu término em momentos determinados por Moisés,
mostraram uma origem bem diferente da de um acontecimento da natureza.
Era Iahweh que comandava os fenômenos tornando-os seus instrumentos,
pelo que se impôs como Deus ao Faraó, que a pouco e pouco,
não O reconhecendo de início (Ex
5,2) e respondendo com um agravamento da opressão
(Ex 5,6-19),
vai reconhecê-lo ao final com um pedido de bênção
(Ex 12,32). Também
aos próprios israelitas, que inicialmente não aceitaram Moisés
e terminaram por se lhe submeter aceitando todas as suas instruções
e liderança durante o cativeiro, para a partida e após a
libertação. Por isso é dispensável discutir
quanto a ocorrência ou não dos fenômenos pois um só
é o fato histórico ocorrido "milagrosamente" - a Libertação
INCONDICIONAL do Povo de Deus.
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