Curso de Bíblia
Por José Haical Haddad
Capítulo 1


GÊNESIS
A Criação
  
     
     1. A ORIGEM
"Sua realidade invisível - seu eterno poder e sua divindade - tornou-se inteligível, desde a criação do mundo, através das criaturas..." (Rm 1,20).

A ORIGEM é um desafio à inteligência e a existência é um mistério ainda não desvendado. O homem quer conhecer a origem de tudo e a finalidade da existência. Vê que na natureza tudo é cíclico: o dia começa, atinge o seu clímax e termina, para reiniciar de novo em outro dia, sucessivamente; igualmente, as fases da lua; também, as estações do ano a anunciar em cada primavera o reiniciar e a continuidade existencial: novos frutos, novas ninhadas e novos seres. Tudo recomeça. Tudo lhe inspira um começo novo e um fim a vista. Tudo lhe inspira um recomeço após a morte e sente o anseio pela vida eterna. Assim como tudo termina, tudo deve ter um começo. E então o procura, o começo de tudo e a própria origem. Tem a esperança de que o conhecimento da origem de tudo venha a lhe revelar para que existe: só quem sabe de onde vem sabe aonde vai, e a que se destina. Busca então localizar as minúcias tanto físicas como cronológicas da sua origem obscura. Também os contornos e detalhes que desconhece da sua criação, origem e formação. Não só de si mesmo, mas de tudo o mais que existe e o cerca. Mas, até hoje, só pôde conhecer alguns traços ainda indecifráveis e complexos de seu pequenos e esparso percurso histórico, e focalizado nas sucessões cronológicas da sua existência, que se manifestam aqui e acolá, fossilizados e dispersos no mundo por onde passa. A origem propriamente dita, real, permanece-lhe um mistério, um enigma, não conseguindo atingi-la. No âmago de toda a dinâmica existencial o homem é o mistério do homem: não sabe de onde veio e não sabe aonde vai; e, não sabendo disto, nada sabe de si mesmo, nem mesmo o que é.

"No princípio, Deus criou o céu e a terra. Ora, a terra estava vazia e vaga, as trevas cobriam o abismo. O Espírito de Deus pairava sobre as águas" (Gn 1,1-2).

Seus conhecimentos, "sua ciência", eram delimitados por aquilo, e somente por aquilo que lhe informavam os sentidos nus. Não possuía telescópios nem microscópios, desconhecia qualquer fenômeno físico, químico ou bacteriológico, bem como desconhecia por completo toda e qualquer conquista científica. E, com os parcos recursos de que dispunha, traçou a linha de sua concepção humana da Obra de Deus, culturalmente condicionada ao seu tempo. Nascia assim a primeira "teoria científica" da origem de tudo que o envolvia, profundamente mesclada com a concepção religiosa e doutrinária, condicionada à sua época e mentalidade. Por causa disso torna-se sumamente injusto avaliar a sua teoria ou o seu desenvolvimento com base nas conquistas modernas, exigindo dele conhecimentos que não possuía. É indispensável um deslocar à sua cultura para melhor compreendê-lo, separando-se ainda a verdade religiosa aí mesclada por revelação e inspiração de Deus, já que ninguém presenciou a Obra da Criação. Narra tudo com simplicidade e sem se deixar prender e perder por mitos, superstições, fantasias ou lendas, apesar de estar tudo paradoxalmente mesclado nela. Então, quando diz que "Deus criou o céu e a terra", diz que "Deus criou tudo o que existe", já que era tudo o que conhecia, todo o seu universo, o qual se resumia ao que seus sentidos lhe informavam. Não conhecia nem poderia conhecer as galáxias ou outros astros do sistema solar ou do universo astronômico.

     
      2. A CRIAÇÃO
"Deus disse: ‘Haja luz’ e houve luz" (Gn 1,3).

Deus começou a criar afastando as trevas e criando a luz, para poder ver a obra em andamento e aparecer como estava ela sendo feita, em virtude da sua concepção rudimentar e ainda antropomórfica. Quando amanhece, parece-nos à primeira vista que a "luz do sol" precede a "luz do dia", como se distinguissem. Sabemos que não, a "luz do dia" é a "luz do sol", mas ao narrador, que não o sabia, havia a distinção tal como se percebe a olhos nus, sem instrumentos, e sem o menor conhecimento científico. Não sabia ele, nem poderia saber, que a luz do sol leva aproximadamente oito minutos para atingir a terra, em virtude do que a ele pareciam coexistir ambas, distintas e separadas. Por isso, na sua concepção, Deus a cria antes de criar o sol, qual seja, melhor dizendo, independentemente da criação dele. Criou "a luz" erradicando "as trevas" (1,2), facilitando assim a explosão da vida e do calor desenvolvida pelo "Espírito de Deus" (1,2). Daí então, a Criação se desdobra vertiginosamente, em seqüência culturalmente lógica para o narrador e em ordem sistemática delimitada em espaços uniformes de tempo, "em dias", conforme Deus pronunciava "Sua Palavra" ("...e Deus disse...", "...e Deus chamou"...):

"Deus chamou à luz ‘dia’ e às trevas ‘noite’. Houve uma tarde e uma manhã: primeiro dia" (Gn 1,5).

O mundo de então era concebido como um grande volume cheio de água, onde tudo já se encontrava confusamente disposto, que Deus vai formando e ordenando, tal como se fora um "feto numa placenta":

"Deus disse: ‘Haja um firmamento no meio das águas e assim se fez. Deus fez o firmamento, que separou as águas que estão sob o firmamento das águas que estão acima do firmamento, e Deus chamou ao firmamento ‘céu’. Houve uma tarde e uma manhã: segundo dia" (Gn 1,6-8).

Desconhecendo as leis físicas da evaporação da água, da formação das chuvas, e vendo-as cair, supunha que tanto havia águas no céu como nos mares, tal como se "vê" a olho nu, único instrumento disponível:

"Deus disse: ‘Que as águas que estão sob o céu se reunam numa só massa e que apareça o continente’, e assim se fez. Deus chamou ao continente ‘terra’ e à massa das águas ‘mares’, e Deus viu que isso era bom" (Gn 1,9-10).

Delimitou Deus a terra e desse modo separou-a dos mares. Estavam assim preparados os ambientes para a criação, geração e propagação dos vegetais, ervas e frutos, com o que se daria a erradicação da aridez da terra virgem:

"Deus disse: ‘Que a terra verdeje de verdura: ervas que dêem semente e árvores frutíferas que dêem sobre a terra, segundo a sua espécie, frutos contendo a sua semente’, e assim se fez. A terra produziu verdura: ervas que dão semente segundo a sua espécie, árvores que dão, segundo sua espécie, frutos contendo sua semente, e Deus viu que isso era bom. Houve uma tarde e uma manhã: terceiro dia" (Gn 1,11-13).

A vegetação, as ervas e as árvores que cobrem a superfície da terra não são imanentismos dela, mas gerados dela e nela pela Palavra de Deus, fonte de tudo o que existe, nada tendo vindo à existência sem que Ele chamasse:

"Deus disse: ‘Que haja luzeiros no firmamento do céu para separar o dia e a noite; que eles sirvam de sinais, tanto para as festas quanto para os dias e anos; que sejam luzeiros no firmamento do céu para iluminar a terra’, e assim se fez. Deus fez os dois luzeiros maiores: o grande luzeiro para governar o dia e o pequeno luzeiro para governar a noite, e as estrelas. Deus os colocou no firmamento do céu para iluminar a terra, para governarem o dia e a noite, para separarem a luz e as trevas, e Deus viu que isso era bom. Houve uma tarde e uma manhã: quarto dia" (Gn 1,14-19).

Aquela luz já criada é depositada em receptáculos apropriados a sua distribuição durante a noite e durante o dia. Não são os luzeiros seres absolutos a ponto de se tornarem até mesmo em objetos de adoração por outros povos, eis que são criaturas advindas da Criação de Deus. Receberam de Deus a missão de comando e direção da luz, principalmente para as funções fundamentais da vida, indispensáveis à existência:

"Deus disse: ‘Fervilhem as águas um fervilhar de seres vivos e que as aves voem acima da terra, diante do firmamento do céu’, e assim se fez. Deus criou as grandes serpentes do mar e todos os seres vivos que rastejam e que fervilham nas águas segundo sua espécie, e Deus viu que isso era bom" (Gn 1,20-21).

Não bastava criar os seres vivos. Era preciso dotá-los de aptidão para a propagação e perpetuação da espécie. Deus então os fecunda, tornando-os férteis, capazes de se reproduzirem. É a bênção:

"Deus disse: ‘Que a terra produza seres vivos segundo a sua espécie: animais domésticos, répteis e feras segundo sua espécie’, e assim se fez. Deus fez as feras segundo sua espécie, os animais domésticos segundo sua espécie e todos os répteis do solo segundo sua espécie, e Deus viu que isso era bom" (Gn 1,24-25).

E, a Criação prossegue inexorável, aperfeiçoando-se sempre mais e mais, em cada novo estádio ou etapa, em cada dia, três obras por dia, caminhando em direção a sua obra prima: a Criação do Homem, o ápice dela, com o que será ultimada e coroada. É de se notar que vários indícios evidenciam a forma poética dessa narração, quais sejam, dentre eles, a repetição sistemática de várias expressões, tais como "Deus disse", "Deus viu que era bom", "Houve tarde e manhã: ...dia", os números com sua significação peculiar na criação em seis dias, nas três obras por dia, no sétimo dia, e a forma ritmada de todo o contexto. Não houve testemunhas nem a escrita havia sido inventada ainda. Daí compreender-se que essa narração, para se manter viva na memória, era assim composta em versos, em virtude de ser declamada sistematicamente, método ainda usado no Oriente para a retenção e divulgação de acontecimentos importantes. Todo o Velho Testamento está repleta de outras poesias, como forma de celebração de fatos destacados na História da Salvação (Gn 49; Ex 15; Nm 23; 24; Dt 32; 33; Jz 5; 1 Sm 2,1-10; Os Salmos; etc.); e, no Novo Testamento destacam-se dentre muitos trechos dos rituais cristãos dos primórdios, o Magnificat de Maria (Lc 1,46-55), o Benedictus (Lc 1,67-79) etc..

Em toda a narração transparece a onipotência e onisciência de Deus, nada criando ao acaso, mas inteligentemente e obedecendo a uma ordem determinada e coerentemente disposta com vistas a um fim deliberado: A Criação do Homem
.

     3. O HOMEM "Deus disse: ‘Façamos o homem à nossa imagem, como nossa semelhança, e que eles dominem sobre os peixes do mar, as aves do céu, os animais domésticos, todas as feras e todos os répteis que rastejam sobre a terra" (Gn 1,26).

Aí está: Deus cria o Homem "à sua imagem e semelhança" e como tal tendo poder sobre toda a Criação:

"Deus criou o homem à sua imagem, à imagem de Deus ele o criou, homem e mulher os criou. Deus os abençoou e lhes disse: ‘Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e submetei-a; dominai sobre os peixes do mar, as aves do céu e todos os animais que rastejam sobre a terra’. Deus disse: ‘Eu vos dou todas as ervas que dêem semente, que estão sobre toda a superfície da terra, e todas as árvores que dão frutos que dêem semente: isso será vosso alimento. A todas as feras, a todas as aves do céu, a tudo o que rasteja sobre a terra e que é animado de vida, eu dou como alimento toda a verdura das plantas’, e assim se fez. Deus viu tudo o que tinha feito: e era muito bom. Houve uma tarde e um manhã: sexto dia" (Gn 1,27-31).

Num só lance o narrador finaliza o último dia de Criação, o sexto dia. Nele criou Deus "os animais domésticos, répteis e feras segundo a sua espécie" e "Deus viu que era bom". Porém, após criar o Homem não diz o mesmo, "não viu que era bom"; mas, após cuidar da alimentação do que foi criado nesse último dia, "Deus viu tudo o que tinha feito: e tudo era muito bom". Só se pode concluir daí que Deus verificava se tudo "era bom" para o Homem, para quem Deus tudo criava. Um comparação facilitará a compreensão: é tal como sucede a um profissional, ao selecionar material e ferramentas para fazer uma mesa de madeira. Ao selecioná-los, um a um, vai dizendo de si para si mesmo ser bom o que separa, bom para a finalidade que busca, - a construção da mesa de madeira: separa o martelo e ao separá-lo "vê que isso era bom"; separa os pregos e ao fazê-lo "vê que eram bons"; separa a madeira para os pés e "vê que era boa"; separa as tábuas do tampo e da mesma forma "vê que eram boas"; tudo o que separou era bom para a mesa que queria construir; e, ao concluí-la mira toda a mesa pronta e "vê que ficou muito boa". É essa a imagem que se irradia de toda a narração em análise.

A expressão "e Deus viu que era bom" (1,4.10.12.18.21.25 e 31) traduz que tudo foi criado para o homem, a ele amoldado e entregue servindo-lhe até mesmo de alimento, cumprindo-lhe seguir o planejamento em função ordenadora, sempre em vista da finalidade de tudo e de cada coisa criada. O Homem é um auxiliar de Deus, um consorte com função executiva, feito para conviver com Deus, sua Imagem, sucedendo-O e secundando-O. Veio de Deus, REFLETE DEUS, devendo com Ele conviver e compartilhar, qual seja, vivendo por, com e para Deus. Por ser Imagem de Deus pode conhecê-lO, bem como as Suas leis.

Visivelmente Deus trata o homem desde a sua criação com carinho todo especial, expresso pelo ato de amoldá-lo Ele mesmo com as Suas Própria Mãos, com arte e afeto especiais, como um oleiro molda amorosamente no barro o objeto que cria:

"Então Iahweh Deus modelou o homem com a argila do solo, insuflou em suas narinas um hálito de vida e o homem se tornou um ser vivente" (Gn 2,7).

O Homem recebe de Deus o "hálito de vida e torna-se um ser vivente", trazendo em si a vida advinda do íntimo de Deus: o Homem tem Vida Divina em sua natureza de barro, em sua matéria. O Homem é a Matéria Divinizada. Nasceu diretamente de Deus, é Imagem de Deus, "reflete Deus", tal como uma imagem reflete aquilo que representa, tal como o reflexo de um espelho. O Homem, neste estágio da Criação, se identifica a Deus pelo domínio sobre ela e reflete a Santidade de Deus por sua integridade pessoal, por isso a "semelhança" e a "imagem".

Para o hagiógrafo, sem Deus o Homem nada é. Não passa de um viajante que trafega sem direção, sem caminho certo, um navegante que navega sem rumo. Sem Deus o Homem não encontra o seu trajeto, não parte nem chega. Perde-se em sua realidade existencial, sem finalidade, desligado de si mesmo por não se encontrar em Deus, de onde veio, para os fins e desígnios que lhe foram traçados por Ele. Ocupa um lugar privilegiado no quadro existencial da Criação e sem Deus fica deslocado gravitacionalmente, não girando em torno do eixo certo. Só em Deus pode se encontrar e se orientar, por ter vindo diretamente dEle. Também, ao narrador não ficou encoberto que na natureza criada existem leis ordenadoras das coisas e dos seres criados. Porém, necessitam elas da ação inteligente e catalisadora do Homem para melhor se ordenarem ao seu fim específico e desdobrarem melhor as suas possibilidades ou potencialidades naturais. A Obra da Criação traz em si mesma o seu próprio ordenamento com a fixação de leis próprias, eficazes, imanentes. Mas, centralizam-se no Homem, cujo desenvolvimento supõe a aptidão de ocupar o seu lugar no quadro vivo. É que tudo tem uma função peculiar, obedece determinações específicas e satisfaz até mesmo um conjunto sistemático e dinâmico. Tudo é segundo a finalidade material e orgânica, total e parcial, de toda a construção impressa, ordenada e governada por Deus. O Homem iria conduzir tudo a uma eficácia ideal, mediando entre as coisas, as criaturas, e Deus. O Homem que é matéria e ao mesmo tempo sopro de Deus seria o encontro de ambos. A expressão divina da matéria, eis o Homem, "imagem e semelhança de Deus" e, também, "barro", "pó". O Homem é a divinização da matéria criada, a expressão máxima da Criação, sem o quê, a Criação para nada serviria, sem nenhuma finalidade. É no Homem que a própria natureza das coisas se encontra consigo mesma e se realiza em plenitude material.

Criação que é uma dádiva de Deus, um transbordar do amor em ato divino. Ato criador, dom que se irradia em matizes infindos; uma dinâmica que faz acontecer, desenvolver e ser a vida pululante e bela; uma realidade que se fundamenta na intimidade de Deus e explode no Homem a "submeter e dominar" (Gn 1,28) a terra e a todos os seres criados, a tudo ordenando conforme as leis que lhe são próprias. Leis que descobre como emulsão das próprias coisas e seres criados. É do Homem o universo todo, assim Deus o destinou. Não apenas isso. Estabeleceu também um modo particular de convívio, um relacionamento específico, especial, chamando-o a uma vida mais íntima e partilhada familiarmente.

        
      4. DEUS E O HOMEM
"No tempo em que Iahweh Deus fez a terra e o céu, não havia ainda nenhum arbusto dos campos sobre a terra e nenhuma erva dos campos tinha ainda crescido, porque Iahweh Deus não tinha feito chover sobre a terra e não havia homem para cultivar o solo" (Gn 2,4-6).

Deus tudo criara com aptidão imanente para germinar e propagar-se. Além disso, oferecia a chuva, cabendo ao Homem o cultivo do solo. Estabeleceu-se então entre ambos, Deus e o Homem, verdadeiro consórcio de tarefas, um "co-múnus", uma comunhão num primeiro relacionamento: Deus propiciava a chuva, e o Homem oferecia o seu trabalho. Ao Homem cabia cultivar o solo, eis um dos motivos imediatos da sua Criação, e ainda o deslocamento dele para outra situação em nova dimensão ou novo estado de vinculação relacional com Deus:

"Então Iahweh Deus modelou o homem com a argila do solo, insuflou em sua narinas um hálito de vida e o homem se tornou um ser vivente." / "Iahweh Deus plantou um Jardim em Éden, no oriente, e aí colocou o homem que modelara... Iahweh Deus tomou o homem e o colocou no Jardim do Éden para o cultivar e guardar" (Gn 2,7-8.15).

É uma maneira diferente de dizer a mesma coisa já dita com outras palavras: Ao "insuflar em suas narinas o hálito de vida" Deus cria o Homem "a sua imagem e semelhança" e ao "colocá-lo no Jardim que Ele mesmo plantara" modifica a sua situação e o distingue dos outros seres já criados. Criando o Homem para cultivar o solo, não havia a necessidade de lhe preparar um local especial para aí o colocar, a não ser que se pretenda evidenciar a existência de um relacionamento especial preparado pelo próprio Criador. E, tendo sido preparado e ordenado pelo próprio Deus, só pode ser uma maior aproximação de ambos, Deus e o Homem, o que traz para o último uma profunda modificação em seu estado, elevando-o a um relacionamento sobrenatural. Pode-se vislumbrar sem esforço a existência de dois campos de relacionamento entre Deus e o Homem, quais sejam:

"... chamei-te pelo teu nome: meu tu és" (Is 43,1).

Desde essa integração e relacionamento comum apresentaram-se os vários elementos indissociáveis e que compõem a natureza humana e se destinam à consecução de um desenrolar antecipadamente elaborado, planejado e estabelecido, apesar de profundamente livre. Uma espécie de plano geral, tal como uma obra "inteligente e pensada", elaborado pelo próprio Deus, no qual o Homem se torna participante ativo e consciente. Goza então da glória e da felicidade de uma vida em estreita comunhão, intimidade e familiaridade pessoais com o Criador. Estabelece Deus com o Homem, pessoa a pessoa, um "consórcio de tarefas" (Gn 2,5-6) e uma "comunhão de vidas" (Gn 2,7-15).

A partir de então Deus sempre quer manter viva e dinâmica essa intimidade, familiaridade e comunhão de amor com o Homem, sua Criação predileta, a quem destinou toda a Criação:

"Deus abençoou-os e lhes disse: ‘Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e submetei-a; dominai sobre os peixes do mar, as aves do céu e todos os animais que rastejam sobre a terra" (Gn 1,28).

Recebe o Homem diretamente de Deus toda a Criação. O tom imperativo da entrega denota toda uma dinâmica em que se fundará a atividade humana e a íntima relação entre Deus e toda a humanidade. È a linha de toda a História. Este desígnio de Deus é o mesmo até hoje, e será o mesmo até o fim dos tempos, na culminação de toda a Obra. Nada, nem mesmo qualquer ato humano, pode alterar ou perturbar a realização dos Planos de Deus, em si; pode perturbar apenas o recebimento dos benefícios, retardando-os apenas quanto ao próprio Homem e à Criação, na História: A Criação é um ato irreversível de Deus.

     
     5. O MAL
Há um fato contraditório que aparece inesperadamente na História da Criação e retrata uma presença contumaz em toda a História Humana, bem como na vida particular ou social de cada um: é a presença do mal. Da mesma forma que a consciência da morte revela a vida, a consciência do mal revela o bem. Busca o homem ansiosamente conhecer e compreender a causa, a natureza e a finalidade do mal. Infrutiferamente, porém. Busca e quer erradicá-lo, ao encontro de um bem total. Para isso precisa conhecer o bem e o mal, estabelecendo as suas causas, suas naturezas e seus fins. O mal é a expressão do sofrimento, da dor e da morte, em contraste com o bem significado na felicidade, na paz e na vida. O mal é a ineficácia do bem, o desordenamento da Criação e sua conseqüente esterilidade. É a volta ao estado anterior à ação criadora de Deus, é o deserto, o caos: "... - ele é Deus, o que formou a terra e a fez, ele a estabeleceu; não a criou como um deserto, antes formou-a para ser habitada" (Is 45,18).

Para o hagiógrafo, da mesma forma que com a origem, o problema é simples e teve como fonte a atitude do Homem em face ao seu relacionamento com Deus. Relacionamento elevado à intimidade, familiaridade e comunhão que em determinado momento sujeitou o Homem à dependência de um preceito. Melhor seria dizer o "aviso" de que determinada forma de comportamento teria como conseqüência o advento da "morte". Foi no instante em que Deus dotou o Homem do "livre-arbítrio" e o instituiu. Mostrou-lhe uma situação e deixou-a a sua livre opção, mostrando-lhe o que lhe adviria caso não a observasse. Deus criou um ser livre, não um robô. Por inexistir um tom imperativo positivo vê-se que não se trata de uma ordem, e o "podes" bem como o uso de uma negativa amenizam e facilitam por demais a opção, como se fosse dito que "a morte vai vigorar se você a facultar":

"Podes comer de todas as árvores do jardim. Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás, porque no dia em que dela comeres terás que morrer" (Gn 2,16-17).

Analisando melhor o trecho vê-se que não se trata de uma "árvore do bem e do mal", mas de uma "árvore do CONHECIMENTO do bem e do mal". O "podes" denota a plena liberdade de escolha do Homem; também, a "árvore" caracteriza uma "fonte", a origem onde se forma o fruto, qual seja, a "conseqüência" anunciada: A MORTE. Depositava-se só e exclusivamente nas mãos do Homem a possibilidade da existência da morte, com todas as suas conseqüências. E, o que é a morte e o que ela representa? Para nós, que já vivemos no seu império, a experiência nos dita que é o fim de uma existência física. Mas, qual seria o significado dela para aquele primeiro Homem, considerando-se o aspecto geral antes e depois da sua presença na Criação? Para aquele primeiro Homem que a desconhecia, como lhe teria soado, ou como lhe fora explicada, já que sem conhecimento prévio inexiste a responsabilidade pessoal? Como lhe seria a Criação sem ela? Voltando-se abstratamente àquele tempo vejamos como se dariam os fatos sem a morte. Ora, inexistindo a morte ninguém morreria. Ninguém perderia a vida por doença, por causas fortuitas, de fome ou por qualquer outra causa. Não haveria a necessidade da luta pela sobrevivência, a disputa, as contendas, o ciúme, a inveja e outros males não apareceriam, bem como a infelicidade humana de tudo isso decorrente, e o sofrimento.

"A serpente era o mais astuto de todos os animais dos campos, que Iahweh Deus tinha feito. Ela disse à mulher: ‘Então Deus disse: Vós não podeis comer de todas as árvores do Jardim’? A mulher respondeu à serpente: ‘Nós podemos comer do fruto das árvores do Jardim. Mas do fruto da árvore que está no meio do Jardim, Deus disse: Dele não comereis, nele não tocareis, a fim de não morrer’. A serpente disse então à mulher: ‘Não, não morrereis! Mas Deus sabe que, no dia em que dele comerdes, vossos olhos se abrirão e vós sereis como deuses, versados no bem e no mal" (Gn 3,1-5).

Alguns detalhes dessa narrativa merecem uma análise mais elucidativa, por causa da farta simbologia empregada. Em primeiro lugar, em virtude da responsabilidade do Homem pela "guarda" do jardim, a serpente, por ser "o mais astuto dos animais do campo", não poderia estar ali. Não se pode culpar apenas a serpente pela queda, eis que a sua responsabilidade se prende ao fato de dar asas à inclinação humana já alojada no íntimo de Eva. Vê-se isso da facilidade de íntimo colóquio entre ela e a mulher, bem como da resposta que esta lhe dá em seguida, já bem reforçada com a expressão que grifamos "nele não tocareis", que não constou do aviso ou conselho de Deus. Deus não lhes dissera que "não a tocassem"! Eva demonstra então seu anseio mais íntimo, qual seja, a inclinação já atuante no seu "coração" de provar o fruto, a que resistira até aquele momento. A astúcia da serpente está em ter percebido a tentação a que ela estava se sujeitando e estimulado a prática do ato vedado com uma alternativa falsa, uma mentira, de que adviria a grande recompensa de "sereis como deuses"! Tanto é assim que imediatamente os efeitos da indução aparecem em Eva:

"A mulher viu que a árvore era boa ao apetite e formosa à vista, e que era, esta árvore, desejável para adquirir discernimento. Tomou-lhe do fruto e comeu. Deu-o a seu marido também, e ele comeu" (Gn 3,6).

A conseqüência do ato não tardou, infiltrando-se a morte como um dos elementos integrantes do mundo criado, por ato de livre opção e responsabilidade do Homem. Todos os demais imperativos impostos (Gn 1,28; 3,16.18-19) até mesmo à própria natureza (Gn 3,17-18), não traziam em si mesmos conseqüências advindas de sua violação ou descumprimento como aqui. Interessante que nenhum deles depende da vontade humana para se formarem, ou se cumprirem, ou se manifestarem, ou se concretizarem; e, apesar da rebeldia ocorrida permaneceram ainda integrados à natureza do Homem, cumprindo a sua função. O Homem rompeu com Deus; mas, Deus se manteve o mesmo, não rompendo seus desígnios para o Homem, e, apesar de todas as funções humanas sofrerem a deformação advinda da perda do centro gravitacional, pelo mau uso da liberdade que lhes dera, nem por isso a retira. O Homem continua sendo objeto de cuidados de Deus:

"Iahweh Deus fez para o homem e sua mulher túnicas de pele, e os vestiu" (Gn 3,21).

Deus nada modifica! Toda a estrutura fundamental da Criação permaneceu em si intocável, se bem que as maldições subseqüentes à serpente e à terra acarretam sério descontrole e desequilíbrio advindos do rompimento pelo Homem. Quando o narrador declina as maldições nada mais faz que significar uma imensa limitação ao controle absoluto do Homem (Gn 3,14-19). A esse ato de rompimento do Homem com os desígnios de Deus é que se denomina PECADO ORIGINAL, por ter sido a "árvore", a "fonte", a "origem" de todos os males e de todos os outros pecados, ou causa principal. Percebe-se facilmente que todo o desequilíbrio da natureza e até mesmo as diferenças climáticas têm a sua "origem" e a sua causa naquele "pecado". Também por ele toda a natureza humana, trazendo sérias conseqüências como a guerra, o terrorismo, o assalto, as rixas, as bebedeiras, o sexualismo desordenado, as doenças etc.. Por causa da maldição da terra, até mesmo as diferenças climáticas, chovendo copiosamente em algumas regiões e não chovendo de forma alguma em outras, todo e qualquer desequilíbrio é fruto do primeiro ato livremente praticado pelo Homem, o ato de rompimento com Deus, dando assim livre curso à morte. Para que ela atuasse era necessário que isso acontecesse, e aconteceu.



6. O PLANO DE DEUS, COMO FICA?

"Eles ouviram o passo de Iahweh Deus que passeava no jardim, à brisa do dia" (Gn 3,8),

Deus "passeava" no Paraíso que fora entregue a sua criatura predileta, como um Pai passeia familiarmente no jardim da casa de seu filho primogênito. O Homem que fora colocado no Jardim do Éden, plantado pelo mesmo Deus, com isso significando a íntima familiaridade a que fora destinado e elevado, é dele expulso, significando assim a perda de toda a familiaridade e de tudo, com a restituição ao estado anterior:

"E Iahweh Deus o expulsou do jardim do Éden para cultivar o solo de onde fora tirado" (Gn 3,23).

Apesar de desde então ter sido desprovido da Vida em familiaridade com Deus, da Vida em Graça, Deus não destruiu o "jardim", e "os querubins e a chama fulgurante" ali dispostos se destinaram exclusivamente "a guardar o caminho da árvore da vida" (Gn 3,24), para que o homem "não viva para sempre" (Gn 3,22). Assim afastado perde o acesso imediato à vida eterna, mas não fica privado dela para sempre tal como fora destinado, pois não fora destruído o local onde estava. Fora dele nasceriam todos os descendentes de Adão e Eva, o que evidencia "a conseqüência propriamente dita do Pecado Original", nascendo todos os seres humanos a partir de então desprovidos da intimidade e familiaridade com Deus, da "Vida em Graça", correspondente ao privilégio perdido por uma escolha e culpa exclusiva do próprio Homem.

O que não se pode pretender é que com essa Queda teria havido o rompimento de toda e qualquer relação entre Deus e o Homem, selando-se a sorte humana no que vem nas maldições advindas:

"Porque escutaste a voz de tua mulher e comeste da árvore que eu te proibira de comer, maldito é o solo por causa de ti! Com sofrimento dele te nutrirás todos os dias de tua vida. Ele produzirá para ti espinhos e cardos e comerás a erva dos campos. Com o suor de teu rosto comerás o teu pão até que retornes ao solo, pois dele foste tirado. Pois tu és pó e ao pó tornarás" (GN 3,17-19).

A atitude do Homem, além do rompimento de sua intimidade com o Criador, causa também o desequilíbrio e a desarmonia de toda a Criação, em cuja maldição se exprime a que ficou reduzida daí em diante. Não poderia ser amaldiçoado o Homem já abençoado anteriormente, mas o seu ato vai causar a esterilidade de toda a Criação, impedindo que a terra correspondesse ao que dela deveria advir, não houvesse acontecido o pecado. Torna o seu trabalho infrutífero, cansativo e penoso, negando-lhe a terra aquilo que produziria inexistindo a maldição. Colhe daí em diante o que plantou com o seu ato.

Porém, não ficaria o Homem definitivamente privado da possibilidade de Vida Sobrenatural a que fora elevado, qual seja, a Vida em Íntima Comunhão e Familiaridade com Deus. O Criador não muda os seus desígnios e não teria razão de ser nem poderia ser outro o sentido de suas palavras à serpente, anunciando-lhe a sua derrota final:

"Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a descendência dela. Ela te esmagará a cabeça e tu lhe ferirás o calcanhar" (Gn 3,15).

Nessas palavras está o germe de toda a dinâmica salvífica a que fica condicionada a situação do Homem, que por si só não poderá reencontrar o caminho de volta, nem restabelecer o relacionamento rompido, bem como a Criação toda. Deus não muda, não se altera, nem se deixa abalar por um ato humano. Caso o ato humano tivesse o condão de alterar o Desígnio de Deus, ou se o Criador tivesse mudado ou modificado seu relacionamento com o Homem, esse Protoevangelho não poderia ter sido proferido. Deus continua cuidando do Homem:

    "Iahweh Deus fez para o homem e sua mulher túnicas de pele, e os vestiu" (Gn 3,21).

    "Iahweh Deus ... os vestiu", como a indicar que não modificara seus planos para a sua criatura predileta, e assim agasalhados e protegidos pelo próprio Deus, são reconduzidos ao antigo consórcio de tarefas, agora num mundo cheio do mal que nele semearam:

    "E Iahweh Deus o expulsou o Jardim do Éden, para cultivar o solo de onde fora tirado" (Gn 3,23).



    7. O SÁBADO

    O escritor bíblico ao idealizar os acontecimentos do passado mesclou-os com a cultura de então, levando para a origem ou para a Criação as instituições vigentes no seu tempo, ai localizando-as, tal como que justificando-as. É o caso do SÁBADO, como é conhecido o sétimo dia da semana. Com base no que já vimos podemos compreender o significado dado originariamente a ele, e qual o seu sentido religioso:
"Assim foram terminados o céu e a terra e todo o seu exército. E no sétimo dia Deus deu por terminada a obra por ele feita; e no sétimo dia CESSOU DE TODA A OBRA QUE HAVIA FEITO; e, por isso, DEUS ABENÇOOU O SÉTIMO DIA E O SANTIFICOU, porque nele cessou de toda a obra que, ele, CRIANDO, tinha feito. Esta é a geração do céu e da terra na sua CRIAÇÃO" (Gn 2,1-4).

A palavra "cessar" em hebraico pronuncia-se mais ou menos "shabat", de onde nos veio o nome e a pronúncia do sétimo dia da semana, do sábado, tal como é conhecido. Nesse trecho não se trata da instituição do respeito ao sábado, mas de explicar a sua distinção entre os outros dias, a ponto de se lhe vedar nele todo e qualquer trabalho. Não se trata de um "repouso de Deus", propriamente falando, Deus não precisa de repouso algum (Jo 5,17), mas do dia em que termina a Criação e lhe dá o acabamento final, "abençoando-a". E, quando Deus abençoa, fecunda e "energiza" para que cumpra a sua finalidade, conforme os Seu Desígnios, tal como abençoara os animais e o homem ao criá-los. Não se trata de fecundar e "energizar" um dia tornando-o fértil para a "reprodução de outros dias", mas de imprimir na Obra da Criação as leis que lhe são peculiares, fecundando-a e "energizando-a" para que prossiga de conformidade com seus desígnios, abençoando-a toda. Deus CESSA DE CRIAR, apenas, tal como o próprio Jesus nos revela:

"...: meu pai trabalha sempre e eu também trabalho" (Jo 5,17).

Deus nada criou sem motivo e sem meta a atingir, muito menos para destruir. Daí porque Deus santificou o sétimo dia, qual seja, num sentido bíblico, "separou", distinguiu. Aparece então com toda a clareza a irreversibilidade e inexorabilidade da criação:

"Enquanto durar a terra, semeadura e colheita, frio e calor, verão e inverno, dia e noite não há de faltar" (Gn 8,22).


8. O PROTOEVANGELHO

O chamado protoevangelho traz nele embutido claramente a maldição da serpente, formando um só corpo e devem ser analisados em conjunto:

"Porque fizeste isso sê maldita entre todos os animais e entre todas as feras do campo. Caminharás sobre teu ventre e comerás poeira todos os dias de tua vida. Porei hos-tilidade entre ti e a mulher e entre a tua descendência e a descendência dela: ela te esmagará a cabeça e atacá-la-ás no calcanhar” (Gn 3,14-15).

Alguns outros trechos (Is 25,12c; 26,5s; Sl 91/90,13 etc.) distintos mostram que aí se encontra bem caracterizada a condição de ser a serpente uma contumaz e conhecida inimiga de Deus, destacan-do-se:

“Diante dele o homem do deserto se curvará e seus inimigos lamberão o pó...” (Sl 72/71,9)

“Que lambam o pó como a serpente, como os animais que rastejam terra” (Mq 7,17).

 É clara a referência que se faz aos inimigos vencidos e traduzem o tratamento que se lhes dirigiam, identificando-se ao início do protoevangelho, onde consta o que a serpente colherá com sua atitude. Isto é, além de inimiga teria ela agora outra conseqüência a suportar: a hostilidade da mulher e da descendência dela, contrastando com aquele “diálogo amistoso” com que a seduziu no Paraíso. O diabo de agora em diante deverá temê-la por causa do desate final aí previsto: “ela te esmagará a cabeça e tu atacá-la-ás no  calcanhar”. Não se trata de uma ameaça apenas futura, mas de um fato que pertence a História de ora em diante, qual seja, a luta entre o diabo e a mulher. A maldição é proferida pelo próprio Iahweh e como tal se identifica à outras palavras dele existentes, tendo necessidade de se identificar a algumas características para ser reconhecida:

“Talvez perguntes em teu coração: ‘Como vamos saber se tal palavra não é uma palavra de Iahweh?’ Se o profeta fala em nome de Iahweh, mas a palavra não se cumpre, não se realiza, trata-se então de uma palavra que Iahweh não disse” (Dt 18,21-22).

A principal característica da Palavra de Deus é a de que se realiza inexoravelmente, qual seja, a partir de seu pronunciamento, se cumpre. Por isso a Profecia é reconhecida imediatamente, como advinda de Deus. Há que ter um primeiro lance, ou uma realização imperfeita imediata e, com ou sem intermediários, um final definitivo a se esgotar, realizar-se e a se cumprir em Cristo:

“Não penseis que vim revogar a Lei e os Profetas. Não vim revogá-los, mas dar-lhes pleno cumprimento...” (Mt 5,17).

O protoevangelho é “uma palavra que Iahweh disse” devendo apresentar por isso a mesma característica em sua realização, qual seja aquela ocorrência sempre presente na História, pelo que é sempre reconhecível. A sua primeira realização se dá com a única mulher presente no momento da maldição, Eva. 

Corporifica-se com o nascimento de Set (Gn 4,25) a quem ela mesma dá o nome, nomeia (Gn 4,25b), e “dar o nome” tem um significado peculiar de se assumir todo o destino, ou especifica a missão ou condição dela (Gn 2,20; 4,25; 17,5; Is 43,1; 2Rs 24,17; 2Cro 36,4; Mt 1,21; Lc 1,31 etc.). Quando Eva dá o nome a Set assume a sua posição no campo de luta com o diabo, começada pela descendência do mal com Caim (Gn 4,17-24). Já se manifesta a “hostilidade entre a descendência da serpente e a da mulher” (Gn 3,15), com a primeira vitória da mulher: Enós, o filho de Set e descendente dela (neto), é “o primeiro a invocar o nome de Iahweh”
(Gn 4,26):

“...seca-se a erva, murcha-se a flor, mas a palavra de Deus subsiste para sempre” (Is 40,8).

Essa atuação perene da palavra de Deus na História aparece também quando as escrituras re-gistram que todas as mulheres ligadas à Aliança destinada à redenção humana eram estéreis. Só se engravidavam por uma ação especial de Deus que as tonava férteis a começar pela mulher de Abraão, Sara (Gn 18,14); a mulher de Isaac, Rebeca (Gn 25,21); bem como as mulheres de Jacó, Lia (Gn 29,31) e Raquel (Gn 30,22). Até que, na “Nova Aliança”, também fertiliza Isabel, a mãe de João Batista (Lc 1,7.13.24.36), “...na velhice... ...aquela que chamavam estéril”, quando se dá a inaugura-ção da Fecundidade Messiânica e Maria, a mãe de Jesus, “uma virgem concebe e dá à luz” (Mt 1,23). Resume-se assim o percurso e o ponto culminante da vitória da mulher sobre a serpente, fecundada por Deus, com vistas no retorno do Homem ao Paraíso a que fora destinado.

Deus não destruiu o jardim, nem alterou seu desígnio de que o Homem o habite, e na qualidade de Autor da Salvação, mantém a mesma disposição de ânimo que teve ao criar o Jardim do Éden. E, por meio do Espírito Santo, fecunda a “virgem que concebe e dá à luz” ao “Filho do Altíssimo” (Lc 1,32), para se cumprir o seu Santo Desígnio de levar o homem à comunhão, intimidade e familiaridade com Ele. Assim, tudo aquilo que estava significado no Jardim de Deus está no conteúdo do Protoevangelho, “em germe e figura”, já que na “Árvore da Vida no meio do Jardim” estavam identificados como pertinen-tes indestacáveis à Obra da Criação tanto a Encarnação do Verbo, de que é essência, como o meio para a humanação do Filho, Maria, desde então preservada em plenitude como a mãe do verbo feito carne, naturalmente adequada a tal missão com todos os dons.

Deus não é um ser criado que esteja sujeito à ação de outrem, fruto de movimento e condicio-namento a um futuro desconhecido ou incerto e dependente do acaso. Seus desígnios se cumprem inexoravelmente. A Criação é um fato irreversível e não seria um ato humano que perturbaria qualquer pretensão divina, por mínima que fosse. É que o Homem não tem poder nenhum suficiente para que seus atos venham a alterar ou comprometer a vontade de Deus. Uma fragilidade assim não se coaduna com a onipotência e a onisciência de Deus. Assim, esse Jardim de Deus, tal como preparado para o Homem, aguardaria a redenção “na plenitude dos tempos” (Gl 4,4) pela Encarnação do Filho. Jesus não é um remendo improvisado por Deus em virtude de ter havido um comprometimento de Sua Vontade pelo Pecado Original. Essa Encarnação já era dos desígnios de Deus e seria como que o prêmio de Vida Eterna caso aceito pelo Homem, a mesma plenitude (Jo 10,10) a que o reconduz o Messias. O Pecado Original atingiu tão somente a Criação, mas o Plano de Deus continua em pleno vigor. O Homem é que sofre uma transformação tal que lhe retarda e condiciona o gozo da Vida Eterna.



9.  AS CONSEQÜÊNCIAS IMEDIATAS DO PECADO

É muito perigoso em Bíblia o precipitar das conclusões sem um exame da maneira de se expressar, com coerência e de acordo com a mentalidade já manifestada anteriormente. Não é possível uma palavra ter sido usada em sentidos diferentes num mesmo contexto, a não ser que ela tenha mesmo essa propriedade de dualidade de significações. Observa-se a existência de um novo consórcio de tarefas ou co-munus, agora entre o homem e a mulher, quando Deus diz:

“Iahweh Deus disse: ‘Não é bom que o homem esteja só. Vou fazer uma auxiliar que lhe seja igual” (Gn 2,18).

Salta aos olhos a necessidade de muito cuidado no exame desse trecho, eis que, naquele Jardim, em vida familiar e íntima com Deus, é um absurdo sentir solidão. Quando se está em íntima comunhão com Deus não se pode estar “só”, “solitário”. Por isso, aqui é o mesmo diapasão da afirmativa já analisada anteriormente de que “Deus viu que era bom” (Gn 1,4.10.12.18.21.25.31), ocorrida durante a narrativa inicial, coordenando-a como um refrão. Vimos então que o sentido era de que aquilo que se criava era bom para o Homem, na finalidade que lhe foi dada e impressa por Deus na Criação. Assim o Homem sozinho, sem uma auxiliar que lhe fosse igual, não atingiria nunca aquele ideal que lhe fora designado por Deus. No Jardim recém-plantado tudo se desenvolveria no seu sentido natural, qual seja, viveria a família humana advinda do casal em comunhão plena com Deus, na glória e felicidade eternas, coordenada e conjuntamente com toda a Criação:

“O homem deu nomes a todos os animais,... mas... não encontrou a auxiliar que lhe fosse igual. Então Iahweh Deus..., da costela que retirara do homem... modelou uma mulher e a trouxe ao homem. Então o homem exclamou: ‘Esta sim, é osso de meus os-sos e carne de minha carne...’ Por isso um homem deixa seu pai e sua mãe, se une à sua mulher, e eles se tornam uma só carne. Ora, os dois estavam nus, o homem e sua mu-lher, e não se envergonhavam” (Gn 2,20-25).

Novamente se torna imperioso o uso do bom-senso para se compreender essa “procura de uma ‘que lhe fosse igual’ entre os animais” que foram entregues a Adão. Não se pode pretender que se tratasse apenas de “uma esposa”, uma fêmea, para a mãe de seus filhos! Não! A atividade programada por Deus ao Homem não se limitava a isso. A ele cabia “dominar e cultivar a terra e possuí-la, e submetê-la, dominar sobre os animais de toda a espécie” (Gn 1,28; 2,5). Era-lhe indispensável uma “auxiliar” à altura, com as mesmas aptidões naturais para complementar sua atividade. Foi um ser assim que Adão “não encontrou” entre os animais, e Deus lhe preparou a Mulher, “que lhe era igual”, pois “não lhe era bom ficar só” para se conseguir o objetivo traçado por Deus.

Com a Queda Original, rompida a comunhão com Deus, dissolve-se a unidade gravitacional de todo o sistema, manifestam-se várias desordens. Começam a se exprimir no relacionamento do casal com o próprio Deus e entre si mesmo, em atitudes agressivas mútuas e com a própria unidade total, que perdendo a convergência dinâmica e harmônica em direção ao Criador por mediação humana, torna-se divergente, sem sentido e completamente difusa, passa a reinar a confusão total. O Homem e a Mulher não sabem mais o que fazer, se escondem, um do outro e do próprio Deus:

Eles ouviram os passos de Iahweh Deus que passeava no jardim à brisa do dia e o homem e a mulher se esconderam da presença de Iahweh Deus, entre as árvores do jardim. Iahweh Deus chamou o homem: ‘Onde estás?’, disse Ele. ‘Ouvi teu passo no jardim’, respondeu o homem; ‘tive medo porque estou nu, e me escondi’. Ele reto-mou: ‘E quem te revelou que estavas nu? Comeste, então, da árvore que te proibi de comer!’ O homem respondeu: ‘A mulher que puseste junto de mim me deu da árvo-re, e eu comi!’ Iahweh Deus disse à mulher: ‘Que fizeste?’ E a mulher respondeu: ‘A serpente me seduziu e eu comi” (Gn 3,8-13).

Instala-se a insegurança e a desarmonia. Primeiro, o medo, levando-os a se esconderem, em virtude da nudez que passaram a sentir, denotando a insegurança da perda da comunhão com Deus e o profundo sentimento de culpa advindos. A seguir, inquiridos, o Homem acusa a Deus e a Mulher: “A mulher que puseste...”, isto é “a culpa é tua e da mulher”: “tua por tê-la posto junto de mim e dela por me ter seduzido”; por sua vez, a mulher acusa exclusivamente a serpente. A esta nem é dada a oportunidade de defesa, não é interrogada nem dá explicações e desaparece do cenário terrivelmente amaldiçoada, denotando-se assim uma situação de inimizade já existente e devendo ainda perdurar e prosseguir. A luta com ela apenas começava e as maldições que lhe foram dirigidas se assemelham às condições de tratamento dado ao inimigo quando derrotado [cfr. Sl 72(71),9; Mq 7,17; Is 25,12], como se viu. 

O consórcio Homem-Mulher continua vigorando mesmo após a expulsão do Paraíso, eis que os Planos de Deus são irreversíveis e um ato humano, mesmo o pecado, não os pode comprometer. Porém, agora, passaram à condição de mortais, seja pelo fato de que “és pó e ao pó tornarás” (Gn 3,19), seja pela presença das “dores de parto” (Gn 3,16), seja “no império da força a vigorar entre marido e mulher” (Gn 3,16b), seja pelo “sofrimento advindo do trabalho humano” (Gn 3,17-19b), todos estes fatos e muitos outros advindos como conseqüências imediatas do Pecado Original. Na verdade toda a Criação perde o seu eixo central ou gravitacional e perde o equilíbrio natural (Gn 3,17a), desnorteando-se completamente, caindo, tal como no-lo diz São Paulo, numa espécie de gestação, até que se “cumpra” a salvação advinda com a Encarnação do Verbo:

“...a criação em expectativa anseia pela revelação dos filhos de Deus. De fato, a cri-ação foi submetida à vaidade - não por seu querer, mas por vontade daquele que a sub-meteu - na esperança de ela também ser libertada da escravidão da corrupção para en-trar na liberdade da glória dos filhos de Deus. Pois sabemos que a criação inteira geme e sofre as dores do parto até o presente” (Rm 8,19-22).

Outras conseqüências passam a se manifestar, principalmente no predomínio do instinto carnal, próprio do animal que é o Homem, desaparecida a vida sobrenatural a que fora elevado e não o quisera: são as conseqüências mediatas do pecado. 



10. AS CONSEQÜÊNCIAS MEDIATAS DO PECADO

O afastamento do primeiro casal de seu centro gravitacional trouxe, diretamente e até mesmo sem nenhuma intervenção, as conseqüências anteriormente descritas. Além delas, trouxe outras advindas de modificações ocorridas no equilíbrio da natureza do próprio Homem. Tratando-se de conseqüências de conseqüências podem ser denominadas de mediatas. No momento em que as descrevermos procuraremos demonstrar essa ocorrência, pois só são dedutíveis a partir das condições peculiares de cada narrativa, repletas dos fatos culturais do tempo em que foram escritas, reproduzin-do as mais das vezes costumes por demais desconhecidos de nossa época.

Após a expulsão do Paraíso, o narrador narra como que o início da propagação da espécie destacando no episódio de Caim e Abel os baixos instintos agora dominantes na natureza humana, usando para tal o mesmo gabarito cultural, o modo de narrar e a linguagem de seu tempo:

Quando Deus criou o homem, fê-lo à imagem de Deus. ...Adão... gerou um filho à sua imagem e semelhança...” (Gn 5,1-3).

O hagiógrafo está dizendo na sua maneira culturalmente condicionada que o Filho de Adão não poderia mais totalmente “refletir” Deus, por estar contaminado em sua natureza, agora desfigurada pelo advindo desequilíbrio causado pelo desligamento de Deus. Ele não mais partilhava a presença de Deus, tal como no Éden e não mais trazia aquele equilíbrio original que o tornava “imagem e semelhança de Deus”. Era agora nada mais que “imagem e semelhança de Adão”, fruto do pecado, não mais aquela imagem perfeita que era anteriormente. Era a “imagem do homem decaído” que se transmitiria de ora em diante portadora de todos os efeitos do rompimento sobrenatural com Deus. Várias situações e acontecimentos vão se manifestar de então em diante. Não se trata de uma ordem cronológica de acontecimentos ocorridos, mas de uma ordem lógica, fruto da cultura religiosa de então.


10.1  CAIM E ABEL

A primeira que o narrador nos oferece é na família, no episódio de dois irmãos, Caim e Abel, onde o primeiro mata o segundo. Ora, agora, neste exato momento, por todo o mundo irmãos estão matando irmãos. Não seria necessário mostrar isso, com tantos detalhes, não fora a presença de um fato novo advindo, que é a causa principal dessa conseqüência. É a inveja e os seus iguais impulsos conhecidos como ciúme e despeito, bem ainda a competição ou qualquer outro antagonismo entre os membros de uma família, todos ensejadores da rivalidade ou do ódio que a destroi ou a compromete e ainda vai explodir no meio social.

A desarmonia conseqüente entre o Homem e Deus e entre o Homem e a Mulher vai agora explodir em outra, a desarmonia entre os irmãos, ocasionada por uma emoção agora pertinente ao contexto psicológico do ser humano. Rompidas a unidade, a familiaridade e a intimidade com o Criador, tornam-se impossíveis a unidade, a concórdia e a paz na família. A harmonia da Obra da Criação tem por fonte a intimidade de Deus com o Homem, que explode na coesão e identificação mútua na unidade dinâmica do conjunto daí formado, tal como fora criado. Rompida essa unidade com Deus, cai-se no domínio do instinto de sobrevivência e desencadeia-se a necessidade da luta em busca do sentimento de segurança perdida. Abel, preferido por Deus, significou para Caim essa insegurança, e eliminá-lo torna-se uma questão de vida ou morte, a própria sobrevivência:

“..., Caim apresentou produtos do solo em oferenda a Iahweh; Abel, por sua vez, tam-bém ofereceu dos primogênitos e da gordura de seu rebanho. Ora, Iahweh agradou-se de Abel e de sua oferenda. Mas não se agradou de Caim e de sua oferenda, e Caim ficou muito irritado e com o rosto abatido. E Iahweh disse a Caim: ‘Por que estás irado e por que andas cabisbaixo? Se fizeres o bem, há motivo para erguê-la, mas se não procederes bem, eis que o pecado está à espreita em tua porta; as suas ganas es-tão voltadas para ti, mas tu podes dominá-lo” (Gn 4,3-7).

Quando fora escrita esta narrativa transferiu-se para o início dos tempos a necessidade de se cumprirem todas as formalidades rituais então em uso. Tal como com o sábado, aqui também com o sacrifício e suas normas, observando-se facilmente algumas das regras que lhe são pertinentes, quais sejam: 


Para nós não tem nenhum sentido se estabelecer qualquer diferença entre uma e outra das oferendas, nada as distinguindo em si. Porém, para os antigos israelitas, Caim, o filho primogênito, deveria oferecer as primícias do campo em sacrifício (Dt 26,2). Não o fez, enquanto Abel ofereceu “dos primogênitos e dos mais gordos” (Ex 22,28s; Dt 15,19), cumprindo as exigências religiosas do ritual. Por isso “Deus agradou-se de Abel e de sua oferenda e não se agradou de Caim e de sua oferenda”. Tudo indica que a narrativa foi adaptada ao tempo em que os israelitas haviam deixado a vida nômade e se tornado sedentários. Por isso Caim se dedicara ao cultivo da terra e Abel ao pastoreio (Gn 4,2). Está o narrador fazendo apologia das exigências rituais do sacrifício, bem como narrando o desenvolvimento do mal, até mesmo a responsabilidade do Homem por seus atos, caracte-rizada pela expressão “e tu podes dominá-lo” (Gn 4,7).
Essa busca de segurança que a unidade reflete ainda é intuitiva e instintivamente buscada pelo Homem, formando os grupos sociais onde se abriga e, naquele tempo em que se registrou por escrito o acontecimento, tomara a forma de tribos patriarcais. Por não compreender o regime social de uma tribo de então é que parece à primeira vista que Caim não fora castigado por Deus, pelo homicídio que praticara. Não é assim, porém; na realidade cultural de então, recebe Caim o maior castigo a que poder-se-ia condenar uma pessoa, excluindo-o do clã, deixando-o exposto à toda espécie de infortúni-os, hostilidades e, entre estranhos de outras tribos , sem a segurança e proteção da própria, bem como de seu Deus tribal:

Agora, és maldito e expulso do solo fértil que abriu a boca para receber de tua mão o sangue de teu irmão. Ainda que cultives o solo, ele não te dará mais seu produto: serás um fugitivo errante sobre a terra.” Então Caim disse a Iahweh: ‘Mi-nha culpa é muito pesada para suportá-la. Vê! Hoje tu me banes do solo fértil, te-rei de ocultar-me longe de tua face e serei errante e fugitivo sobre a terra: mas o primeiro que me encontrar me matará” (Gn 4,11-14).

O grifado evidencia a gravidade do castigo imposto, principalmente o “gemido” de Caim, lamentando seu afastamento da tribo, tendo de “ocultar-se longe de tua face e serei errante e fugitivo sobre a terra” e o perigo a que estaria exposto já que “o primeiro que me encontrar me matará”, tudo isso por estar desguarnecido, fora da cobertura da tribo. É evidente a intenção do narrador em mostrar o começo e o crescimento da luta do bem e do mal, a começar na descendência da mulher, em consonância com a maldição “redentora” proferida contra a serpente:

“Porei inimizade entre ti e a mulher, entre tua descendência e a descendência dela. Ela te esmagará a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar” (Gn 3,15).

Ora, biblicamente, a serpente é o símbolo do mal e a personificação do diabo, autor e fautor da morte, por sua maldade natural (Sb 2,23-24). Era então o começo da luta entre as duas descendências, a do mal significada em Caim e a do bem significada em Set, o filho que fora dado à Eva “em lugar de Abel, morto por Caim” (Gn 4,25). Anunciava-se que o Homem não estaria para sempre nem total-mente entregue nas mãos do diabo, abandonado por Deus. Iniciava-se uma luta que culminaria inexoravelmente com a derrota do mal (com a mulher a “esmagar-lhe a cabeça”).

Mostra inicialmente o narrador o começo e o avanço do mal: Caim, o primeiro filho da primeira mulher comete o primeiro homicídio e mata o primeiro justo, Abel (Hb 11,4; 12,24; Mt 23,35): a partir de então ‘o justo é e será sempre a vítima do pecado’. Daí em diante a hostilidade entre a descendência da mulher e a descendência do diabo tem a conotação de uma luta entre o bem e o mal. O mal é representado pela descendência de Caim e o bem é representado pelo filho que veio para a mulher em lugar de Abel - Set. Ambos vieram de uma mesma mulher, Eva. Com Caim o mal progride ao extremo (Gn 4,17-23); com Set o bem começa a frutificar, sendo o filho dele Enós, “o primeiro a invocar o nome de Iahweh” (Gn 4,25-26). Com Caim começam a se construir cidades, ‘fontes do mal’ (Gn 13,12-13). Ainda hoje os simples camponeses temem os habitantes da cidade, muitas vezes espertos e golpistas. Aparece na mesma linhagem a primeira poligamia (Gn 4,19.23) e o desenvolvimento dos homicídios, até mesmo de crianças (Gn 4,23), crescendo cada vez mais a violência, tudo exigindo e clamando por vingança (Gn 4,24). Surge ainda a arte (Gn 4,21), volta-se ao nomadismo (Gn 4,20) e aparece a técnica (Gn 4,22), atividades até hoje muitas das vezes comprometidas pela maledicência popular com a libertinagem, imoralidade e o banditismo. 

Transparece no relato e começando com Eva (Gn 4,1.25) uma fase da história em que as mulheres davam o nome aos filhos (Gn 21,6; 29,31-30,24; 35,18) principalmente as descendentes dela, e o fazem com referência a alguma circunstância ou com algum significado. Ora, dar nome é assumir a propriedade e o destino, já o vimos, quando Adão nomeou todos os seres criados ao assenhorear-se deles (Gn 2,19-20). A mulher, ao dar nome a Set, o pai de Enós, (“quem primeiro invocou o nome de Iahweh” - Gn 4,25-26) assume assim o seu lugar e de certa forma inaugura a luta que se instituiu contra o diabo, para a redenção humana, que culminará com a vitória de Jesus Cristo, a “descendência da mulher” - Maria. 


10.2  O DILÚVIO

Para o Homem moderno a Bíblia perdeu o crédito por causa de suas descrições não muito verosímeis, como é o caso do Dilúvio. É simplesmente impossível aceitar que um volume de água de chuva, caindo durante quarenta dias, seja suficiente para cobrir toda a superfície terrestre acima dos “mais altos montes” (Gn 7,19). Mas, para o Homem antigo não havia tal dificuldade, eis que a sua concepção física do universo permitia-lhe isso facilmente. Primeiro porque o mundo todo era o que ele atingia com o seu olhar, o horizonte; e, segundo porque concebia o mundo como tendo água em cima e em baixo do firmamento celeste, pois “romperam-se as fontes do grande abismo e abriram-se as cataratas do céu” (Gn 7,11). 

Assim, o máximo que se poderia atualmente aceitar é o fato do dilúvio não ter passado de uma grande inundação, que aos olhos do passado cobriu todo o mundo criado. O que se pretende realçar com essa comparação, mostrando a diferença entre o fenômeno ocorrido naquela realidade e a sua interpretação pelo narrador, é que os fenômenos tais ainda ocorrentes na natureza e seus similares (enchentes, furacões, tremores de terra e outros cataclismos) cada vez mais apavoram o ser humano. Leva-o imediatamente a pensar em “castigo de Deus”, em virtude da sua pequenez e fragilidade ante a dimensão catastrófica do fenômeno. Até mesmo nos dias de hoje, e por mais “civilizado” que seja, qualquer homem sente a presença de algo bem maior que ele e, apesar de todos os seus avanços técnicos, incontrolável. Lembra-se então intuitivamente de Deus, assim percebido como no controle, disposição e direção de toda a natureza do Universo. Ocorreu uma grande inundação no mundo antigo e o narrador bíblico busca-lhe uma explicação razoável, conforme sua formação cultural, não excluin-do Deus, a Obra da Criação e a sua consciência do Pecado Original. Foi um acontecimento terrível num passado remoto até mesmo dele, cuja narração oral lhe chegou dos antepassados seus. É como que parte da história de sua própria tribo, em que Noé seria um deles, tal como se enunciava que “Noé entrou na arca com seus filhos, sua mulher e suas noras” (Gn 7,1.7.13), bem como um casal de cada animal, ave ou réptil, bem como separando “de todos animais puros sete pares, dos animais impuros um par” (Gn 7,2.8.9.14.15...). Novamente aqui o narrador projeta no passado rituais do sacrifício usados no seu tempo, acreditando existirem desde a Criação; por isso também “animais puros e impuros” (Lv 11), obedecendo normas sacrificiais e de alimentação. 

Não se perca de vista nunca que a harmonia de “toda” a Criação tem por fonte a intimidade e familiaridade do Homem com Deus, e se manifesta na unidade de todo o conjunto. Daí por que, pensando nas conseqüências do Pecado Original e localizando num passado ainda lembrado, o acontecimento do Dilúvio, é ele apresentado como exemplo do crescimento do mal atingindo também a sua natureza terrestre. Mostra também que todo o gênero humano, da mesma forma, vai se corrom-pendo, associando-se cada vez mais com o mal significado na união carnal dos descendentes de Set com os descendentes criminosos de Caim:

“... os filhos de Deus viram de Deus viram que as filhas dos homens eram belas e toma-ram como mulheres todas as que mais lhes agradavam” (Gn 6,2).

Novamente se projeta no passado o costume de não se misturar pelo casamento membros de tribos desconhecidas, pelo perigo que representavam ao clã (Gn 24,3-4; 26,34-35; Nm 36,6-9), principalmente pela intromissão de diferentes deuses bem como de costumes condenáveis. Para o narrador estabeleceu-se daí uma verdadeira confusão entre o bem e o mal, que não mais se distinguem para o Homem, e essa presença do mal, conseqüência da desarmonia original na própria natureza, mesclado e indestacável de toda a ação humana, continua indesejável para Deus:

“Iahweh disse: ‘Meu espírito não permanecerá para sempre no homem, porque é carne e os seus dias serão de cento e vinte anos” (Gn 6,3).

Esse trecho aqui disposto faz crer que se trata de uma redução da idade elevada dos Patriarcas, relatada quando da genealogia de Adão (Gn 5), onde atingiam até mesmo quase mil anos. Não é bem assim, porém, já que de Noé, o principal protagonista do Dilúvio, se diz, após essa aparente restrição, que viveu trezentos e cinqüenta anos (Gn 9,28). Também Abraão, Isaac e Jacó tiveram respectiva-mente cento e setenta e cinco (Gn 25,7), cento e oitenta (Gn 35,28-29) e cento e quarenta e sete anos (Gn 47,28), idades maiores que a limitação aparente aqui imposta. Essa maneira incomum de relatar idades é para nós muito misteriosa, e não se encontra uma explicação satisfatória se bem que o sentido religioso dos números é muito usado pelos antigos, a que se denominou numerologia. Na realidade existem algumas particularidades interessantes quanto a esses números, destacando-se: 

  Também: 

Melhor é considerar que no tempo antigo havia uma profunda relação cultural entre a fecundi-dade de procriação e a bênção de Deus, representados pelo número de descendentes. Daí porque, pela redação da genealogia de cada um deles, a partir do nome do primogênito seguido da expressão que se repete em todos, “o tempo que viveu (...) após o nascimento de (...) foi de (...) anos, e gerou filhos e filhas”, reiniciando a seguir com a genealogia do seu primogênito, seguindo o mesmo diapasão, logicamente se pode deduzir que a idade então apresentada como sendo do Patriarca nada mais é que a soma das idades de todos os seus descendentes e membros, e sua mulher, até a sua morte, formando o seu clã. Muitas explicações existem e não se deve preocupar com isso. Basta que se entenda a inexistência de qualquer relação entre essas idades e a menção dos cento e vinte anos no trecho em exame, mesmo por que não se pode aceitar idades tão elevadas, principalmente no mundo antigo onde faltavam os mais elementares recursos para a sobrevivência num ambiente profundamente hostil. Apesar de tudo isso, o melhor mesmo é que tais longevidades tinham um significado cultural ainda misterioso para nós, e o versículo transcrito traduz o fato da perda, com a morte, da “vida divina” que Deus insuflara no Homem (Gn 2,7), bem como, pelo Pecado Original, a perda da “vida eterna” a que o destinara no Éden (Gn 2,9 / 3,22). 

É como que um recordar de Deus, a se manifestar em cada catástrofe ou cataclismo que ocorra e atinja o Homem decaído. A corrupção carnal se generaliza a partir da quebra daquela unidade total com Deus causada pelo Pecado. A cisão se manifesta cada vez mais completa, a começar na vida familiar até a natureza, e o pecado, por sua vez, atinge a sua força máxima. Tudo se corrompe, até mesmo os descendentes de Set, a linhagem dos bons, tudo descentraliza-se, tudo partiu o vínculo com Deus. Rompido o elo Homem-Deus tudo descentraliza-se, e desequilibrou-se, não mais se encontran-do, transparecendo como quê uma repulsa a Deus, outra das conseqüências do Pecado Original:

“E disse Iahweh: ‘Farei desaparecer da face da terra o homem que criei; e com o ho-mem também os animais, os répteis e as aves do céu; porque estou arrependido de tê-los criado” (Gn 6,7).

Ora, Deus não se arrepende nunca, não é alguém que não sabe o que faz. Não se pode deduzir daí que o narrador esteja se referindo a uma surpresa ocasionada em Deus, a ponto de se lhe exigir uma providência séria. O que o narrador manifesta é que Deus, tal como no Jardim do Éden, não se identifica ao pecado, nem à corrupção geral que se alastrava cada vez mais:

“Iahweh viu que a maldade do homem era grande sobre a terra, e que era continua-mente mau todo o desígnio de seu coração. Iahweh arrependeu-se de ter criado o ho-mem sobre a terra e se afligiu em seu coração, ...” (Gn 6,5-6).

Os cento e vinte anos marcados não passam portanto de um prazo simbólico, cujo sentido não é mencionado em virtude de ser conhecido culturalmente pelos demais membros do grupo a que se dirigia a narrativa, e se referia ao tempo determinado por Deus para o Dilúvio, “eliminando toda a carne”. Esse prazo centenário também realça como Deus é lento para manifestar a sua ira, pois “Deus não fez a morte, nem se alegra que pereçam os vivos” (Sb 1,13) e “criou o homem para a imortalida-de, e o fez imagem da sua própria natureza” (Sb 2,23). É que Deus não criou o mundo para a corrupção que agora se apresentara, e o Dilúvio que se descortinava nada mais era que outra conse-qüência do Pecado Original, aquilo que se costuma designar como “ira de Deus”. É a repulsa dEle que também se manifesta na natureza criada, apesar de corrompida, como um protesto (Rm 8,20-22), assemelhando-se a um verdadeiro “arrependimento de Deus”:

“Deus não é homem, para que minta, nem filho de Adão para que se arrependa. Por acaso ele diz e não o faz, fala e não realiza?” (Nm 23,19).

A não ser assim há de se estabelecer uma enorme contradição da narrativa com o gesto carinhoso de Deus, que “fez para o homem e sua mulher túnicas de pele e os vestiu” (Gn 3,21), condoendo-se da situação deles (Gn 3,22)  ao expulsá-los do Jardim (Gn 3,23). Não é possível que somente agora Deus iria demonstrar um arrependimento tão tardio, a não ser que tudo não passe de uma conclusão do próprio narrador em face da enormidade do cataclismo ocorrido. Tanto é assim que fica claro não possuir o pecado força suficiente para comprometer ou destruir todo o bem ainda ali se manifestando e se destacando nitidamente:

“Noé achou graça aos olhos de Iahweh, ...Noé era um homem justo, íntegro entre seus contemporâneos, e andava com Deus” (Gn 6,8-9). / “Iahweh disse a Noé: ‘... és o único justo que vejo diante de mim no meio desta geração” (Gn 7,1).

Na linhagem de Set, da qual veio Noé, se encontra ainda um justo, aquele que andava com Deus, tal como Henoc (Gn 5,24). Ressurge assim, do abismo de mal que germinara e crescia por demais, a mão de Deus, ainda em ação na própria Criação corrompida, em busca do Homem para reconduzi-lo à vida. Mostra-nos o narrador essa atitude do Criador, protegendo o Homem e, no meio de tanta convulsão, livrando-o de um dos frutos do rompimento inaugural da harmonia de Sua Obra, coerentemente com aquele ato de “vestir o casal com as túnicas de peles” (Gn 3,21). No quadro de desequilíbrio geral em que se debate a natureza decaída aparece uma esperança amparada pela mão de Deus: o “justo” que adveio da linhagem de Eva, a Mulher, descendente de Set, a quem Eva “deu o nome” (Gn 4,25), começando a “pisar a cabeça da serpente”. Em cada fenômeno da natureza, que traduza a corrupção a que fora reduzida pelo mal, se refletirá, pela presença de um justo, a vitória preanunciada no Protoevangelho. Deus é fiel e verdadeiro (Rm 3,4), imutável, e com Noé mantém ainda, além do consórcio de tarefas (Gn 2,5), bem vivo ainda o mesmo apelo à intimidade, familiarida-de e comunhão de vidas para o que foram convidados, em Adão e Eva, todos os Homens. 

Não se tratava de uma destruição total da Criação, eis que tivesse Deus essa intenção, ficaria sem sentido a Arca onde entraram Noé, “teus filhos, tua mulher e as mulheres de teus filhos” (Gn 6,18), além de “tudo o que vive, de tudo o que é carne. ... dois de cada espécie, um macho e uma fêmea, para os conservares em vida contigo” (Gn 6,19-21). Essa a grande contradição aparente da narrativa que mais se agiganta quando se recolhe “sete casais de animais puros e um de impuros” (Gn 7,2). A se considerar a “impureza” como tal seria essa a oportunidade ideal para se acabar com os “animais impuros”, não os salvando como se fez. Outra conclusão não pode existir, que a narrativa tem uma conotação subjacente, outra finalidade paralela, não se limitando apenas a demonstrar o efeito do Pecado Original também nos desequilíbrios e cataclismos da própria natureza:

Eu não amaldiçoarei nunca mais a terra por causa do homem, porque os desígnios do coração do homem são maus desde a sua infância...” (Gn 8,21).

Essa a grande mensagem do Dilúvio: a fonte do mal está no coração do Homem e não na Criação, essa é outra conseqüência do primeiro pecado. Mesmo destruindo tudo, e recriando-se tudo de novo, não se resolve o problema do mal no mundo se ele não for erradicado do coração humano, essa é uma lição que se pode tirar da narrativa do Dilúvio! Não se pode perder de vista a condição cultural do narrador já que os seus conhecimentos da natureza física eram-lhe muito limitados. Realmente ali aconteceu um grande cataclismo, outros povos antigos o narram. Mas, o nosso hagiógrafo o coloca como um ato de repulsa de Deus ao pecado que então se praticava,  numa interpretação culturalmente condicionada dele, além de pretender que se tenha atingido o mundo todo. Traduz a “ira de Deus” que consiste no abandono a que a própria criatura, por si mesma, se entrega às forças do mal, e no que mais e mais se afunda. Pareceu-lhe como uma Nova Criação:

“Deus abençoou Noé e seus filhos, e lhes disse: ‘Sede fecundos, multiplicai, enchei a terra” (Gn 9,1).

Esta frase é como que um retorno ao ato inicial da Criação e toda a narrativa nada mais é que, no próprio relato da presença do desequilíbrio na natureza, o prosseguimento da luta que o bem de Deus trava com o mal do diabo. E anuncia a vitória com a colocação do Homem na Arca, protegen-do-o durante todo o percurso e conduzindo-o à terra firme, culminando com uma Bênção, ratificando a Obra num recomeço total de uma Nova Criação. É para, pelo e por meio do Justo a Criação, refletindo sempre os desígnios de Deus para o Homem. Assim, vem o Dilúvio espelhar em forma de uma “pacificação de Deus” que não tem o desejo de destruir o mundo, nem o Homem: os atos de Deus são irreversíveis. Retrata também que apesar do pecado e desenlace havidos não há guerra entre Deus e o Homem. Tal como um guerreiro depõe seu arco após a guerra, Deus coloca o seu arco nas nuvens anunciando a paz:

Eis o sinal da Aliança que instituo entre mim e vós e todos os seres vivos que estão convosco para todas as gerações futuras: porei o meu arco na nuvem e ele se tornará um sinal da aliança entre mim e a terra” (Gn 9,12-13).

O arco da guerra entre Deus e o Homem foi deposto e para sempre passa a escorar, com a sua parte curva, todas as comportas que mantêm no firmamento as “águas que estão em cima” (Gn 1,6-7). O arco funcionava na cultura de então como uma espécie de vigorosa viga semi circular que mantinha para sempre “fechadas as comportas que contêm as águas do firmamento” (Gn 7,11; 8,2...), passando a ser considerado como um memorial da aliança universal ali contraída:

“Quando o arco estiver na nuvem, eu o verei e me lembrarei da aliança eterna que há entre Deus e os seres vivos, com toda a carne que existe sobre a terra” (Gn 9,16).

Novamente o narrador mistura aqui instituições existentes em seu tempo e coloca nessa pré-história bíblica o ritual do sacrifício, como se já existente e em uso pelo “justo”, para ser compreendi-do pelos seus contemporâneos. Assim, quando fala em animais puros refere-se a uma disposição advinda da Lei de Moisés (mosaica) ou do Código do Sinai (Lv 11), faz a apologia das instituições religiosas em uso e cuja observância entende ser desde então condição de eficácia da proteção de Deus:

Noé construiu um altar a Iahweh e, tomando dos animais puros e de todas as aves puras, ofereceu holocaustos sobre o altar. Iahweh respirou o agradável odor e disse consigo: ‘Eu não amaldiçoarei nunca mais a terra por causa do homem, porque os de-sígnios do coração do homem são maus desde a sua infância; nunca mais destruirei to-dos os viventes como fiz” (Gn 8,20-21).

Facilmente se percebe que animais puros são aqueles que se destinavam ao sacrifício, onde eram consumidos. No holocausto a vítima é toda queimada, dela ninguém “comendo” (Lv 1), só a “consumindo” Deus, respirando o odor da fumaça, por significar a expiação dos pecados:

“Se sua oferenda consistir em holocausto (...) oferecê-lo-á à entrada da Tenda da Reu-nião, para que seja aceito perante Iahweh. Porá a mão sobre a cabeça da vítima e esta será aceita para que se faça por ele o rito de expiação” (Lv 1,3-4).

Uma das finalidades do sacrifício é estabelecer com a santificação uma comunhão de vidas com Deus (1Cor 10,18). Era oferecido num altar especialmente ungido para a santificação das oferendas (Ex 30,22-29), das quais se santificava pela consumição pelos participantes, o ofertante, os seus familiares e convivas, entrando em comunhão com Deus pelo suave odor das partes queimadas, como confirma Jesus:

“Quem é maior, a oferta ou o altar que santifica a oferta?” (Mt 23,19)

A substituição do ofertante pela vítima, que se opera pela imposição das mãos (Lv 1,4), foi institucionalizada a partir da imolação de um cordeiro em lugar de Isaac, por determinação do próprio Deus (Gn 22,13). Aparece também a crença de que “a parte simboliza o todo” quando Noé “tomando de todos os animais puros” (Gn 8,20) e não todos eles, oferece em holocausto alguns deles, tal como ensina São Paulo:

“E se as primícias são santas, a massa também o será; e se as raízes são santas, os ra-mos também o serão” (Rm 11,16).
 
A concepção vigente era de que o todo se solidariza com a sorte da parte. No sacrifício, santificada a oferenda no altar, santificava-se o ofertante, toda a sua família, amigos participantes e bens, além da comunhão com o sacerdote e Iahweh. Naquele ato, Noé representando a raça humana, visto como o único remanescente vivo, primogênito do clã (Gn 5,28-29), na qualidade natural de sacerdote, oferece a Iahweh o holocausto como um pedido de perdão por todas as ofensas praticadas:

“... tendo o sacerdote feito o rito de expiação pelos membros da comunidade, serão eles perdoados” (Lv 4,20).

A oferenda foi eficaz e restabelece-se a relação com Deus, a ordem no mundo e a atribuição do Homem:

“... nunca mais destruirei todos os viventes, como fiz. Enquanto durar a terra, semeadu-ra e colheita, frio e calor, verão e inverno, dia e noite não hão de faltar. Deus abençoou Noé e seus filhos e lhes disse: ‘Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra” (Gn 8,21-9,1).

Há em seqüela como que uma nova bênção aos únicos sobreviventes do cataclismo com algumas diferenças da anterior, quando da Criação do Homem (Gn 1,28-29):

Gn 9,1-7
Gn 1,28-30
Deus abençoou Noé e seus filhos e lhes disse: “Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra". Sede o medo e o pavor de todos os animais da terra e de todas as aves do céu, como de tudo o que se move na terra e de todos os peixes do mar: eles são entregues nas vossas mãos.  Deus os abençoou e lhes disse: “Sede 
fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e submetei-a; dominai sobre os peixes do mar, as aves do céu e todos os animais que rastejam sobre a terra.” 

...Quanto a vós, sede fecundos, multiplicai-vos, povoai a terra e enchei-a 
Tudo o que se move e possui a vida 
tudo isso eu vos dou, como vos dei a verdura das plantas
Deus disse: 

“Eu vos dou todas as ervas que dêem semente, que estão sobre toda a superfície da terra, e todas as árvores que dão frutos que dêem semente

vos servirá de alimento,. isso será vosso alimento
  A todas as feras , a todas as aves do céu, a tudo o que rasteja sobre a terra e que é animado de vida, eu dou como alimento toda a verdura das plantas”...
Mas não comereis a carne com sua alma, isto é, o sangue. Pedirei contas porém, do sangue de cada um de vós. Pedirei contas a todos os animais e ao homem, aos homens entre si, eu pedirei contas da alma do homem. Quem derrama o sangue do homem pelo homem terá seu sangue derramado. Pois à imagem de Deus o homem foi feito...”  

Algumas modificações são facilmente perceptíveis pelo simples cotejo das duas bênçãos, acima transcritas em colunas para melhor visão. Tal como anunciado na Maldição da Terra (Gn 3,17-19), o Homem perde o controle sobre ela, e agora mão mais “domina sobre os animais”. Fugiu-lhes tudo ao domínio anterior, o que o Dilúvio apresenta como outra das conseqüências do Pecado Original, agora se manifestando na própria natureza terrestre. Também, pela mesma causa, Deus estabelece novas normas de comportamento, pelo que o Homem passa a ter o direito de comer a carne de todos os seres vivos. Inaugura-se o que se chama resgate, pelo que, por ter salvo os animais, passa a ter direito sobre eles e o Homem de herbívoro passa a carnívoro. Além disso, é estabelecido o direito social da Pena de Morte, para quem derramar sangue humano, em virtude do Homem ter sido criado à imagem de Deus. O ritual do sacrifício no tocante ao respeito pelo sangue é aí colocado, em sinal de expiação, fato retroagido pelo narrador advindo da codificação levítica (Lv 17,11). É que naqueles tempos o sangue era tido como a sede da vida (Lv 17,11a) e comendo-se o seu sangue adquire-se a sua vida, ou o pecado de que tinha sido carregado no sacrifício, pela imposição das mãos. Partia-se do fato de que ao se frustrar a menstruação da mulher era concebido o nascituro, entendendo-se que “o sangue materno coagulava-se ao desaparecer em virtude da mescla com o esperma, gerando-se o feto” (Jó 10,10; Sb 7,2; Lv 17,11). O sangue, sendo a vida, somente a Deus pertence, pelo que se devolve à terra ou se derrama em torno aos pés do altar ou no próprio povo, conforme o ritual.
De tudo isso fica mais que claro que a grande mensagem do Dilúvio é a Nova Ordem aí presente na forma de uma Aliança entre Deus e o Justo, abarcando pela bênção a todos os Homens, a todos os seres vivos e a toda a criação. Ainda “o mal está no coração humano”:

“Eu não amaldiçoarei nunca mais a terra por causa do homem, porque os desíg-nios do coração do homem são maus desde a sua infância; nunca mais matarei todos os viventes, como fiz” (Gn 8,21).

Não é destruindo e começando de novo a Criação que se acabará com as conseqüências do Pecado Original, mas somente com a erradicação do mal de dentro do coração do homem aqueles desígnios de Deus se cumprirão. Tornando justo o homem é que retornará à árvore da vida, no Éden, para onde Deus ainda o chama para viver eternamente. Deus, autor da criação, também autor da salvação, é quem tudo conduz para o restabelecimento daquela comunhão de vidas anteriormente rompida pelo próprio Homem, anunciada e prefigurada na preservação de um justo. O dilúvio é então um anúncio profético da salvação do homem a ser praticada por um justo. E, da mesma forma que o justo Noé e sua família viveriam num mundo lavado pelas águas, também os cristãos, justos pela água do batismo, viverão no reino de Deus, inaugurado na Encarnação, Vida, Morte e Ressurreição de Jesus Cristo, o Justo:

“Pois a Criação em expectativa anseia pela revelação dos filhos de Deus. De fato, a cri-ação foi submetida à vaidade - não por seu querer, mas por vontade daquele que a sub-meteu - na esperança de ela também ser liberta da escravidão da corrupção para entrar na liberdade da glória dos filhos de Deus. Pois sabemos que a criação inteira geme e sofre as dores de parto até o presente” (Rm 8,19-22).

Finalmente, o que o Dilúvio diz fundamentalmente é que somente se purificará o homem retirando-se o mal de dentro do seu coração.


10.3  A TORRE DE BABEL

O narrador bíblico não foi apenas um compilador amorfo de narrativas advindas do seu passa-do. Vai num crescendo mostrando o rastro de efeitos do pecado em todo o ambiente em que se insere e que cerca o Homem. Abordou todos os fatos em todos os ângulos em que sentiu uma provável presença desse desequilíbrio. Daqui passa a abordar outro efeito catastrófico dele, a começar com o episódio que tomou o nome de Torre de Babel. É que o Homem, desprovido da unidade que lhe proporcionaria Deus, passa a buscá-la apenas a partir dos seus semelhantes, índole que lhe fora incutida na própria natureza (Gn 2,18). Somente vivendo em agrupamentos humanos poderia ele vencer as diversas intempéries que o mundo hostil lhe oferecia e que sozinho nunca superaria. Várias obras arquitetônicas, monumentos e até mesmo cidades imensas vêm corroborar esse fato de haver uma vida social organizada, como fruto de sua inteligência, voltada para a conduta e comportamento em comum. O equilíbrio advindo vem sublinhado com a afirmação de que “todo o mundo usava e se servia da mesma língua” (Gn 11,1) apesar de antes já se mencionar várias delas (Gn 10,5.20). O sentido que se quer imprimir é que os homens se entendiam, tinham um objetivo comum que os mantinha na unidade, aqui significado numa obra monumental, superando a ameaça de desunião. As torres da Mesopotâmia tinham a forma de uma escada, como que a unir o céu e a terra, permitindo aos deuses descer, para se entreter com os homens. A narração mostra que para se tornarem famosos e salvar a unidade pretenderam construir uma torre:

“Disseram um ao outro: ‘Vinde! Façamos tijolos e cozamo-los ao fogo!’ O tijolo lhes serviu de pedra e o betume de argamassa. Disseram: ‘Vinde! Construamos uma cidade e uma torre cujo ápice penetre nos céus! Façamo-nos um nome e não sejamos dis-persos sobre toda a terra” (Gn 10, 3-4).

O “não sejamos dispersos sobre toda a terra” mostra com propriedade que a finalidade deles era a própria unidade em perigo eminente. Apegaram-se tão ciosamente uns aos outros, por perderem o liame com o próprio Criador, bem como contrariaram aqueles desígnios que lhes imprimira com a ordem expressa de “povoar a terra e enchê-la” (Gn 9,1.7). Pelos degraus da Torre que construíam “Iahweh desceu para ver a cidade e a Torre que os homens tinham construído” (Gn 11,5), e não se alegrou:

“E Iahweh disse: ‘Eis que todos constituem um só povo e falam uma só língua. Isso é o começo de suas iniciativas! Agora, nenhum desígnio será irrealizável para eles! Vin-de! Desçamos! Confundamos sua linguagem para que não mais se entendam uns aos outros.’ Iahweh os dispersou dali por toda a face da terra, eles cessaram de construir a cidade” (Gn 11,6-8).

Há nessa narrativa muito mais que a tentativa de explicar a origem das línguas, como geral-mente se presume. Não se pode esquecer de que “o coração do homem continua voltado para o mal” como já fora diagnosticado, manifestando-se ainda em discordâncias familiares tais como a entre Noé, dois de seus filhos, e Cam, o caçula que ofendeu culturalmente a honra do pai (Gn 9,20-25). Apesar do Dilúvio a desarmonia familiar continuava, terminando com a maldição de Canaã, o primogênito de Cam, numa pretensa justificativa perante a consciência tribal do motivo de Deus tirar a Terra de “Canaã” e entregá-la aos descendentes do filho primogênito de Noé, “Sem”. Também, da descendên-cia de Cam vêm os “homens que emigraram para o oriente, ...um vale na terra de Senaar e aí se estabeleceram” (Gn 11,2.4 / 10,10.19): são os filhos amaldiçoados (Gn 9,25-27) e, tal como os de Caim, passaram a construir “cidades”, fontes de perdição, entre elas Babel (Gn 10,10) e Sodoma e Gomorra (Gn 10,19; 13,13; 18,20; 19,4-11). É evidente que o narrador quer demonstrar as conse-qüências do pecado difundindo-se e alastrando-se até mesmo pela vida social pois os homens não mais se entendem, “não falam a mesma língua”, fruto da mesma cobiça e do mesmo orgulho, que os afastara da intimidade de Deus no Paraíso, comparando-se:

Gn 3, 4-5
Gn 11,4
Não, não morrereis! Mas Deus sabe que, no dia em que dele comerdes, vossos olhos se abrirão e vós sereis como deuses, versados no bem e no mal. IConstruamos uma cidade e uma torre cujo ápice penetre nos céus. Façamo-nos um nome e não sejamos dispersos sobre toda a terra

E não conseguem a não ser repetir o infortúnio e a frustração anterior:

Gn 3,22
Gn 11,6-7
Se o homem é como um de nós, versado no bem e no mal, que ele agora não estenda a mão e colha também da árvore da vida, e coma e viva para sempre.
Isso é o começo de suas iniciativas! Agora, nenhum desígnio será irrealizável para eles. Vinde! Desçamos! Confundamos sua linguagem para que não mais se entendam uns aos outros.

Há assim uma espécie de ratificação da Queda Original, pela identidade dos efeitos finais, em que o preceito violado foi a difusão do gênero humano, feita de maneira harmônica e pacífica, sem as causas da separação ocorrida, em que não mais se fala a “mesma língua”, não mais se entendendo. Como se agrupavam contra os Planos do Criador, que determinara a dispersão dos homens por todo o mundo, o narrador coloca em Deus a fonte do desentendimento deles. Do fato advém o nome Babel (Gn 11,9) que significa “porta de Deus”, naturalmente se referindo ao lugar por onde Deus desceu causando a confusão e desentendimento.

A grande mensagem dessa narrativa é a necessidade e premência do Homem sempre ter uma grande obra para conseguir manter a unidade com os seus semelhantes. Inutilmente, pois o desenten-dimento que se manifesta no relacionamento social foi originado no rompimento havido com o Criador. Comprometido o centro irradiador da energia unitiva de Deus não é possível a unidade humana a não ser a custa de esforços gigantescos bem como em obras de grande projeção. O próprio interesse humano se desviou, não sendo por amor a Deus que se busca o progresso, mas por motivos humanos e egoístas, fama e vaidade ou qualquer outra forma de cobiça e orgulho.

A mudança e inversão desse quadro somente se dará com a inauguração da era cristã, fato significado com o fenômeno de Pentecostes:

“E todos ficaram repletos do Espírito Santo e começaram a falar em outras línguas, conforme o Espírito lhes concedia se exprimissem. Achavam-se então em Jerusalém ju-deus piedosos, vindos de todas as nações que há debaixo do céu. ...cada qual os ouvia falar em seu próprio idioma” (At 2,4-6).

Noé teve três filhos: Sem, Cam e Jafet (Gn 9,18-19 / 10,1-32 / 11,10-32), com os quais foi estruturada a História da Salvação. De acordo com as genealogias bem delineadas estão as duas posições que aparecem desde Caim: a separação entre a geração dos “bons”, aqui em Sem, e a dos “maus”, em Cam, de cuja descendência Deus tirará a Terra Prometida para entregar aos descendentes de Sem (Gn 10,15-17 / 15,18-20 / Dt 7,1). Da mesma forma manifestar-se-á na descendência de Cam as cidades pecadoras “Nínive, Sodoma e Gomorra” (Gn 10,11.19). 

Até aqui o narrador quer mostrar o estado do mundo ou, melhor, a situação ou condições a que ficou reduzida a Criação após a separação havida entre o Homem e Deus. Por sua vez, com a Queda perdido sentiu-se o Homem, desprovido do verdadeiro e único sentido da vida, ofuscado pela desordem conseqüente, difuso em sua estrutura e sem critérios básicos normais de conduta e compor-tamento, guiando-se apenas e tão somente pelo próprio instinto de sobrevivência e de conservação da espécie.


Baixe aqui a revisão atualizada (21/08/2012) deste capitulo, no formado PDF.

 
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