Curso de Bíblia
Por José Haical Haddad
Capítulo2
GÊNESIS
A Aliança
"O Senhor dissea Abrão, depois que Ló se separou dele: “Levanta os olhose, do lugar onde estás, contempla o norte e o sul, o oriente e oocidente. Toda essa terra que vês, darei a ti e à tua descendênciapara sempre. Tornarei tua descendência como o pó da terra.Se alguém pudesse contar o pó da terra, contaria tambémtua descendência. Levanta-te e percorre este país de pontaa ponta porque será a ti que o darei”. Abrão levantou astendas e foi morar junto ao carvalho de Mambré, perto de Hebron,onde construiu um altar para o Senhor" (Gn13,14-18).

"...e à "tua descendência"para sempre" - São Paulo revela a existência neste trechode um anúncio de Cristo:

"Ora, as promessasforam feitas a Abraão e à descendência dele. Nãodiz: “e a teus descendentes”, como se fossem muitos, mas fala de um só:e a tua descendência que é Cristo" (Gl3,16).

Já se percebe que na realidade Cristoé a razão primeira e única das Escrituras Sagradas,e que o Antigo e o Novo Testamentos na verdade não passam de umsó, o anunciado naquele é cumprido neste, além daclara presença de dificuldades inúmeras advindas dos desencontroscausados pelas con-seqüências do pecado em toda a criaçãoque irá sanar:

"Porque a criaçãoaguarda com ardente expectativa a revelação dos filhos deDeus. Porquanto a criação ficou sujeita à vaidade,não por sua vontade, mas por causa da-quele que a sujeitou, na esperançade que também a própria criação há deser liberta do cativeiro da corrupção, para a liberdade daglória dos filhos de Deus. Porque sabemos que toda a criação,conjuntamente, geme e está com dores de parto até agora"(Rm8,19-22).

Abrão se depara com outra situaçãode fato, uma guerra entre cinco cidades em virtude do que Ló comas suas posses é levado como parte do saqueado de Sodoma e Gomorrapelos vencedores (Gn 14,1-12). Avisado, Abrãovai em socorro do sobrinho, com um grupo de apenas trezentos e dezoitohomens, liberta-o e a todos os prisioneiros bem como recupera todos osbens saqueados. Aparece aqui o justo em luta com o mundo que lhe étotalmente avesso, onde não se porta como um covarde nem foge àluta. Numa espécie de guerrilha ("à noite") vence e libertatudo e todos, além do seu sobrinho com seus pertences (Gn14,15-16). O rei de Sodoma lhe dá todos os bens e reclamaas pessoas liber-tadas. Aparece então uma figura misteriosa pordemais:

"Ora, Melquisedeque,rei de Salém, trouxe pão e vinho; pois era sacerdote do DeusAl-tíssimo; e abençoou a Abrão, dizendo: bendito sejaAbrão pelo Deus Altíssimo, o Cria-dor dos céus e daterra! E bendito seja o Deus Altíssimo, que entregou os teus inimigosnas tuas mãos! E Abrão deu-lhe o dízimo de tudo" (Gn14,18-20).

 Porém, o fato de Abrãoreceber dele uma bênção e pão e vinho, comooferendas de sacrifício, e entregue o dízimo dos despojosadvindos pela vitória, evidenciam a identidade de uma fécomum:

"Disse o Senhor aomeu Senhor: Assenta-te à minha direita, até que eu ponhaos teus inimigos por escabelo dos teus pés. (...) Jurou o Senhor,e não se arrependerá: Tu és sacerdote para sempre,segundo a ordem de Melquisedec.(Sl 110,1-4).

"Porque este Melquisedeque, rei de Salém,sacerdote do Deus Altíssimo, que saiu ao encontro de Abraãoquando este regressava da matança dos reis, e o abençoou,a quem também Abraão separou o dízimo de tudo sendoprimeiramente, por interpretação do seu nome, rei de justiça,depois também rei de Salém, que é rei de paz; sempai, sem mãe, sem genealogia, não tendo princípiode dias nem fim de vida, mas feito semelhan-te ao Filho de Deus, permanecesacerdote para sempre. Considerai, pois, quão grande era este, aquem até o patriarca Abraão deu o dízimo dentre osmelhores des-pojos (...) Ora, sem contradição alguma, o menoré abençoado pelo maior". (Hb 7,1-7).

Vê-se que o Antigo Testamento transbordaCristo desde as primeiras narrativas, prefigurando-O em quase todos ospersonagens que aparecem. Assim Melquisedec "é feito semelhanteao Filho de Deus", e tal como Ele "permanece sacerdote para sempre". Éque a família ou tribo a que Jesus per-tencia, Judá, segundoa sua genealogia, não fora destinada ao exercício do sacerdócio,mas a tribo de Levi (Ex 29 / Nm 3,5+ e 8,14+).Isso é o que diz a Epístola aos Hebreus:

"E os que dentre osfilhos de Levi recebem o sacerdócio têm ordem, segundo a lei,de tomar os dízimos do povo, isto é, de seus irmãos,ainda que estes também tenham saído dos lombos de Abraão;mas aquele cuja genealogia não é contada entre eles, tomoudízimos de Abraão, e abençoou ao que tinha as promessas"(Hb 7,5-6).

"e abençooua Abrão, dizendo: bendito seja Abrão pelo Deus Altíssimo,o Criador dos céus e da terra! E bendito seja o Deus Altíssimo,que entregou os teus inimigos nas tuas mãos! E Abrão deu-lheo dízimo de tudo" (Gn14,19-20).

 Prosseguindo a narrativa vê-seAbrão novamente se colocando em contradição com omundo, rejeitando os despojos a que tinha direito e de boa vontade oferecidos,num claro reconhecimento de que os merecera.

"Então o reide Sodoma disse a Abrão: Dá-me a mim as pessoas; e os benstoma-os para ti. Abrão, porém, respondeu ao rei de Sodoma:Levanto minha mão ao Senhor, o Deus Altíssimo, o Criadordos céus e da terra, jurando que não tomarei coisa algumade tudo o que é teu, nem um fio, nem uma correia de sapato, paraque não digas: Eu enriqueci a Abrão; salvo tão somenteo que os mancebos comeram, e a parte que toca aos homens Aner, Escol eManre, que foram comigo; que estes tomem a sua parte" (Gn14,21-24).

Não há dúvida algumade que os fatos acontecidos geraram séria dificuldade em Abrão,que acontecem sempre com aqueles eleitos de Deus, colocados que sãoem posição não muito sintonizada com o mundo que oscerca, pelo que o próprio Deus o busca fortalecer:

"Depois destes acontecimentosveio a palavra do Senhor a Abrão numa visão, dizendo: Nãotemas, Abrão; eu sou o teu escudo, o teu galardão serágrandíssimo. Então disse Abrão: Ó Senhor Deus,que me darás, visto que morro sem filhos, e o herdeiro de mi-nhacasa é o damasceno Eliezer? Disse mais Abrão: A mim nãome tens dado filhos; eis que um nascido na minha casa será o meuherdeiro" (Gn15,1-3).

Abrão está livre e desapegadodos bens materiais, é o que demonstram a sua atitude com refe-rênciaàs pastagens reclamadas por Ló e aqui aos despojos a quetinha direito, mas está consciente de sua eleiçãoe a quer ver realizada. Mescla ainda à Obra de Deus suas providênciashumanas e não se curva a nada, buscando apenas a vontade de Deus.Nem mesmo se deixa dominar pela cobiça e ambi-ção,já se manifestando livre de uma das primeiras conseqüênciasdo rompimento do Homem com Deus, fruto do primeiro lance do orgulho humano.Já se libertara por primeiro do apego aos bens como um sentimentode segurança, deixando-o repousar apenas em Deus. Demonstra a suacondição de livre, libertando os seus semelhantes e nãose apegando aos despojos, nem humanos nem materiais. Só quem élivre liberta. Só liberta da cobiça e ambiçãoquem é livre da cobiça e ambição. Sóliberta do pecado quem é livre do pecado. Ai Abrão é"pré figura" de Cristo, eis que Cristo liberta do pecado por serlivre do pecado.

A própria Bíblia quase semprefornece os subsídios para se compreender alguma obscuridade queapareça, tal como aqui a causa da reclamação de Abrão.Num mundo que lhe era terrivelmente hostil, lutando com todas as suas energiase usando de toda a paciência e controle possíveis, ainda nãovira se concretizar a Promessa que Deus lhe havia feito de que "toda essaterra que vês, darei a ti e à tua descendência parasempre" (Gn 13,14-18). Abrão nãofora assaltado por aquela dúvida que contradiz a fé. Nunca!Foi uma espécie de indecisão que lhe imprimiu a natureza,confusa ao avaliar apenas as condições humanas, enfraquecidaspelas conseqüências do pecado original, em confronto e em avaliaçãoreal em face da entrega incondicional nas mãos de Deus que operava.

Tendo Deus lhe prometido dar e àdescendência dele a terra em que peregrinava, viu que nessa promessaestava embutida a geração de filhos dele com sua mulher Sarai,e até aquele momento não vieram. É claro que sentiudificuldades em compreender a situação e assim "temeu", vindoDeus em seu socorro, após ouvir que "morro sem filhos", e a quemdeixar a herança de Deus:

"Ao que lhe veio apalavra do Senhor, dizendo: Este não será o teu herdeiro;mas aquele que sair das tuas entranhas, esse será o teu herdeiro.Então o levou para fora, e disse: Olha agora para o e conta as estrelas,se as podes contar; e acrescentou-lhe: Assim será a tua descendência"(Gn15,4-5).

Era a recompensa da renúncia, daquelarenúncia de si mesmo que convulsionou e impulsionou a Históriada Salvação, dessa História que foi e estásendo escrita exclusivamente por Deus, que pela Aliança refaz omesmo apelo do Éden ao coração do Homem. Ao chamadode Deus, Abrão responde, após tão convulsionada esperança,mostrando o sinal indelével que marcará a Obra da Redenção,a FÉ:

"Abrão creuem Deus, e isto foi-lhe creditado como justiça" (Gn15,6).

O sentido aqui é o que se lê:pela fé que teve a sua conta com Deus foi quitada. Assim, a Féde Abrão que lhe valeu a "justificação" e o tornar-se"o Pai de todos os crentes" (Rm 4,11), servede mo-delo perene para todos os fiéis de todos os tempos

"Pela fé Abraão,sendo chamado, obedeceu, saindo para um lugar que havia de receber porherança; e saiu, sem saber para onde ia. Pela fé peregrinouna terra da promessa, como em terra alheia, habitando em tendas com Isaace Jacó, herdeiros com ele da mesma promessa; porque esperava a cidadeque tem os fundamentos, da qual o arqui-teto e edificador é Deus"(Hb11,8-10).

Também São Tiago na sua Epístolavai a ela se referir, para vinculá-la à necessidade de expres-sãoem obras para não ser uma "fé morta":

"Vês que a fécooperou com as suas obras, e que pelas obras a fé foi aperfeiçoada;e se cumpriu a escritura que diz: E creu Abraão em Deus, e issolhe foi imputado como justiça, e foi chamado amigo de Deus" (Tg2,22-23).

3. A ALIANÇA ESBOÇADA

Abrão prossegue apresentando assuas dificuldades a Deus com toda a franqueza e liberdade que caracterizamuma amizade profunda e Deus por sua vez o vai robustecendo e amadurecendona fé:

"Disse-lhe mais: Eusou o Senhor, que te tirei de Ur dos caldeus, para te dar esta terra emherança. Ao que lhe perguntou Abrão: Ó Senhor Deus,como saberei que hei de herdá-la? Respondeu-lhe: Toma-me uma novilhade três anos, uma cabra de três anos, um carneiro de trêsanos, uma rola e um pombinho. Ele, pois, lhe trouxe todos estes animais,partiu-os pelo meio, e pôs cada parte deles em frente da outra; masas aves não partiu. E as aves de rapina desciam sobre os cadáveres;Abrão, porém, as enxotava. Ora, ao pôr do sol, caiuum profundo sono sobre Abrão; e eis que lhe sobrevieram grande pavore densas trevas. (...) Quando o sol já estava posto, e era escuro,eis um fogo fumegante e uma tocha de fogo, que passaram por entre aquelasmetades. Naquele mesmo dia fez o Senhor uma Aliança com Abrão,dizendo: Á tua descendência tenho dado esta terra, desde orio do Egito até o grande rio Eufrates; e o queneu, o quenizeu,o cadmoneu, o heteu, o perizeu, os refains, o amorreu, o cananeu, o girgaseue o jebu-seu" (Gn15,7-12.17-21).

 Para melhor compreensão separamosos versículos 13-16 que anuncia um fato a que já nos re-ferimosno comentário anterior: a identidade de acontecimentos com o povoadvindo de Abrão no Egito:

"Então disseo Senhor a Abrão: Sabe com certeza que a tua descendênciaserá peregri-na em terra alheia, e será reduzida àescravidão, e será afligida por quatrocentos anos; sabe tambémque eu julgarei a nação a qual ela tem de servir; e depoissairá com muitos bens. Tu, porém, irás em paz parateus pais; em boa velhice serás sepultado. Na quarta geração,porém, voltarão para cá; porque a medida da iniqüidadedos amorreus não está ainda cheia"(Gn 15, 13-16).

 Esse episódio de repartiranimais em duas partes, nos é por demais estranho e incompreensível.Por isso dissemos acima e na Introdução que a Bíblianão foi escrita especificamente para nós, mas para pessoasque tinham familiaridade cultural com o acontecimento e conheciam detalhadamenteto-dos os fatos. Vamos procurar esclarecer a situação partindoda própria Bíblia, segundo a qual, referin-do-se ao mesmoritual:

"Entregarei os homensque transgrediram a minha Aliança, e não cumpriram as palavrasda Aliança que fizeram diante de mim com o bezerro que dividiramem duas partes, passando pelo meio das duas porções - ospríncipes de Judá, os príncipes de Jerusa-lém,os eunucos, os sacerdotes, e todo o povo da terra, os mesmos que passarampelo meio das porções do bezerro, entregá-los-ei,digo, na mão de seus inimigos, e na mão dos que procurama sua morte. Os cadáveres deles servirão de pasto para asaves do céu e para os animais da terra"(Jr 34,18-20).

 Verifica-se pelas palavras acimado Profeta Jeremias que se trata de um juramento a cujo sacri-fícioeram entregues os que não o cumprissem, donde o pavor de Abrão,ouvindo uma referência futu-ra de Deus ao povo a que daráorigem, pelo que teme supondo referir-se a ele, apesar de somente se evidenciara presença de Deus significado no fogo a cruzar os animais oferecidos.É que naquele ceri-monial Deus realmente incluía "a sua descendência"(Gl 3,8), Jesus Cristo, que iria sofrer apunição pela original violação humana. Mesmoassim Abrão é partícipe da Aliança de Deuscujo início já se concretiza, com uso do fogo já representandoa presença de Deus em várias etapas da História daSal-vação (Ex 3,2; 13,21; 19,18).Fica-lhe claro pelo juramento a vontade de Deus em dar-lhe uma des-cendêncianumerosa como as estrelas do céu, e a quem daria aquela terra emque peregrinava.
Passam-se dez anos e fica positivado queSarai era estéril, a quem naturalmente teria sido nar-rada esperançosamentea promessa, e ambos encontram então uma maneira de resolvê-locom um arti-fício, como sói acontecer quando se pretendeatender aos desígnios de Deus com uma solução huma-na:

"Ora, Sarai, mulherde Abrão, não lhe dava filhos. Tinha  ela uma servaegípcia, que se chamava Agar. Disse Sarai a Abrão: Eis queo Senhor me tem impedido de ter filhos; toma, pois, a minha serva; talvezeu possa ter filhos por meio dela. E ouviu Abrão a voz de Sarai.Assim Sarai, mulher de Abrão, tomou a Agar a egípcia, suaserva, e a deu por mulher a Abrão seu marido, depois de Abrãoter habitado dez anos na terra de Canaã. E ele conheceu a Agar,e ela concebeu..."(Gn 16,1-4a).

 Pelos costumes de então osfilhos assim gerados eram considerados filhos de Sarai, com o que satisfar-se-iaa promessa de Deus, há dez anos passados. Após o engravidamentode Agar, vários fatos ocorrem, característicos da culturada época, mostrando que apesar do "concubinato" de Abrãocom ela, Sarai não perdera sua condição de legítima,chegando, conforme exigira de Abrão, a oprimir de tal forma suaescrava que ela fugiu. No deserto em desespero tem a visão do anjoque determina o seu retorno e submissão à Sarai, com a promessade fazer de seu filho Ismael, como será chamado, um grande povo(Gn 16,4b-16).

4. A ALIANÇA ESTABELECIDA

Para Abrão e Sarai a condiçãobásica para a grande posteridade dele ficara então satisfeitacom o nascimento de Ismael (Gn 16,15-16).Deus então se manifesta e dá à Aliança umanova dinâmica, até agora não vista:

"Quando Abrãotinha noventa e nove anos, apareceu-lhe o Senhor e lhe disse: Eu sou El-Shaddai(=o Deus Todo-Poderoso); anda em minha presença, e sê perfeito;e fir-marei a minha Aliança contigo, e sobremaneira te multiplicarei"(Gn 17,1).

 Até então a Aliançaera unilateral, sem nada exigir da conduta e comportamento do Homem a nãoser alguma forma de expressão ritual qual aquela de "nãocomer o sangue dos animais" da Aliança do Dilúvio (Gn9,4). Desta vez exige e promete: "anda em minha presença,e sê perfeito; e firmarei a minha Aliança contigo, e sobremaneirate multiplicarei", e passa a ser um acordo entre duas vontades conscientes.Busca-se assim recuperar para o Homem a "imagem e semelhança deDeus" (Gn 1,26), que "deverá refletircomo num espelho" (2Cor 3,18), a "perfeição"divina, que não se confunde com a "corrupção" advindado mundo profano. "Andar na 'presença' de Deus", diferentementede Adão e Eva que tiveram de se 'esconder' por causa da desordemque cometeram, é cumprir consciente e fielmente a Sua Santa Vontade,não causando motivo, por sua conduta, para dele se afastar. Ora,isso exige fé e tomada de consciência maiores que o instintode sobrevivência num mundo hostil e des-viado do seu Criador. Estamosdiante de uma das manifestações majestosas e solenes de Iahweh(="teofania") que aqui recebe o nome de El-Shaddai (Ex6,3 = "O Todo Poderoso"), tanto que: "...Abrão se prostroucom o rosto em terra..." (Gn 17,3a). O tempode treze anos decorrido desde o nascimento de Ismael faz admitir e suporalgum motivo sério necessário à Aliança, apenasesboçada e no seu nascedouro. Tudo indica que a soluçãohumana de Abrão e Sarai com a geração de Ismael exi-geum amadurecimento de ambos no conhecimento de Deus, eis que demonstraramcom seu gesto não compreender-LHE o desígnio, quanto àscaracterísticas e dimensões dela:
 
"...e Deus falou-lhe,dizendo: Quanto a mim, eis que a minha aliança é contigo,e serás pai de muitas nações; não mais seráschamado Abrão, mas Abraão será o teu nome; pois porpai de muitas nações te hei posto; far-te-ei frutificar sobremaneira,e de ti farei nações, e reis sairão de ti; estabelecereia minha aliança contigo e com a tua descendên-cia depois deti em suas gerações, como aliança perpétua,para te ser por Deus a ti e à tua descendência depois de ti.Dar-te-ei a ti e à tua descendência depois de ti a ter-rade tuas peregrinações, toda a terra de Canaã, em perpétuapossessão; e serei o seu Deus"(Gn 17,3b-8).

 Quando Abrão "prostra como rosto em terra" (Gn 17,3) demonstra eficazmentea sua adesão e fé incondicional em Deus, bem como a aceitaçãodos termos da Aliança, agora com a firme e incondi-cional exigênciade obediência, culto e adoração exclusivos, e pelopróprio Deus traduzido num sinal, o da circuncisão:

"Disse mais Deus aAbraão: Ora, quanto a ti, guardarás a minha aliança,tu e a tua des-cendência depois de ti, nas suas gerações.Esta é a minha aliança, que guardareis entre mim e vós,e a tua descendência depois de ti: todo varão dentre vósserá circuncidado. Circuncidar-vos-eis na carne do prepúcio;e isto será por sinal de aliança entre mim e vós"(Gn 17,9-11).

Tão fundamental é essa instituiçãoque o não cumprimento dela determina que "...o que não secircuncidar na carne do prepúcio, será extirpado do seu povo;violou a minha aliança" (Gn 17,13b-14).Todos os homens estavam subordinados à exigência, atémesmo escravos e estrangeiros (Gn 17,12-14). Deus que lhe muda o nome deAbrão para Abraão (= "pai de uma multidão"), tambémmuda nome de Sarai (= "minha princesa") para Sara (= "princesa"). QuandoDeus dá o nome a alguém, elegendo-o para uma missão,assume-lhe o domínio, "...chamei-te pelo nome, meu tu és"(Is 43,1c):

"Disse Deus a Abraão:Quanto a Sarai, tua, mulher, não lhe chamarás mais Sarai,po-rém Sara será o seu nome. Abençoá-la-ei,e também dela te darei um filho; sim, abençoá-la-ei,e ela será mãe de nações; reis de povos sairãodela". "Ao que se prostrou Abraão com o rosto em terra, e riu-se,e disse no seu coração: A um homem de cem anos háde nascer um filho? Dará à luz Sara, que tem noventa anos?"(Gn 17,15-17).

A grande dificuldade de Abraão agorase concretizava, eis que o tempo passava, urgia e não acontecia,e agora, numa idade avançada por demais, quando não maisse podia esperar uma gravidez normal de Sara, Deus vem anunciá-la.Por isso Abraão ri! Não um riso de dúvida, riu crendo,possuí-do por grande alegria e achando graça pelo contrastecom que os fatos se manifestavam. No máximo só poderia ocorreraquela indecisão que lhe teria impresso a natureza confusa ao avaliarapenas ambas as condições humanas, enfraquecidas pelas conseqüênciasdo pecado original em confronto com a rea-lidade. Renúncia de sique se acentua, indício de maturidade religiosa, no marco inicialda História da Salvação, história que foi eestá sendo escrita exclusivamente por Deus, seu único Autor.São desses momentos em que Deus coloca os seus eleitos face a facecom a realidade de Seus Planos e da Missão a que foram eleitos,provando-os e amadurecendo-os para tal. Pelos costumes de entãoIsmael era fi-lho de Sara, e sentindo-o como que rejeitado Abraãose preocupa, quer se esclarecer e pede por ele: "depois disse Abraãoa Deus: Oxalá que viva Ismael diante de ti!" (Gn17,18), como se pedisse que se lembrasse dele também, queera outro filho seu:

" E Deus lhe respondeu:Na verdade, Sara, tua mulher, te dará à luz um filho, e lhechamarás Isaque; com ele estabelecerei a minha aliança comoaliança perpétua para a sua descendência depois dele.E quanto a Ismael, também te tenho ouvido; eis que o tenho abençoado,e fá-lo-ei frutificar, e multiplicá-lo-ei grandemente; dozepríncipes gerará, e dele farei uma grande nação.A minha aliança, porém, estabelece-rei com Isaque, que Sarate dará à luz neste tempo determinado, no ano vindouro. Aoacabar de falar com Abraão, subiu Deus diante dele"(Gn 17,19-22).

Deus insiste em seu desígnio ouvindoo pedido dele pelo filho e reafirmando a continuidade da Aliançacom um filho de Sara, não com o da escrava. Pelo que Sara tambémrirá quando ouvir o mesmo anuncio de sua gravidez (Gn18,9-15) e quando der à luz e o nome ao filho, significadono nome Isaac (Gn 21,6), que é derivadoda raiz hebraica para a palavra riso. Assim explicado o riso ai mencionado,verifica-se que não se duvidou de Deus um instante sequer, tal comoSão Paulo esclare-ce, evidentemente da concepção tradicionalisraelita:

"...a fim de que apromessa seja firme a toda a descendência, não somente àque é da lei, mas também à que é da féque teve Abraão, o qual é pai de todos nós. Como estáescrito: Por pai de muitas nações te constituí peranteaquele no qual creu, a saber, Deus, que vivifica os mortos, e chama ascoisas que não são, como se já fossem. O qual, emesperança, creu contra a esperança, para que se tornassepai de muitas na-ções, conforme o que lhe fora dito: Assimserá a tua descendência; e sem se enfraque-cer na fé,considerou o seu próprio corpo já amortecido, pois tinhaquase cem anos, e o amortecimento do ventre de Sara; contudo, àvista da promessa de Deus, não vacilou por incredulidade, antesfoi fortalecido na fé, dando glória a Deus, e estan-do certíssimode que o que Deus tinha prometido, também era poderoso para o fa-zer"(Rm 4,17-21).

Houvesse alguma dúvida, Abraãoe Sara teriam recebido de Deus o mesmo tratamento dado a Zacarias, o Paide João Batista, que ficou mudo como castigo de sua descrença(Lc 1,19-20). Por fim, Abraão imediatamenteparte para o cumprimento da Aliança e circuncida a todos os homens,a partir de si mesmo e de seu filho Ismael (Gn 17,23-27).Essa instituição será observada pelos seus descen-dentesde maneira tão severa e séria que separar-se-á o mundopara eles em "circuncisos" e "incircun-cisos", e quando do advento do cristianismoserá a causa das crises iniciais de conflito do judaísmocom a nova doutrina de Cristo.

A Aliança com o Homem é sempreum apelo de amor e comunhão de vidas que parte de Deus, pois quepor si só o Homem se tornou totalmente impotente para fazê-lo,nada podendo conseguir por causa do abismo erguido entre ambos pelas conseqüênciasdramáticas ocasionadas pelo pecado origi-nal. Daí porquesomente por ato livre de Deus é que se pode conseguir seu cumprimentoe eficácia, donde ser obra exclusiva dEle. Amadurecido na fée por ela justificado Abraão torna-se "Amigo de Deus" (2Cro20,7; Jdt 8,22; Is 41,8; Dn 3,35; Tg 2,23), vivendo entãoem Sua intimidade e comunhão. Por isso, recebe a visita de trêsanjos e os reconhece (Gn 18,1-33), consideradospelos Santos Padres dos primórdios do cristianismo como "figuras"ou "anúncios" da Santíssima Trindade. É que, quandoa tradução não é "melhorada" pelo tradutor(que infelizmente imprime à tradução sua opinião),os três são denominados ora em conjunto (Gn18,1), ora dois (Gn 18,20-22), oraum deles (Gn 18,23-33) pelo singular "MeuSenhor", "tratando-os, de qualquer dos modos em que se apresentem, comoa uma só pessoa". São dois os motivos para a visita: primeiro,ratificando os termos da Aliança contraída, o anúncioda gravidez de Sara para o ano próximo. É quando chega avez de Sara rir, tal como já nos referimos acima, mais de surpresae contentamento, nunca de dúvida de fé, apesar do anjo insistirque "não há nada difícil para Deus" (Gn18,14). O segundo motivo foi comunicar a destruiçãode Sodoma e Gomorra, pois considera-o tão "amigo" que dele nãopode esconder "o que estou para fazer" (Gn 18,17).Mas, tal comunicação tem outra finalidade, mais ligada àAliança:

"E disse o Senhor:Ocultarei eu a Abraão o que faço, visto que Abraãocertamente virá a ser uma grande e poderosa nação,e por meio dele serão benditas todas as nações daterra? Porque eu o tenho escolhido, a fim de que ele ordene a seus filhose a sua casa depois dele, para que guardem o caminho do Senhor, para praticaremretidão e justiça; a fim de que o Senhor faça virsobre Abraão o que a respeito dele tem fa-lado"(Gn 18,17-19).

É que a Aliança nãose confinava a Abraão apenas, mas teria prosseguimento em todosos seus termos com os seus descendentes por meio dos quais "viráa ser uma grande e poderosa nação, e serão benditastodas as nações da terra", desde que "seus filhos e a suacasa depois dele guardem o cami-nho do Senhor, para praticarem retidãoe justiça; a fim de que o Senhor faça vir sobre Abraãoo que a respeito dele tem falado". Por isso a Aliança é conhecidatambém por Testamento, por causa da continuidade do "legado" nasgerações subsequentes. Já se anuncia o prosseguimentoe a consecu-ção da Obra da Redenção do Homemna descendência de Abraão - Jesus Cristo (Gl3,16 / Mt 1,1):

"Ora, a Escritura,prevendo que Deus havia de justificar pela fé os gentios, previamenteanunciou a boa nova (= o "Evangelho") a Abraão, dizendo: Em ti serãoabençoadas todas as nações. De modo que os que sãoda fé são abençoados com o crente Abraão"(Gl 3,8-9).

 Dada a notícia, afirma Deusque "descerei para ver se as suas obras chegaram a ser como o clamor quechegou até mim, e, se não, o saberei", evidenciando pelo"descerei" o sobrenatural do quadro apresentado, tendo Abraão sidoelevado até Ele. E é nesse estado sobrenatural que Abraãovai demonstrar a sua "elevação" espiritual (Gn18,22-33), quando aparece que "quanto mais Amigo de Deus, mais amigodos homens". É o efeito natural da caridade, "o Amor de Deus quese "derrama no coração do Homem pela Graça" (Rm5,5), o estado da "elevação" de Abraão, "justificadopela sua fé". Vai regateando com Deus, paulatinamente se esforçandopara salvar a tudo e a todos da punição iminente e justa.Intercede habilidosamente e com toda a humildade possível representadapelo modo de se expressar próprio do tempo, cuidadosa e lentamentevai decrescendo o número de pessoas boas que possivelmente possamexistir nas duas cidades até um mínimo de dez, bem razoável,ficando claro que existisse uma pequena quantidade de justos nas localidades,Deus as pouparia por causa deles.
 Prefigura esse quadro a Redençãoque será operada por Jesus Cristo com a Nova Aliança (Lc22,20), unindo definitivamente o Homem a Deus na Sua Igreja, a comunidadede seus discípulos refle-tindo a Graça e a Misericórdiade Deus no mundo, que "perdoa a todo o lugar em atenção aeles" (Gn 18,26.28.30.31.32), "justificados"pelo Sangue do Cordeiro de Deus. Essa comunhão de afetos entre Deuse Abraão, entre Deus e um Homem, é o arquétipo daCaridade Cristã, tornada virtude humana na ação, masde fonte impulsionadora divina. Tal com lá, a caridade éa presença de Deus entre os homens, em amizade e íntima comunhãode vidas, não mais entre Criador e Criatura, mas entre Pai e Filho,que se difunde por mediação e eleição dos "justos"a todos os outros, bons e maus. Repete-se sempre a presença do "justo",do que faz a vontade de Deus, vivendo nos "caminhos do Senhor, prati-candoa justiça e o direito" (Gn 18,19).Caridade é isso, é viver a vontade de Deus para o Homem;começa em Deus e explode radiante de beleza nos homens. O Homemnão a cria, é fruto do amor e misericórdia de Deus,propagando-se entre os homens assim como a fé e a esperança.A caridade parte de Deus e não se confunde com nenhuma açãohumana, não se exaure na esmola nem em nenhuma assistênciasocial e supera qualquer atividade por mais humanitária que seja.A caridade é a expressão da Aliança de Deus com oHomem:

"Longe de ti que façastal coisa, que mates o justo com o ímpio, de modo que o justo sejacomo o ímpio; esteja isto longe de ti. Não fará justiçao juiz de toda a terra?"(Gn 18,25)

 A confiante e diplomáticaintervenção de Abraão dá ao contexto a vivae colorida visão da in-timidade vivencial de ambos. Deus éo único autor do amor entre os homens, "justos e injustos, bonse maus" (Mt 5,45). Na prática quandoAbraão se referia aos justos, conseguia a salvação"do justo e do ímpio". Não pediu que afastasse da cidadeos justos nem pediu ao menos por seu sobrinho Ló. Pedin-do que nadadestruísse por causa dos justos intercedeu pelos bons e maus, numatentativa de salvá-los da destruição iminente. SemDeus não há amor fraterno, não há fraternidade,falta um ponto comum de referência, eis que não háfraternidade sem um Pai comum.

5. A ALIANÇA E SODOMA E GOMORRA

Jesus nos revela que Sodoma e Gomorra,tal como o Dilúvio, é outra expressão das conse-qüênciasdo pecado na Criação, e é um anúncio do quadrorevolucionário a ser causado no mundo criado quando da revelaçãodo Filho do Homem, ao erradicar definitivamente o pecado:

"Como aconteceu nosdias de Noé, assim também será nos dias do Filho dohomem. Comiam, bebiam, casavam e davam-se em casamento, até o diaem que Noé entrou na arca, e veio o dilúvio e os destruiua todos. Como também da mesma forma aconteceu nos dias de Ló:comiam, bebiam, compravam, vendiam, plantavam e edificavam; mas no diaem que Ló saiu de Sodoma choveu do céu fogo e enxofre, eos destruiu a todos; assim será no dia em que o Filho do homem sehá de manifestar"(Lc 17,26-30).

O Evangelista coloca num mesmo plano oDilúvio e Sodoma e Gomorra, e os evidencia como transformaçõesimprevisíveis, tal como acontecerá nos dias da manifestaçãogloriosa do Filho do Ho-mem. É o que Jesus quis alertar. Cabe-nosuma explicação para essa narrativa, tão idênticaàs do Dilú-vio e também da Torre de Babel, principalmenteno colóquio franco e aberto de Deus. Temos de apli-car novamentea mesma regra de nos locomover abstratamente no tempo para a cultura donarrador. Que houve a destruição das cidades houve, nãohá o que discutir. Porém, o importante é o que signifi-coupara o narrador bíblico e o que corresponde ao evidenciado pelosfatos. Estamos nos referindo ao "pecado" praticado nas cidades e que recebeua alcunha de "sodomia", formada a partir do nome de Sodoma, para significaro homossexualismo então reinante (Gn 19,5)a ponto de Ló reclamar a virgin-dade das filhas e ter coragem deoferecê-las (Gn 19,8), pelo que foirechaçado e atacado violentamen-te, sentindo-se ofendidos pela intervençãoe conduta moral dele, um "justo", que não se contaminara com o mesmopecado (Gn 19,9). Aparece aqui outra das conseqüênciasdo pecado original, agora numa manifestação da desordem carnale a da imoralidade generalizada na concupiscência advinda pela inversãosurgida do natural e normal.

Por primeiro, chama a atençãoo "descerei" (Gn 18,21) tal como no relatoda Torre de Babel (Gn 11,6.7), mostrando amesma concepção cultural de um deus em figura de homem (visão"antro-pomórfica" de Deus), habitando no "alto". Não podeser diferente aqui a intenção do narrador, que-rendo tambémevidenciar a continuidade e a coexistência das conseqüênciasdo pecado apesar da Ali-ança recém - contraída, vinculandoambos à lembrança dos descendentes de Abraão paranão perturba-rem mais ainda pela sua conduta o cumprimento dos desígniosde Deus com a Aliança, que vai recon-duzir o Homem à comunhão,intimidade e familiaridade perdidas:

"E disse o Senhor:Ocultarei eu a Abraão o que vou fazer, visto que Abraão certamentevirá a ser um grande e poderoso povo, e por meio dele serãoabençoadas todas as na-ções da terra? Porque eu oescolhi, para que ele ordene a seus filhos e a sua casa depois dele queguardem o caminho do Senhor praticando a retidão e a justiça;para que o Se-nhor cumpra em Abraão o que lhe foi predito"(Gn 18,17-19).

 Como Ló fora morar nas cidadespecadoras seria com elas vítima da catástrofe. Mas, era eletambém um "justo" e o narrador mostra como Deus vem em socorro deseus fiéis e os protege, res-pondendo à eficaz intervençãode Abraão em favor dos homens, e só as destrói apóslibertá-lo:

"Porque se Deus nãopoupou (...) reduzindo a cinza as cidades de Sodoma e Gomorra,
condenou-as àdestruição, havendo-as posto para exemplo aos que vivessemimpia-mente; e se livrou ao justo Ló, atribulado pela vida dissolutadaqueles perversos, por-que este justo, habitando entre eles, por ver eouvir, afligia todos os dias a sua alma justa com as injustas obras deles;também sabe o Senhor livrar da tentação os piedosos,e reservar para o dia do juízo os injustos, que já estãosendo castigados; especialmente aqueles que, seguindo a carne, andam emimundas concupiscências, e desprezam toda autoridade"(2Pe 2,4.6-10).

 Pedro retoma a afirmaçãodo narrador que já exprimia neste quadro também e a seu modoa Obra da Redenção, principalmente quando insiste com Lópara salvá-lo e a sua família (Gn 19,12-29),em atenção a Abraão:

"Ora, aconteceu que,destruindo Deus as cidades da planície, lembrou-se de Abraão,e tirou Ló do meio da destruição, enquanto aniquilavaas cidades em que Ló habitara" (Gn 19,29). / Apressa-te, escapa-tepara lá; porque nada poderei fazer enquanto não ti-veresali chegado..." (Gn19,22).

 Da destruição totalsomente restou Ló e duas filhas numa caverna, [morta a mulher quefoi pe-trificada em estátua de sal (Gn 19,16.26.30)],onde praticam um "incesto" (Gn 19,36-37),com a "em-briaguez" do pai, provocada por elas, supondo a inexistênciada outros homens. Não deixa de ser ou-tra cena isenta de críticasmesmo aos olhos daquela cultura, apesar de ter sido necessário embriagaro pai para a consumação do ato, tendo ocorrido uma forçaimpulsionadora atuante por demais naqueles tempos: a necessidade de descendênciapara o pai (Gn 19,32), num mundo onde inexistiaoutros ho-mens. Não se pode deixar de ver ai atuando com todas asforças o instinto de conservação da espéciea falar mais alto que tudo; nem se pode estabelecer um julgamento com oaculturamento atual, eis que tal necessidade de prole atualmente nãotem o mesmo vigor. Da mesma forma que após o Dilúvio aconteceucom Canaã (Gn 9,18-29), aparece aquioutra justificativa para a inimizade reinante entre os israelitas e doisoutros povos parentes e vizinhos, os moabitas e os amonitas (Nm22,1 / 26,3.63), tra-tados como "bastardos" (Dt23,4), por serem eles nascidos de um abominável "incesto"(Dt 27,20.23; Lv 18,6-18).

6. A ALIANÇA, ABRAÃOE ISAAC

Após essas situaçõesdramáticas nasce Isaac (Gn 21,1-5),o Filho da Promessa, causando gran-de alegria e regozijo. A esterilidadeera motivo de grande vergonha (Gn 30,23; 1Sm 1,5-8;2Sm 6,23; Os 9,11) e a fecundidade é sinal da presençade bênção de Deus. Por isso Sara se regozija e manifestatudo isso com o riso, como se nota das expressões "Deus me deu motivode riso e todo o que o ouvir rir-se-á comigo" e "lhe dei um filhona sua velhice", "vantagens" de que se pode vangloriar. Daí vemetimologicamente o nome de Isaac, que na sua raiz tem a conotaçãoindefinida "rir":

"Pelo que disse Sara:Deus me propiciou motivo de riso; todo aquele que o ouvir, rir-se-ácomigo. E acrescentou: Quem diria a Abraão que Sara havia de amamentarfi-lhos? no entanto lhe dei um filho na sua velhice"(Gn 21,6-7).

Mas, no dia em que se comemorava o seudesmame, Sara viu Ismael "gracejar" dele, Isaac (Gn21,9), naturalmente em torno de seu nome..., alguma piada de maugosto, por exemplo, dirigida por um já rapazola a um recémdesmamado, uma criança ainda. A antiga tensão familiar (Gn16,4d-6) não desanuviara e agora se manifestava tanto nogracejo de Ismael, conhecedor de tudo o que acontecera e as conseqüênciaspara ele sendo já pressentidas, como na reação deSara que, violentamente aproveita a oportunidade e exige uma atitude definitivade Abraão (Gn 21,10). Ele, em obediênciaa Deus, que já valorizava a esposa legítima, ao impulso deuma visão e promessa com referência ao futuro do filho setornando um grande povo, expulsa-o com Agar (Gn 21,11-14).Tais acontecimentos vão ser identifi-cados de várias maneirasaos cristãos vindos do paganismo, quando São Paulo os interpretaconforme a diferença entre Ismael o filho advindo da vontade e planodo homem e Isaac o Filho da Promessa, advindo da Vontade e do Plano deDeus:

"Porque está escrito que Abraãoteve dois filhos, um da escrava, e outro da livre. To-davia o que era daescrava nasceu segundo a carne, mas, o que era da livre, por pro-messa.O que se entende por alegoria: pois essas mulheres são duas alianças;uma do monte Sinai, que dá à luz filhos para a servidão,e que é Agar. Ora, esta Agar é o monte Sinai na Arábiae corresponde à Jerusalém atual, pois é escrava comseus filhos. Mas a Jerusalém que é de cima é livre;a qual é nossa mãe. Pois está escrito: Alegra-te,estéril, que não dás à luz; esforça-tee clama, tu que não estás de parto; porque mais sãoos fi-lhos da desolada do que os da que tem marido. Ora vós, irmãos,sois filhos da promes-sa, como Isaac. Mas, como naquele tempo o que nasceusegundo a carne perseguia ao que nasceu segundo o Espírito, assimé também agora. Que diz, porém, a Escritura? Lançafora a escrava e seu filho, porque de modo algum o filho da escrava herdará com o filho da livre. Pelo que, irmãos, não somos filhosda escrava, mas da livre" (Gl 4,22-31).

"Não que apalavra de Deus haja falhado. Porque nem todos os que são de Israelsão israelitas; nem por serem descendência de Abraãosão todos filhos; mas: Em Isaac será chamada a tua descendência.Isto é, não são os filhos da carne que sãofilhos de Deus; mas os filhos da promessa são contados como descendência.Porque a palavra da promessa é esta: Por este tempo virei, e Saraterá um filho" (Rm9,6-9).

 Esses acontecimentos redundam paraAbraão em atroz sofrimento, debatendo-se entre as de-sordens deum mundo corrompido, coexistindo com o mundo da Aliança no nascedouro.É de se ob-servar a existência de narrativas muito estranhaspara nós quanto aos costumes de então. Não faz malrepetir que quando se lê a Bíblia deve-se evitar a precipitaçãode um julgamento com base nos usos atuais, mas manter a naturalidade eprestar atenção nesses procedimentos antigos, por demaisencros-tados na vida social e aparentando muitas vezes a forma de leis,dada a obrigação que é imposta pelas própriascircunstâncias. No regime patriarcal, de acordo com o conceito quedele se faz, uma mulher não poderia exigir com a energia de Sara(Gn 21,10) que o marido expulsasse o própriofilho, com a mãe, uma escrava então libertada, deixando-ossem nada, deserdando-o, a não ser que o conceito seja precipitadoe ao contrário existissem naquele tempo normas sociais que assimautorizassem. Pode até mesmo parecer uma espécie de alforriapara a libertação da servidão de Agar, mas apesarde tudo, isso não deixa de perturbar até mesmo o próprioAbraão que só o fez após a intervençãode Deus com a promessa de protegê-los, já que "vai tornaro filho um grande povo por ser da posteridade dele" (Gn21,12-13). Outra dificuldade aparece quanto ao acontecimento comAbimeleque em Gerar, e já se analisou fato idêntico quandoda estadia do casal no Egito e a aliança com ele em Bersabéia,para a solução de pendência por causa de poçosde água (Gn 21,22-34), mostrando acontinuidade da luta pela sobrevivência a que se sujeitou atémesmo um "eleito". Cumpre ao leitor da Bíblia sempre separar oscostumes de então, não se deixando influenciar no julgamentopor questões assim acessórias, que não alteram emnada os desígnios de Deus no desenrolar da História da Salvação,onde o escolhido nelas vive e se debate. O essencial é que importa,qual seja, a fé vivida de Abraão e demonstrada efi-cazmentepor todos os seus atos:

"Abraão plantouuma tamargueira em Bersabéia, e invocou ali o nome do Senhor, oDeus eterno. E peregrinou Abraão na terra dos filisteus muito tempo"(Gn 21,33-34).

 Esta presença de hostilidadesdo mundo contra o que sempre lutou Abraão vai muito contribuir paraa sua maturação e crescimento na fé, solidificando-opara a missão que apenas se esboçava. Numa luta desigual,Abraão ainda se vê em sérias dificuldades quanto aoscostumes religiosos do tem-po. São os momentos em que Deus colocaos seus eleitos face à face com a realidade de Seus Planos e daMissão que lhe cabe, provando-os e maturando-os para ela, momentosestes que chegam a ser dra-máticos. Deus pede que lhe ofereçao próprio filho Isaac em sacrifício, o legítimo herdeiroda Aliança, em quem concretizar-se-ia toda a esperança esolidez da fé de Abraão:

"Sucedeu, depois destascoisas, que Deus provou a Abraão, dizendo-lhe: Abraão! Eeste respondeu: Eis-me aqui. Prosseguiu Deus: Toma agora teu filho, o teuúnico filho, Isaac, a quem amas; vai à terra de Moriá,e oferece-o ali em holocausto sobre um dos montes que te hei de mostrar"(Gn 22,1-2).

A contradição é maisque evidente, pois ainda soavam aos ouvidos de Abraão aquelas palavrasde Deus, quando Lhe apresentara Ismael:

"...e lhe chamarásIsaac; com ele estabelecerei a minha aliança como aliançaper-pétua para a sua descendência depois dele. (...) A minhaaliança, porém, estabele-cerei com Isaac, que Sara te daráà luz neste tempo determinado, no ano vindouro"(Gn17,18-21).

 Porém, apesar disso, Abraãonão vacila, crê! A prontidão da obediência deAbraão, levantan-do-se cedo para cumprir a ordem de Deus e a seqüênciasúbita da narrativa o demonstra. A fé o leva à obediência,servindo-lhe de alicerce. Conduz Isaac imediatamente ao monte determinadopara sacrifi-cá-lo, como uma oferenda a Deus. E, sacrificar Isaac,que já nascera por obra de Deus, em virtude da esterilidade naturalde Sara, que já nascera consagrado, deveria soar-lhe como um absurdo.E a situa-ção o coloca face a face com duas posições:de um lado Deus, do outro lado o filho. Abraão escolheu Deus:

"Levantou-se Abraãode manhã cedo, selou o seu jumento, e tomou consigo dois de seusservos e Isaque, seu filho; e, cortou lenha para o holocausto, e partiu para o lu-gar que Deus lhe dissera"(Gn 22,3).

Na opção por Deus éque se encontra a verdadeira libertação do Homem de tudoque pode es-cravizá-lo, a começar pelo medo de que deve tersido assaltado, dada a confusão de emoções que podeter sentido pela grande contradição que ocorria. Jáestava conformado com a esterilidade de Sara e com Ismael sendo o seu únicofilho, quando o próprio Deus lhe acenara com a felicidade de terIsaac de sua mulher "legítima" Sara. Não pedira mais um filhoapós aceitar o filho de Agar, escrava de Sara. E, agora, apósrecebê-lo já quando a natureza lhe negava, vem Deus e exigedele o seu holocausto, e o quer levar. Alguma coisa não estava noseixos. Era um ser humano, e sua reação seria humana, comtodo o colorido sobrenatural do acontecimento. E essa reaçãobem que poderia ser de medo, que é a emoção naturalque se tem quando se depara com situações contrárias,contraditórias ou conflitantes, e até mesmo incompreensíveis.Na mente do Patriarca ainda ressoava a voz de Deus dizendo-lhe ser "deIsaac que nascerá a posteridade que terá o seu nome" (Gn21,12); voz que lhe exige agora a vítima Isaac em oferendasacrificial. É uma grande dificuldade que somente uma robusta féconsegue suportar e vencer. Claro lhe fica que somente ele não entendiao acontecimento, Deus sabe o que faz e a fé de Abraão completatudo, apesar da enorme contradição. Para se cumprir o queDeus afirmara quanto à Aliança, no sacrifício de Isaaca morte seria vencida pela vida. Deus nele venceria a morte e a vida te-riaprosseguimento, completamente restaurada. Isaac renasceria ali mesmo, nãomorreria. Abraão teve assim em "figura" uma antevisão daRessurreição e nela creu, conforme o próprio Cristodirá:

"Abraão, vossopai, exultou por ver o meu dia; viu-o, e alegrou-se"(Jo 8,56).

 Abraão não vacila eprossegue morro acima, consagrando a cada passo o próprio filho.Perce-beu assim que já participava da Obra da Redençãodo Homem, e rejubilou-se com a sua proximidade:

"Pela fé Abraão,sendo provado, ofereceu Isaac; ofereceu o seu unigênito aquele querecebera as promessas, e a quem se havia dito: 'Em Isaac será asseguradaa tua descen-dência', julgando que Deus era poderoso para atédos mortos o ressuscitar; e daí tam-bém em figura o recobrou"(Hb 11,17-19).

Isaac carregava o lenho para a fogueira,Abraão o fogo sagrado. Morro acima, ambos cami-nhavam ensimesmando,Abraão mudo de dor, Isaac mudo de espanto:

"Meu pai!
...
Eis o fogo e a lenha,mas onde está o cordeiro para o holocausto?
...
Deus proveráo cordeiro para o holocausto, meu filho...."(Gn 22,7-8).

Falou a fé. Abraão aindaesperava em Deus e prossegue morro acima, consagrando a cada pas-so o própriofilho. Sentiu então participar da Obra da Redençãodo Homem, e rejubilou com a proxi-midade da concretizaçãoda promessa de que "por ti serão abençoadas todas as naçõesda terra" (Gn 12,3). Quando ultimava os preparativospara imolar o próprio filho Isaac, cuja submissão àvontade do próprio pai, que o oferece em sacrifício o identificaa Cristo com a Cruz (cfr. Santos Padres - Tertulia-no,Agostinho, Cipriano etc.), um anjo o impede:

"Mas o anjo do Senhorlhe bradou desde o céu, e disse: Abraão, Abraão! Elerespon-deu: Eis-me aqui. Então disse o anjo: Não estendasa mão sobre o menino, e não lhe fa-ças nenhum mal;porquanto agora sei que temes a Deus, visto que não me negaste teufilho, o teu único filho. Nisso levantou Abraão os olhose olhou, e eis atrás de si um carneiro embaraçado pelos chifresno mato; e foi Abraão, tomou o carneiro e o ofere-ceu em holocaustoem lugar de seu filho. ..."(Gn 22,11-14).

Aqui se corporifica e recebe de Deus aaprovação a "substituição" eficaz do ser humanopor um animal, no caso "o cordeiro", em qualquer sacrifício oferecido,no qual o ofertante é "substituído" pela vítima imolada,recebendo ela a penitência dele, pelo que tomou o nome de resgate.Assim, as palavras de Abraão a Isaac de que "Deus providenciaráo cordeiro para o sacrifício, meu filho" são proféticase vão se concretizar no mesmo morro, segundo antiga tradição(2Cro 3,1) no Sacrifício de Jesus Cristona Cruz. Maria como o "Novo Abraão", a Mãe dos Crentes, aMãe da Igreja, galgando o Calvário ao lado do Filho, talcomo Abraão, que, como Isaac, carregava o "Lenho" da Cruz, "cumpre"a Profecia de Abraão entregando ao Pai "o cordeiro que o próprioDeus providenciara para o sacrifí-cio".

A prova a que Deus submete não sedestina a um exame que Ele faz no eleito para conhecê-lo, eis queo Deus Onisciente conhece tudo e todos (1Sm 16,7).Destina-se ao amadurecimento e à toma-da de consciência quecada um tenha de si mesmo e das dimensões da sua missão,dela saindo então robustecido, pelo que Deus reforça e ratificaa Aliança. Termina aqui a prova de Abraão e, não sóde Abraão, mas também do próprio Isaac o qual mudodela participou, demonstrando ambos, para a "descendência" deles,aptidão e maturidade para o prosseguimento da Aliança. Ecomo sempre Abraão remata com o sacrifício do carneiro, decujo holocausto a eficácia se comprova nas palavras do Anjo:

"Então o anjodo Senhor bradou a Abraão pela segunda vez desde o céu, edisse: juro por mim mesmo, diz o Senhor, porquanto fizeste isto, e nãome negaste teu filho, o teu único filho, que te cumularei de bênçãos,e multiplicarei extraordinariamente a tua des-cendência, como asestrelas do céu e como a areia que está na praia do mar;e a tua descendência possuirá a porta dos seus inimigos; eem tua descendência serão bendi-tas todas as naçõesda terra; porquanto me obedeceste"(Gn 22,15-18).

Abraão, pela sua Fé, estáno fundamento da Aliança, é o seu alicerce humano e vai orientarsempre o caminho dela, sempre lembrado e sempre exaltado (Sb10,5; Eclo 44,19-22; 1Mb 2,52; Tg 2,20-24; Rm 4,1; Hb 11,8-19),e até os dias de hoje, na Igreja de Cristo:

"Para reunir a humanidadedispersa, Deus escolheu Abrão, chamando-o para "fora do seu país,da sua parentela e da sua casa" (Gn12,1),para o fazer Abraão, quer dizer, "pai duma multidão de nações"(Gn 17,5):"Em ti serão abençoadas todas as nações daTer-ra" (Gn 12,3 LXX)"(Catecismo Da Igreja Católica n.º59; v. também n.°s. 144-147; 422; 1079-1080; 1819; 2570-2572etc.).

"Desde o princípio,Deus abençoa os seres vivos, especialmente o homem e a mulher. Aaliança com Noé e todos os seres anima-dos renova esta bênçãode fecundidade, apesar do pecado do homem, que leva à maldi-çãoda terra. Mas, a partir de Abraão, a bênçãodivina penetra história dos homens, que caminhava em direçãoà morte, para a fazer regressar à vida, à sua fonte:pela fé do "pai dos crentes" que recebe a bênção,é inaugurada a história da salvação" (idemn.° 1080)

 Essa fé valer-lhe-áo título de "Pai dos Crentes":

"E recebeu o sinalda circuncisão, selo da justiça da fé que teve quandoainda não era circuncidado, para que fosse pai de todos os crentes,estando eles na incircuncisão, a fim de que a justiça lhesseja imputada, bem como fosse pai dos circuncisos, dos que não somentesão da circuncisão, mas também andam nas pisadas daquelafé que teve nosso pai Abraão, antes de ser circuncidado"(Rm 4,11-12)

"Sabei, pois, queos cren-tes é que são filhos de Abraão"(Gl 3,7).

7. A ALIANÇAE ISAAC, O FILHO DA PROMESSA

Existem determinadoscostumes antigos que não se identificam com o aculturamento atual.Um deles é o de sempre se referir à genealogia das pessoasde que toda a Escritura está cheia, desde Adão (Gn5,1-32), Noé (Gn10,1-32), outras e assim até mesmoda criação (Gn 2,4).Ointeresse principal é o de se conhecer a "origem", problema fundamentalpara os israelitas em virtude da Aliança e da pos-sibilidade deconflito com uma variedade enorme de pagãos com os mais "abomináveis"costumes (Gn 6,1-3)pela vinculação do clã a um ou mais deuses que emseus rituais chegavam a oferecer em holo-causto até os filhos (Jr32,35; 1Rs 16,34 2Rs 3,27; 23,10). Por tudoisso era necessário um conheci-mento mais detalhado de cada um,evitando-se as mais das vezes o desvio ou a perda definitiva de se-resqueridos, ou a diminuição e até mesmo a perda do patrimônioeconômico da tribo pela evasão he-reditária dos bens,principalmente de propriedades. Daí e por outros motivos importantespara a pró-pria segurança, para a sobrevivência e paraa cultura da época a necessidade de sempre os observar, como soeencontrar nos entremeios das narrativas a genealogia dos principais protagonistas.É tão fundamental essa condição que atémesmo no Novo Testamento, São Mateus, que escreve aos judeus, começao seu Evangelho com uma genealogia que demonstra Jesus como "Filho de Davi,Filho de Abraão" (Mt 1,1-16)e Lucas, apesar de destinar o seu à Igreja Universal, faz o mesmo,retrocedendo até Adão, dada a universalidade da salvação,mas levando em conta a genealogia de Jesus (Lc3,23-38).

Claro estáque com o compromisso que assumira com os termos da Aliança Abraão,já velho, e após a morte e sepultamento de Sara (Gn23), se preocupa com quem seria a futura esposade Isaac. Solucionou a dificuldade com uma de sua parentela (Gn24,3-4), consciente da genealogia de Nakor(Gn 22,20-24),seu irmão, apresentando o narrador a "origem" de Rebeca, a futuraesposa de Isaac, vinculando-a por sua vez à linhagem de Set (Gn,4,25) a progênie da Históriada Salvação, garantia de fidelidade a Iahweh e à Aliançajá em processo. É bom observar aqui que a única porçãode terra que Abraão possuiu como sua, adquirindo-a e pagando porela, foi o terreno onde sepultou sua mulher Sara (Gn23), cujo relato da compra mostra o ritualentão em uso, que se pode até mesmo denominar de "escriturapública" da compra, tal como diz o narrador que "foi asseguradoa Abraão por aquisição na presença dos heteus,e de todos os que se achavam presentes na porta da cidade" (Gn23,18). A "porta da cidade" representava naquelestempos o que hoje representam os cartórios de registro de aquisiçãode propriedades, ou seja, a publicização, que é otornar de conhecimento público, geral, para não mais se revogare reconhecendo-se então a tradição da propriedade.

A principal preocupaçãode Abraão era a Aliança como manifesta ao exigir sob juramento("com a mão sob a coxa" Gn 24,2)para a escolha da noiva, que não fosse das "filhas dos cananeus,no meio dos quais habito, mas irás à minha terra natal eaos meus parentes e tomarás dali mulher para meu filho Isaac" bemcomo "não tirasse seu filho da terra onde morava, que era a propriedadeque Deus prometera a sua descendência" (Gn24,3-9). A narrativa da "conquista" da noivapara Isaac deve ser lida, não com os critérios da culturade hoje, mas dentro das perspectivas do aculturamento de en-tão,num mundo ainda rude, selvagem e bárbaro, onde a sobrevivênciase devia a detalhes hoje míni-mos, sem valor algum, mas naquelestempos de uma imposição até mesmo insuperável.

A pretensãodo narrador não se limita ao casamento de Isaac, mas destaca tambéma fé de Abraão que prevê a ajuda de Iahweh:

"O Senhor, Deus docéu, que me tirou da casa de meu pai e da terra da minha parente-la,e que me falou, e que me jurou, (...) ele enviará o seu anjo diantede si, para que to-mes de lá mulher para meu filho" (Gn24,7).

Não ésó isso. Destaca também que Iahweh realmente de tudo participa,atende e realmente faz com que a noiva seja encontrada na forma imaginadae pedida pelo servo, junto ao poço onde ela sacia sua sede, a dosanimais e a da comitiva (Gn 24,12-14).Não pode ser simplesmente por coincidência ou por um golpede sorte que era uma sobrinha de Abraão, cuja família acatao pedido e lhe entrega a filha para o casamento (Gn24,10-61), percebendo os familiares que setratava da vontade de Iahweh a que deveriam acatar, significando isso quepartilhavam a mesma fé (Gn 24,51),satisfazendo assim à segurança necessária àAliança. Quando o servo volta é recebido pelo próprioIsaac, que "saíra para prantear ('ou meditar' - são válidasas duas traduções) no campo", a quem "narra tudo que tinhaacon-tecido com ele e Isaac introduziu Rebeca na tenda, e recebeu-a poresposa e a amou" (Gn 24,66-67).Ora, o pranto de Isaac leva à conclusão que Abraãomorrera antes da chegada do servo, cumprida a missão, motivo porquepresta contas a Isaac. Mas, também não é sóisso. Narra dessa maneira que Isaac assumiu a Aliança, a quem "Abraãodeu tudo o que possuía" (Gn 24,36 e25,5). A morte de Abraão vem em seguidae em separado. É o modo como a Bíblia traz suas narrativas,terminando uma e mesmo que algo a tivesse de interromper costuma narrá-loem separado.
Outros filhos deAbraão são apresentados destacando-se Madiã, na tribode quem Moisés futu-ramente irá se abrigar fugindo do faraódo Egito (Ex 2,15).Enumeram-se vários nomes de povos des-cendentes dele demonstrandoo quanto foi abençoado por Deus, destacando-se "doze chefes de outrospovos" (Gn 25,16)na descendência de Ismael, tal como lhe prometera (Gn17,20) e à Agar (Gn16,10ss e 21,18), e a de Isaac, bem menor- só dois filhos (Gn 25,24ss).Vai se repetir com Isaac o mesmo drama por que passou seu Pai tambémem outros acontecimentos semelhantes, maneira de se demonstrar escrituristicamentea identidade de vida, de amadurecimento na fé e de missão(Gn 26,1-33).Frisa assim a esterilidade de Rebeca e a intercessão de Isaac porela (Gn 25,21)pelo que gera dois filhos, cuja hostilidade se manifesta desde o útero:

"Ora, Isaac orou insistentementeao Senhor por sua mulher, porquanto ela era es-téril; e o Senhorouviu as suas orações, e Rebeca, sua mulher, concebeu. Eos filhos lutavam no ventre dela; então ela disse: Por que estoueu assim? E foi consultar ao Se-nhor. Respondeu-lhe o Senhor: Duas naçõeshá no teu ventre, e dois povos se dividirão das tuas estranhas,e um povo será mais forte do que o outro povo, e o mais velho serviráao mais moço. Cumpridos que foram os dias para ela dar àluz, eis que havia gêmeos no seu ventre. Saiu o primeiro, ruivo,todo ele como um vestido de pelo; e chamaram-lhe Esaú. Depois saiuo seu irmão, agarrada sua mão ao calcanhar de Esaú;pelo que foi chamado Jacó. E Isaac tinha sessenta anos quando Rebecaos deu à luz"(Gn 25,21-26).

São Pauloverá nesse acontecimento a "figura" da conversão dos pagãos,tornando-se também "filhos da promessa" pela fé e nãopor qualquer obra anterior que a merecesse:

"Isto é, nãosão os filhos da carne que são filhos de Deus; mas os filhosda promessa são contados como descendência. Porque a palavrada promessa é esta: Por este tempo virei, e Sara terá umfilho. E não somente isso, mas também a Rebeca, que haviacon-cebido de um, de Isaac, nosso pai, pois não tendo os gêmeosainda nascido, nem tendo praticado bem ou mal, para que o propósitode Deus segundo a eleição permanecesse firme, nãopor causa das obras, mas por aquele que chama, foi-lhe dito: O maior serviráo menor. Como está escrito: Amei a Jacó, e aborreci a Esaú.(...) Que diremos pois? Que os gentios, que não buscavam a justiça,alcançaram a justiça, mas a justiça que vem da fé"(Rm9,8-13.30).

É de se observara esterilidade sempre presente nas mulheres dos Patriarcas, contrastandocom a fecundidade ou bênção embutida no Protoevangelho(Gn 3,15) e naPromessa a Abraão de que "sua descendência seria como as estrelasdo céu e como a areia do mar" (Gn 22,17;15,5). Já se antevê que a Históriada Salvação é Obra exclusiva de Deus, o que se manifestanesses pequenos detalhes da Sua Intervenção, em atendimentoao pedido do eleito, pois é com Isaac que a Aliança se confirma:

"E apareceu-lhe oSenhor e disse: Não desças ao Egito; habita na terra queeu te disser; peregrina nesta terra, e serei contigo e te abençoarei;porque a ti, e aos que descende-rem de ti, darei todas estas terras, econfirmarei o juramento que fiz a Abraão teu pai; e multiplicareia tua descendência como as estrelas do céu, e lhe darei todasestas terras; e por meio dela serão benditas todas as naçõesda terra; porquanto Abraão obe-deceu à minha voz, e guardouo meu mandado, os meus preceitos, os meus estatutos e as minhas leis" (Gn26,2-5).

"E  apareceu-lheo Senhor na mesma noite e disse: Eu sou o Deus  de Abraão,teu pai; não temas, porque eu sou contigo, e te abençoareie multiplicarei a tua descendência por amor do meu servo Abraão"(Gn26,24).

E, prosseguindo amesma missão, o mesmo culto tendo por centro o sacrifício:

"Isaac, pois, edificouali um altar e invocou o nome do Senhor; então armou ali a sua tenda..."(Gn26,25).

8. A ALIANÇA PROSSEGUE COMJACÓ, O PRIMOGÊNITO

Entre os institutos da Bíblia, cujosentido se perdeu está também o da Primogenitura, que manifestasua influência e observância desde as suas primeiras páginas.É o caso de Abel que "ofereceu um sacrifício a Deus dos primogênitos(ou 'primícias' como em algumas Bíblias) de seu rebanho edos mais gordos" (Gn 4,4), enquanto Caim ofereceu"dos produtos da terra" (Gn 4,3). Porquantoa única diferença entre as ofertas seja esta dos primogênitos,não significando que Caim tivesse ofereci-do maus produtos, jáse evidencia a presença de alguma influência cultural quenos foge, pois Deus "olhou para Abel e sua oferta e não olhou paraCaim e sua oferta" (Gn 4,4-5). Tambémna relação ge-nealógica dos primeiros descendentesde Adão (Gn 5) e após a Torrede Babel (Gn 11,10-32) o nome do primogênitoé o único mencionado, prosseguindo-se com a descendênciadele. Mesmo em outras genealogias ele sempre ocupa o primeiro lugar (Gn9,18-10,32).

A suspeita de que algo de imperioso existevai se confirmando a partir de uma observação do narradorcriticando o desprezo de Esaú por ela (Gn25,34c) e da luta que trava com seu irmão Jacó, filhosde Isaac, e gêmeos, por causa dela (Gn 27,1-28,5).Além disso, Esaú toma por esposas duas pa-gãs da região(Gn 26,34). Tudo isso vai depor contra Esaúfazendo com que se justifique sua  perda para Jacó do direitode primogenitura, em tudo gerenciado pela própria mãe, Rebeca.Aconteceu que, em certa ocasião, Esaú, com fome, trocou comJacó o seu direito de primogenitura por um prato de lentilhas, porcujo absurdo é veementemente criticado pelo narrador (Gn25,34). Claro que Rebeca tomando disso conhecimento, e tambémpelo desgosto por causa do casamento de Esaú com mulheres hetéias,passa a se dedicar mais ainda a Jacó, o seu já predileto(Gn 25,28). Assim, à promessa do paiem dar a Esaú a denominada "bênção da primogenitura",age disfarçando Jacó de maneiras a ludibriar Isaac, que jáestava velho e sem visão (Gn 27,1-17).Jacó consegue assim receber a ambicionada e ir-reversível"bênção" (Gn 27,27-29)em lugar do irmão, que na verdade a havia desprezado e trocado comele pelo prato de lentilhas.

A importância desse fato se prendeàs reações dramáticas que lhe sucedem, pelasquais se pode dimensionar o alcance cultural (Gn27,30-45). Quando chega Esaú da caça onde buscarao "guisado a gosto do pai" (Gn 27,4) e édescoberta a substituição, "Isaac estremeceu tomado de enormeterror", declarando ainda que, apesar de assim concedida, "permaneceráabençoado" (Gn 27,33). Por sua vez" Esaú, ao ouvir as palavras de seu pai, gritou altíssimocom grande e extremamente amargurado brado, e disse a seu pai: Abençoa-metambém a mim, meu pai! (...) ...E chorando prorrompeu em altos gritos"e planeja matar o irmão (Gn 27,34.38.41).Tem-se mais conhecimento da importância da instituiçãocom a resposta de Isaac:

"Respondeu Isaac aEsaú: Eis que o tenho posto por senhor sobre ti, e todos os seusirmãos lhe tenho dado por servos; e de trigo e de mosto o provi.Que, pois, poderei eu fazer por ti, meu filho?" (Gn27,37).

Já se percebe que um dos privilégiosoutorgados com a "bênção" é a chefia do clãou da tribo, fato esse confirmado por outros trechos das Escrituras (1Cro26,10), pelo que recebia "dupla porção da herança"(Dt 21,17) pela responsabilidade que assumiapor todos os seus familiares e demais inte-grantes. O assunto voltaráa ser abordado no decorrer do curso eis que outros elementos que entramna composição desse direito somente poderão ser examinadosfuturamente em confronto com outras instituições. Por enquantoé de se reter apenas o exposto.

Coerente com a bênçãocorrespondente à primogenitura que proferiu, Isaac confia-lhe odesen-rolar da Aliança, não sem antes admoestá-loquando às mulheres pagãs, ou cananéias. De certa manei-raaté se pode suspeitar de que todo o narrado tenha sido arquitetadopelo casal para "destronar" Esaú por se comprometer com as mulheresestranhas aos costumes israelitas, principalmente levando-se em conta aadvertência feita em conjunto com a mesma bênçãode Abraão:

"Isaac, pois, chamouJacó, e o abençoou, e ordenou-lhe, dizendo: Não tomesmulher dentre as filhas de Canaã. Levanta-te, vai a Mesopotâmia,à casa de Betuel, pai de tua mãe, e toma de lá umamulher dentre as filhas de Labão, irmão de tua mãe.Deus Todo-Poderoso te abençoe, te faça frutificar e te multiplique,para que ve-nhas a ser uma multidão de povos; e te dê a bênçãode Abraão, a ti e à tua des-cendência contigo, paraque herdes a terra de tuas peregrinações, que Deus deu aAbraão. Assim despediu Isaque a Jacó, o qual foi a Mesopotâmia,para a casa de La-bão, filho de Betuel, o arameu, irmão deRebeca, mãe de Jacó e de Esaú" (Gn28,1-5).

Vê-se que quando ia para a Mesopotâmia,em busca de esposa e em fuga de Esaú, Jacó, como seus antepassadosAbraão e Isaac, tem uma visão em que se lhe confirmam tantoa promessa como a Aliança:

"...por cima da escadaestava o Senhor, que disse: Eu sou o Senhor, o Deus de Abraão teupai, e o Deus de Isaac; esta terra em que estás deitado, eu a dareia ti e à tua descendência; e a tua descendência serácomo o pó da terra; dilatar-te-ás para o ocidente, para ooriente, para o norte e para o sul; por meio de ti e da tua des-cendênciaserão benditas todas as famílias da terra. Eis que estoucontigo, e te guardarei onde quer que fores, e te farei tornar a esta terra;pois não te deixarei até que haja cumprido aquilo de quete tenho falado" (Gn28,13-15).

Tal como com Abraão (Gn18), com Isaac (Gn 26,2.24) ocorreuuma manifestação sensível de Deus, uma teofania, nesteepisódio da "escada' por cima da qual estava o Senhor" em que seprofere a mesma bênção para a posteridade de Abraãoe a mesma promessa da herança da mesma terra das suas peregrinações(Gn 12,7; 13,14-17; 22,17-18; 26,4.24), bemcomo a mesma resposta do Patriarca eri-gindo um lugar de culto acompanhadode um sacrifício, se bem que aqui com Jacó trata-se de umalibação e a unção de uma pedra erigida em cipo,muito usado naqueles tempos como testemunho ou prova de algum fato profanoou sagrado e religioso (Gn 31,45; Js 4,9.20; 24,26-27)e até mesmo para as coisas de Deus:

"Pois os filhos deIsrael ficarão por muitos dias sem rei, sem príncipe, semsacrifício, sem cipos, e sem éfode ou terafins" (Os3,4)

Israel é videfrondosa que dá o seu fruto; conforme a abundância do seufruto, assim multiplicou os altares; conforme a prosperi-dade da terra,assim fizeram belos cipos" (Os10,1)

Tirarei as feitiçariasda tua mão, e não terás adivinhadores; arrancareido meio de ti as tuas imagens esculpidas e os teus cipos; e nãoadorarás mais a obra das tuas mãos" (Mq5,12).

Pode-se até mesmo admitir a preferênciade Jacó por este tipo de oferenda dado o seu caráter maispacífico ("...homem tranqüilo, habitante da tenda" Gn25,27c). Aqui com ele a teofania atinge um clímax com a presençada narrativa de uma "escada", como que aquela da Torre de Babel, aqui servindode comprovação do elo de ligação entre os anjosque descem do céu para seu ministério no mundo, como interpretaramos Santos Padres e de que apesar da separação ou distânciaentre o céu e a terra, pode atingi-lo sempre, aquele que ama a Deus.Vê-se com facilidade que por Jacó viria o prosseguimento daHistória da Salvação que culminaria em Jesus Cristo,motivo por que se caracterizam a "promessa" e a "aliança" com Abraão,com Isaac e com Jacó (também em Gn35,11-13 e 46,3-4), como
Messiânicas, e tal como seus antepassadosfaz do sacrifício o centro do seu culto, prometendo erguer no localum santuário para o que destinará o dízimo:

"E temeu, e disse:Quão terrível é este lugar! Este não éoutro lugar senão a casa de Deus; e esta é a porta dos céus.Jacó levantou-se de manhã cedo, tomou a pedra que puseradebaixo da cabeça, e a pôs como cipo; e derramou-lhe azeiteem cima. E chamou aquele lugar Betel; porém o nome da cidade antesera Luz. Fez também Jacó um voto, dizendo: Se Deus for comigoe me guardar neste caminho que vou seguindo, e me der pão para comere vestes para vestir, de modo que eu volte em paz à casa de meupai, e se o Senhor for o meu Deus, então esta pedra que tenho postocomo cipo será casa de Deus; e de tudo quanto me deres, certamentete darei o dízimo" (Gn28,17-22).

Jacó recebe de Deus tudo aquilocorrespondente ao conteúdo da Aliança de Abraão, jáse an-tevendo a confirmação da Bênçãorecebida de Isaac, contrariando assim uma opinião por demais gene-ralizadade que o ato de Jacó e Rebeca fosse condenável, daquelesque se recusam a ver na cultura dos antigos uma formaçãomoral ainda rude e até mesmo rudimentar e selvagem. Mas, mesmo queassim não fora, não se pode esquecer que Esaú nãodeu à Primogenitura nem mesmo à Aliança os valoresque mereciam: à Primogenitura por tê-la desprezado (Gn25,32) e trocado por um prato de lentilhas com Jacó e àAliança por contrair casamento com mulheres hetéias, pagãs,como já se viu amplamente. E as Escrituras não o condenam,ao contrário o louvam e respeitam:

"Foi ela ("a 'sabedoria")quem conduziu por veredas retas o justo ('Jacó') que fugia da cólerade seu irmão; mostrou-lhe o reino de Deus e lhe deu a conhecer ossantos; pro-porcionou-lhe êxito nos rudes labores e fez frutificarseus trabalhos. Esteve a seu lado contra a cobiça dos que o oprimiame o enriqueceu. Protegeu-o contra os inimigos e o defendeu daqueles quelhe armavam ciladas. Atuou como árbitro a seu favor em rude combate,para ensinar-lhe que a piedade é mais poderosa do que tudo" (Sb10,10-12)

A bênçãode todos os homens e a aliança,  ele as fez repousar sobrea cabeça de Jacó. Confirmou-o nas bênçãosque eram dele, e concedeu-lhe o país em herança. E ele divi-diu-oem lotes"...(Eclo44,23).

Até Jesus o aponta junto aos Patriarcas,na bem-aventurança da Vida Eterna:

"Digo-vos pois: Muitosvirão do Oriente e do Ocidente sentar-se à mesa com Abraão,Isaac e Jacó no reino dos céus" (Mt8,11).

Por outro lado, tambémJesus Cristo usa a mesma imagem da sua visão, porém a simesmo se referindo como a "escada", colocando-se como a união entreDeus e os Homens:

"E acrescentou: Emverdade, em verdade vos digo que vereis o céu aberto, e os anjosde Deus subindo e descendo sobre o Filho do homem" (Jo1,51). 


9. A ALIANÇA E AS DOZE TRIBOSDE ISRAEL (JACÓ)

Da mesma forma que Abraão e Isaac,Jacó também tem necessidade de amadurecimento e conscientizaçãopara o exercício da Aliança, aperfeiçoando-se parao seu prosseguimento e consecu-ção. Deus não faz exceçõesnem mesmo aos seus eleitos e, apesar de terem uma missão a cumprir,vi-vendo no mundo, têm de sofrer todas as conseqüênciasdo pecado que lhe aparecem. Assim, Jacó parte, fugindo para a casade Labão, o irmão de sua mãe Rebeca, e tambémem procura de uma mulher que fosse de sua parentela, tal como lhe aconselharamambos os pais, tendo em vista o malogro que Esaú vai tentar corrigirtardiamente (Gn 26,34-35 e 28,6-9).

Seu encontro com Raquel, sua prima e pastorade ovelhas que as traz para beber água, se dá de imediatonum poço (Gn 29,1-14), repetindo, pelapresença de Deus dirigindo os acontecimentos, o mesmo que ocorreuquando da busca de uma mulher para Isaac. É conduzido para a casado tio e lá fixa sua residência e passa a trabalhar, a serexplorado melhor dir-se-ia. Apaixona-se por Raquel e aceita trabalhar seteanos para então desposá-la. Mas, o sogro ardilosamente odesposa com Lia ao pretexto de que não poderia casar a mais novae permanecer com a mais velha solteira. Descoberto o embuste, apóso cerimonial concluído, introduzida a esposa em sua tenda àsurdina, Jacó reclama mas acaba aceitando trabalhar mais sete anospara recebê-la daí a uma semana (Gn29,14c-30). Aparece então outra vez a esterilidade das mulheresdos Patriarcas e vinculadas à História da Salvação,que só se tornavam férteis por uma ação especialde Deus, por ser o Único Autor da Salvação:

"Viu, pois, o Senhorque Lia era desprezada tornou-a fecunda; Raquel, porém, era es-téril"(Gn29,31)

"Também lembrou-seDeus de Raquel, ouviu-a e a tornou fecunda" (Gn30,22).

Dessa união lhe advieram doze filhose uma filha (Gn 29,32-30,24 / 35,16-18), quederam ori-gem às doze tribos dos Filhos de Israel, o nome que Deusdará a Jacó (Gn 32,29; 35,9),donde vai se formar o Povo de Israel. Não há necessidadede se delongar no relato dos nascimentos de todos eles, ficando para cadaparticipante o dever de ler aquilo que não for aqui exposto, completandoseu conhe-cimento bíblico com seu próprio esforço,evitando-se que o curso seja passivo. Basta relatar os nomes dos filhosde Jacó, com os das mulheres e das concubinas que os geraram (Gn35,23-26):

Vários elementos culturais jáconhecidos se repetem, tanto a substituição da mulher estérilpor sua serva para lhe dar filhos, como o fato da mulher mesma escolherum nome com um significado seu para o filho, manifestando-se assim o prosseguimentoda sua luta contra a serpente, iniciada por Eva (Gn3,15 / 4,25 - cfr. no Capítulo 1, sob o título O Protoevangelho).Jacó tinha em mira principal-mente a Aliança contraídacom Deus, por ela se guia e por causa dela reclama, e pede para retornarà sua terra, ou seja Terra Prometida a Abraão, a Isaac ea ele próprio. Um fato normal e até mesmo cor-riqueiro naqueletempo, um filho buscar a casa do pai, torna-se para ele por demais penosoe de difícil solução amistosa. Decide-se entãoe foge "iludindo a vigilância de Labão", aproveitando-se daocupa-ção dele na tosquia, que descobrindo a fuga vai emseu encalço e o alcança (Gn 31,1-23).Somente nessa ocasião é que o pacífico Jacóesboça uma reação:

"Então irou-seJacó e contendeu com Labão, dizendo: Qual é a minhatransgressão? qual é o meu pecado, que tão furiosamenteme tens perseguido? Depois de teres apalpado todos os meus móveis,que achaste de todos os móveis da tua casa? Põe-no aqui diantede meus irmãos e de teus irmãos, para que eles julguem entrenós ambos. Estes vinte anos estive eu contigo; as tuas ovelhas eas tuas cabras nunca abortaram, e não comi os carneiros do teu rebanho.Não te trouxe eu o despedaçado; eu sofri o dano; da minhamão requerias tanto o furtado de dia como o furtado de noite. Assim andava eu; de dia me consumia o calor, e de noite a geada; e o sono mefugia dos olhos. Estive vinte anos em tua casa; catorze anos te servi portuas duas filhas, e seis anos por teu rebanho; dez vezes mudaste o meusalário. Se o Deus de meu pai, o Deus de Abraão e o Temorde Isaque não fora por mim, certamente hoje me mandarias emboravazio. Mas Deus tem visto a minha aflição e o trabalho dasminhas mãos, e repreendeu-te ontem à noite" (Gn31,36-42).

Revendo com mais detalhes o acontecimentoé de se destacar a firmeza da fé de Jacó que se traduzem profunda e humilde paciência, que a tudo sofre resignadamente,sem esboçar reação alguma, confiando em Deus que lheprometera, quando iniciou "sua peregrinação" (Gn47,9), "estou contigo e proteger-te-ei onde quer que vás,e te reconduzirei a esta terra" (Gn 28,15).Então, pediu para partir e o seu pagamento (Gn30,25-28), notando-se que até aquele momento não trabalharaainda para si mesmo e reconhecendo Labão que seus bens aumentaramgraças à bênção de Deus a Jacó(Gn 30,29-30). Não se chegava a umacomposição justa e Jacó então propõevoltar ao trabalho do sogro e receber em pagamento os animais do rebanhoque viessem a nascer "malhados e mosqueados" daquela data em diante (Gn30,31-34). Tudo assim combinado, Labão imediatamente separado rebanho todos os animais "malhados e mosqueados" entrega-os aos filhos,afastando-os três dias de distância, para impossibilitar Jacóde conseguir seu pagamento (Gn 30,35-36).É Deus que vem em socorro de seu eleito em virtude da Aliançaque continua com ele (Gn 28,12-15):

"Disse o Senhor, então,a Jacó: Volta para a terra de teus pais e para a tua paren-tela;e eu serei contigo. Pelo que Jacó mandou chamar a Raquel e a Liaao campo, onde estava o seu rebanho, e lhes disse: vejo que o rosto devosso pai para comigo não é como anteriormente; porémo Deus de meu pai tem estado comigo. Ora, vós mesmas sabeis quecom todas as minhas forças tenho servido a vosso pai. Mas vossopai me tem enganado, e dez vezes mudou o meu salário; Deus, porém,não lhe permitiu que me fizesse mal. Quando ele dizia assim: Ossalpicados serão o teu salário; então todo o rebanhodava salpicados. E quando ele dizia assim: Os lis-trados serão oteu salário, então todo o rebanho dava listrados. De modoque Deus tem tirado o gado de vosso pai, e mo tem dado a mim. Pois sucedeuque, ao tempo em que o rebanho concebia, levantei os olhos e num sonhovi que os bodes que cobriam o rebanho eram listrados, salpicados e malhados.Disse-me o anjo de Deus no sonho: Jacó! Eu respondi: Eis-me aqui.Prosseguiu o anjo: Levanta os teus olhos e vê que todos os bodesque cobrem o rebanho são listrados, salpicados e malhados; porquetenho visto tudo o que Labão te vem fazendo. Eu sou o Deus de Betel,onde ungiste um cipo, onde me fizeste um voto; levanta-te, pois, sai-tedesta terra e volta para a terra da tua parentela" (Gn31,3-13).

Percebendo o embuste Jacó reagiucom habilidade para tentar conseguir recuperar o que lhe pertencia (Gn30,37-43), mas não conseguiu se libertar e o seu sogro continuaespoliando-o (Gn 31,6-16.36-42), tendo sidoainda difamado pelos cunhados, que se juntam ao pai para mais ainda o maltra-tar(Gn 31,1-2). Foi necessário que o próprioDeus lhe manifestasse como transcrito (Gn 31,3-13),levando-o a trocar idéias com suas mulheres que lhe demonstraramque, ao contrário do costume, La-bão em vez de dar-lhe odote legal, ficara com todo o direito delas, incentivando-o à separação(Gn 31,4-18). Assim encorajado foge com osseus familiares e bens.

Quando o alcança, Labão a princípioo agride e, após a reação dele, se contorce todo,fingindo amor estremado pelas filhas e netos, em que não integraJacó, nunca incluído (Gn 31,26-28).Após alguma altercação fazem as pazes e Jacóoferece então um sacrifício do qual participam toda a famíliae volta tranqüilo para Isaac (Gn 31,18-54).Não deixa de ser um incômodo a reclamação deLabão pelos seus "deuses" (Gn 31,30-35),mas não se deve esquecer de que se acreditava em vários "deuses"bem como assim se denominavam poderes intermediários, as mais dasvezes imaginários e fruto de su-perstições, espéciede "talismãs", que se infiltravam na fé ainda em formação,pelo que não se deve assustar nem se preocupar. Deus nãotratou a verdadeira ciência religiosa de maneira diferente das outrasciências e, do mesmo modo que da alquimia, o homem caminhou paraa Química, do curandeirismo para a Medicina modernas, assim tambémcaminhou da feitiçaria, da magia e das superstições,que se mesclavam no campo doutrinário, para a Plena Revelaçãopor Jesus Cristo que a tudo vai depurar.

Finalmente, Jacó volta à terrado Pai, e então procura Esaú para fazer as pazes, ato dehumil-dade (Gn 33,1-17), muito conforme asua formação pacífica e peculiar a um homem que viveem comunhão com Deus. Quando estava a caminho teve medo e foi assaltadopor grande angústia, o que lhe significou uma luta misteriosa como próprio Deus, pelo conflito íntimo ensejado com Sua Vontade,ocasião em que o anjo lhe muda o nome para Israel (Gn32,23-32) pelo qual será para sempre conhecido, bem comoo povo formado pelos seus descendentes. Deste fato não hátestemunhas, tendo sido narrado pelo próprio Jacó. Mas, tudovai sendo confirmado até mesmo nos contrastes, que não param,e sua luta prossegue incansável: Dina sua filha é ultrajadae apesar de se acertar com a família do ofen-sor o casamento comela, conseguindo até mesmo que se deixassem circuncidar, convertendo-seao Deus da Aliança, seus filhos Simão e Levi, irmãosuterinos dela, atacam e matam todos os varões em vingança,deixando Jacó em situação difícil perante oshabitantes da região e com grave perigo para a sobrevivênciageral (Gn 33,18-34,31). Nem assim háo mais leve sinal de perda de equilíbrio em Jacó. Recebelogo após, do próprio Deus, a ratificação detudo o que lhe foi prometido quando iniciou sua fuga (Gn28,11-15) e quando lhe foi mudado o nome (Gn32,24-29):

"Apareceu Deus outravez a Jacó, quando ele voltou de Mesopotâmia, e o abençoou.E disse-lhe Deus: O teu nome é Jacó; não te chamarásmais Jacó, mas Israel será o teu nome. E chamou-lhe Israel.Disse-lhe mais: Eu sou Deus Todo-Poderoso; frutifica e multiplica-te; umanação, sim, uma multidão de nações sairáde ti, e reis procederão dos teus lombos; a terra que dei a Abraãoe a Isaac, a ti a darei; também à tua descendênciadepois de ti a darei. E Deus subiu dele, do lugar onde lhe falara. EntãoJacó erigiu um cipo no lugar onde Deus lhe falara, um cipo de pedra;e sobre ele derramou uma libação e deitou-lhe tambémazeite; e Jacó chamou Betel ao lugar onde Deus lhe falara" (Gn35,9-15).

O sacrifício novamente como o centrodo culto dos Patriarcas vai ser oferecido em cumpri-mento ao prometidopor Jacó (Gn 28,10-22), agora Israel,em Betel, no mesmo local, junto ao carva-lhal onde Abraão jáhavia erigido um altar e oferecido sacrifício (Gn12,6-8; 22,14), dando um sentido de prosseguimento à Aliança.Porém, em obediência a uma ordem específica de Deusquanto ao cumprimento do compromisso de Jacó de erigir ali um santuário,era preciso uma purificação geral de tudo o que fosse profano,uma conversão geral tal como havia prometido (Gn28,21 - "...o Senhor será o meu Deus..."), pelo que determina:

"Depois disse Deus a Jacó: Levanta-te,sobe a Betel e habita ali; e ergue ali um altar ao Deus que te apareceuquando fugias da face de Esaú, teu irmão. Então disseJacó à sua família, e a todos os que com ele estavam:Lançai fora os deuses estra-nhos que há no meio de vós,e purificai-vos e mudai as vossas vestes. Levantemo-nos, e subamos a Betel;ali farei um altar ao Deus que me respondeu no dia da minha angústia,e que foi comigo no caminho por onde andei. Entregaram, pois, a Jacótodos os deuses estranhos, que tinham nas mãos, e as arrecadas quependiam das suas orelhas; e Jacó os enterrou debaixo do carvalhoque está junto a Siquém. (...) Assim chegou Jacó àLuz (...) Edificou ali um altar, e chamou ao lugar de "O Deus de Betel";porque ali Deus se lhe tinha manifestado quando fugia da face de seu irmão"(Gn 35,1-7).

Com esse gesto Jacó manifesta publicamentee para sempre a sua adesão, a de sua família e a dos seusdescendentes, exclusiva e incondicional a Deus; do mesmo modo, seráobjeto de outra ratificação igual, séculos depois,no mesmo lugar e quando da Conquista da Terra Prometida, por Josué:

"... temei ao Senhor,e servi-o com sinceridade e com verdade; deitai fora os deu-ses a que serviramvossos pais dalém do Rio, e no Egito, e servi ao Senhor. Mas, sevos parece mal o servirdes ao Senhor, escolhei hoje a quem haveis de servir;se aos deuses a quem serviram vossos pais, que estavam além do Rio,ou aos deuses dos amorreus, em cuja terra habitais. Porém eu e aminha casa serviremos ao Senhor. Então respondeu o povo, e disse:Longe esteja de nós o abandonarmos ao Senhor para servirmos a outrosdeuses: porque o Senhor é o nosso Deus..." (Js24,13-17).

Também foi nesse mesmo local queJesus Cristo se encontrou com a Samaritana, "cumprindo" (Mt 5,17) semelhantepropósito:

"...achava-se alio poço de Jacó. Jesus, pois, cansado da viagem, sentou-seassim junto do poço; era cerca da hora sexta. Veio uma mulher deSamaria tirar água. Disse-lhe Jesus: Dá-me de beber. Poisseus discípulos tinham ido à cidade comprar comida. Disse-lheentão a mulher samaritana: Como, sendo tu judeu, me pedes de bebera mim, que sou mulher samaritana? (Porque os judeus não se comunicamcom os samaritanos.) Respondeu-lhe Jesus: Se tivesses conhecido o dom deDeus e quem é o que te diz: Dá-me de beber, tu lhe teriaspedido e ele te haveria dado água viva. Disse-lhe a mulher: Senhor,tu não tens com que tirá-la, e o poço é fundo;donde, pois, tens essa água viva? És tu, porventura, maiordo que o nosso pai Jacó, que nos deu o poço, do qual tambémele mesmo bebeu, e os filhos, e o seu gado?" (Jo4,6-12).

Jesus repete a mesma atividade de Jacó,confirmada por Josué, de reconduzir o Homem para Deus pela Aliança,dando-lhe então "pleno cumprimento" (Mt 5,17), na mesma porçãode terra onde Jacó se purificou com todos os seus, onde tambémJosué repetiu a operação com o já Povo de Israele no mesmo lugar que Jacó doou ao seu filho predileto, José:

"Os ossos de José,que os filhos de Israel trouxeram do Egito, foram enterrados em Siquém,naquela parte do campo que Jacó comprara aos filhos de Hamor, paide Siquém, por cem peças de prata, e que se tornara herançados filhos de José" (Js24,32).

Tanto é assim que a própriaSamaritana Lhe diz:

"És tu, porventura,maior do que o nosso pai Jacó, que nos deu o poço, do qualtam-bém ele mesmo bebeu, e os filhos, e o seu gado?" (Jo 4,12) /"Disse-lhe a mulher: Se-nhor, vejo que és profeta. Nossos pais adoraramneste monte, e vós dizeis que em Jerusalém é o lugaronde se deve adorar"(Jo 4,19-20).

Ao que Jesus lhe responde, tal como Jacóe Josué, "definindo toda e qualquer adoração daíem diante, e revelando a verdadeira natureza do Deus de Israel", bem comopela primeira vez em todo o Evangelho confessa-se o Cristo:

"Disse-lhe Jesus:Mulher, crê-me, a hora vem, em que nem neste monte, nem em Jerusalémadorareis o Pai. (...) Mas vem a hora, e é agora, em que os verdadeirosadoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade; porqueo Pai procura a tais que assim o adorem. Deus é Espírito,e é necessário que os que o adoram o ado-rem em espíritoe em verdade. Replicou-lhe a mulher: Eu sei que vem o Messias (que se chamao Cristo); quando ele vier há de nos anunciar todas as coisas. Disse-lheJesus: Eu o sou, eu que falo contigo" (Jo4,21-26)

Claro fica, pela própria Revelaçãode Jesus à Samaritana, que a reta final da formaçãodo Povo de Israel começara com aquele ato de Jacó, em Betel.Esse local é o repositório das mais antigas e sólidastradições dos Patriarcas, a começar com Abrãoerigindo ali um altar, tornando-o um lugar sagra-do (Gn12,6+; 13,3), mais tarde comprado por Jacó erguendo ali outro(Gn 35,1-15) em cumprimento de sua promessa(Gn 28,10-22). Além disso foi escolhidopelo próprio Moisés para nele Josué, "atra-vessadoo Jordão", ratificar a Aliança (Js8,30-35) com o Povo de Israel então formado (Dt27,1-10). Jesus retoma todo o acontecimento anterior e, vinculandotodo o passado israelita com a Sua Presença no mesmo monte onde"se atiraram fora os deuses estranhos", revela o estabelecimento dos "novosadoradores de Deus em espírito e em verdade", isto é, nãomais na carne e no exterior, mas no coração e a partir dointerior do Homem, fruto da Graça.

O quadro a seguir mostra melhor que palavras:

JACÓ (Gn 35,1-7)
JOSUÉ (Js 24,1.14-16.26-26)
JESUS (Jo 4,19-26)
"Depois disse Deus a Jacó: Levanta-te,sobe a Betel e habita ali; e ergue ali um altar ao Deus que te apareceuquando fugias da face de Esaú, teu irmão."Josué reuniu em Siquémtodas as tribos de Israel (...)


"Disse-lhe a mulher: Senhor, vejo queés profeta. Nossos pais adoraram neste monte, e vós dizeisque em Jerusalém é o lugar onde se deve adorar" (Jo4,19-20).
Então disse Jacó àsua família, e a todos os que com ele esta-vam:

"E Josué disse a todo o povo: (...)Agora,pois, temei ao Se-nhor, e servi-o com sincerida-de e com verdade;"Disse-lhe Jesus:


Lançai fora os deuses estra-nhosque há no meio de vós, e purificai-vos e mudai as vos-sasvestes.deitai fora os deuses a que serviram vossospais dalém do Rio, e no Egito, e servi ao Se-nhor.
Mulher, crê-me, a hora vem, em quenem neste monte, nem em Jerusalém adorareis o Pai.
Levantemo-nos, e subamos a Betel; alifarei um altar ao Deus que me respondeu no dia da minha angústia,e que foi comigo no caminho por onde andei.

Mas, se vos parece mal o servir-des aoSenhor, escolhei hoje a quem haveis de servir; se aos deuses a quem serviramvossos pais, (...). Porém eu e a minha casa serviremos ao Senhor.
(...) Mas a hora vem, e agora é,em que os verdadeiros adorado-res adorarão o Pai em espíritoe em verdade; (...)Deus é Espíri-to, e é necessárioque os que o adoram o adorem em espírito e em verdade.
"Entregaram, pois, a Jacó todosos deuses estranhos (...)e Jacó os enterrou debaixo do carvalhoque está junto a Siquém. Então partiram; (...).todoo povo que estava com ele. Edificou ali um altar (...) e chamou ao lugarDeus - Betel; porque ali Deus se lhe tinha manifestado..."Então respondeu o povo, e disse:Longe esteja de nós o abandonarmos ao Senhor para servirmos a outrosdeu-ses: porque o Senhor é o nosso Deus (...)
Disse o povo a Josué: Servi-remosao Senhor nosso Deus, e obedeceremos à sua voz.
Replicou-lhe a mulher: Eu sei que vemo Messias (que se chama o Cristo); quando ele vier há de nos anunciartodas as coisas. 

Disse-lhe Jesus: 
Eu o sou, eu que falo contigo" (Jo4,21-26).

Voltando ao assunto em estudo, surgem entãopara Jacó dois fatos novos bem dolorosos. Em primeiro lugar a mortede Raquel ao dar à luz Benjamim [a quem, antes de expirar, ela deuo nome de "Bennoni (= filho de minha dor) e que Jacó mudou para"Benyamin" (= filho de minha direita) (Gn 35,16-21)];e, em seguida, a traição de seu filho primogênito "pernoitando"com sua concubina Bala (Gn 35,22), ato naquele tempo considerado como condenável"incesto".

Finalmente, volta Jacó para a "residênciaoficial" dos Patriarcas, em Mamré, que se denomina tambémHebron, onde e quando falece Isaac (Gn 35,27-29).Prosseguindo o narrador inclui genealogias a partir da de Esaú quese mesclou com os gentios ou pagãos da região, comprometendoa Aliança na sua geração, ficando definitivamentedesligado dela.


10. A ALIANÇA E JOSÉ,O "PRIMOGÊNITO" DE JACÓ

José, o filho primogênitode Raquel, a amada de Jacó, é um dos marcos mais importantesda História da Salvação, cuja significaçãonunca se apagará nem da memória Israelita nem da Cristã.Com ele se encerra um período fundamental, a Era dos Patriarcas,e se abre outro, a Era do Povo de Israel, em prosseguimento à concretizaçãoda Aliança. Manifesta-se a fertilidade de bênçãosde Deus que se vai avolumando num crescendo e em uníssono com osseus desígnios, sempre presente, tirando da obra da maldade humana,fruto do pecado, o bem e a sua consumação. Quer assim conduziro Homem para o seu lugar - o Jardim do Éden, qual seja, para a vidaem comunhão com Ele. E os acontecimen-tos que se vão sucedendo,muitas vezes contraditórios com a lógica que deveria terum plano de Deus bem traçado, humanamente falando, parecem comprometerseu sucesso. A História de José, conhecido como "Josédo Egito" retrata a verdade de que nada perturba a concretizaçãode sua vontade e que do mal humano sempre retira o bem e a Sua Justiça,traduzida na realização dos Seus Desígnios, como ensinaa Igreja:

"Assim, com o tempo,é possível descobrir que Deus, na sua onipotente Providência,pode tirar um bem das conseqüências dum mal (mesmo moral), causadopelas criaturas: 'Não, não fostes vós - diz Joséa seus irmãos - que me fizestes vir para aqui. Foi Deus. (...) Meditastescontra mim o mal: o desígnio de Deus aproveitou-o para o bem...e um povo numeroso foi salvo' (Gn45,8; 50,2).Do maior mal moral jamais praticado, como foi o repúdio e a mortedo Filho de Deus, causado pelos pecados de todos os homens, Deus, pelasuperabundância da sua graça (Rm5,20),tirou o maior dos bens: a glorifi-cação de Cristo e a nossaredenção. Mas nem por isso o mal se transforma em bem" (Catecismoda Igreja Católica, n.º 312).

Como toda a família humana, a famíliade Jacó também tinha seus dramas e problemas peculiares.É natural que Jacó tivesse uma predileção especialpor José, filho de sua amada, o "primogênito do seu coração"e tanto é assim que lhe tecera uma "túnica talar" (Gn37,3c). Este tipo de túnica caracteriza bem o valor que Josétinha aos olhos do pai, uma dessas túnicas usadas pelos elementosque integravam uma corte real, de mangas e cavas largas e de longo comprimento,que por si só se impunha como algo de majestoso e incomum, capazaté mesmo de incentivar o ciúme, e incentivou, o dos irmãosque tomaram ódio dele (Gn 37,4). Mesmoporque José também sonhara com os irmãos e os paislhe prestando reverências reais (Gn 37,6-11).E, quando Jacó o mandou em procura dos irmãos que estavampastoreando o gado em local distante, acertaram atirá-lo numa cisternavazia para depois de lá retirá-lo e vendê-lo como escravoaos Madianitas ou Ismaelitas, ambos descendentes de Abraão, nãose sabendo com exatidão. Cabe aqui uma observaçãoimportante: - muitas das narrações das Escrituras vêm-nosde diferentes tradições e são duplicadas ou mescladas,até mesmo triplicadas, gerando alguma confusão. Nãose deve rejeitá-las simplesmente, mas somar as informaçõesque nos trazem sem as desprezar, eis que se referem a um mesmo fato real,alterado as mais das vezes pela natureza das fontes. Assim a narraçãode que teriam sido os ismaelitas ou madianitas não modifica a realidadede que José fora vendido pelos irmãos, fato confirmado pelorestante da exposição. A Jacó levaram apenas a suatúnica talar toda embebida em sangue, causando-lhe mais um sofrimentoatroz e levando-o a um luto estremado (Gn 37,31-35).Já se fala aqui na vida após a morte: "chorando descereia meu filho debaixo da terra", tal como se acreditava, lá ficandono estado em que se falecia (Gn 37,35 / Gn 44,29/ Nm 16,30), sendo ainda uma ofuscada "figura" do nosso Purgatório,ou Mansão dos Mortos.

Neste ponto a história é cortadaintercalando-se uma ocorrência com Judá digna de nota em virtudede registrar uma instituição, a Lei do Levirato, que impunhaao cunhado (= "levir") a obriga-ção de casar-se com a viúvado irmão, para lhe suscitar prole (Gn 38,8),herdeiro, o qual seria descen-dência do falecido para todos os efeitoslegais e religiosos, e não dele. São costumes que se solidificamem instituições sagradas. Judá não se importandocom a sorte da sua nora fê-la, para salvaguardar os direitos seuse de seu marido, disfarçar-se de "mulher pública cultual",qual seja uma mulher que ofe-recia seu corpo à divindade em "prostituiçãosagrada" (Dt 23,18; Os 4,14; 1Rs 14,24; 15,12; 2Rs23,7), conseguindo ardilosamente uma relação sexualcom o sogro Judá, recém enviuvado (Gn 38,12), sabendo-seque, na falta de irmãos do falecido, um parente próximo (atémesmo o pai) satisfaria o costume, da qual adveio dois filhos gêmeos(Gn 38,14-30), um dos quais se chamou Farés,que foi antepassado do Rei Davi (1Cro 2,4-5 / Rt4,18-21).

Terminado o parêntesis de Judáo narrador volta-se novamente para José, que no Egito é ven-didoa Putifar, oficial e chefe da guarda do faraó (Gn37,1-36) e acaba trabalhando na casa dele, gozando de sua plenaconfiança pois "Deus estava com ele e por seu meio levava a bomtermo tudo o que empreendia, pelo que pôs em suas mãos todosos seus bens" (Gn 39,1-6). A mulher pretendeuseduzi-lo, que "por fidelidade ao seu senhor e a Deus" (Gn39,9) recusou-a, levando-a a vingar-se acusando-o falsamente, fatoque o leva à prisão, onde se repete a "bênçãode Deus em José" fazendo com que gozasse da confiança docarcereiro (Gn 39,10-23). Ai na prisãofica conhecendo, presos como ele, o padeiro e o copeiro reais, dos quaisdesvendou os sonhos, indo, tal como interpretara, o padeiro para a forcae o copeiro de volta às suas funções (Gn40,1-22), "mas o copeiro se esqueceu de José" a quem prometerapedir ao faraó que o libertasse, inocente que era de todas as acusaçõesque lhe fizeram (Gn 40,23 / 40,14-15).

11. JOSÉ PASSA A GOVERNARO EGITO

Apesar disso, Deus, "que tem os seus caminhos",vem em seu socorro e o faraó tem dois so-nhos que o incomodam (Gn41,1-7). Naqueles tempos acreditar em sonhos como previsõesde futuro era muito comum, por demais valorizados e até mesmo aproveitadospor Deus, que sempre se utiliza da cultura humana para seus desígnios.Vê-se que atua na hora certa, podendo-se crer que impediu que o copeirose lembrasse antes da hora, até que se criasse uma situaçãofavorável, não apenas ao seu eleito em si, mas ao prosseguimentoda Aliança por meio dele. O faraó não encontra quemo tranqüilize com a solução e então o copeirose lembra e sugere o nome de José, a quem se apresentou os sonhos.O famoso sonho das "vacas magras e das vacas gordas", e o das " espigasmirradas e queimadas, e espigas granosas e cheias" umas devorando as outras,pelo que José pressagiou sete anos de fartura e sete anos de escassez.

Manifesta-se então a sabedoria de Joséque ainda sugeriu um plano de ação que tanto convenceu quefoi promovido a uma espécie de Primeiro Ministro do Faraó(Gn 41,38-44) para a execução.É realmente ótimo administrador e durante os anos de farturaJosé adquiriu e armazenou o máximo do trigo produzido quepôde, para distribuí-lo no tempo da escassez e de fome queatingiu o mundo todo de então (Gn 41,53-57).Por causa disso os filhos de Jacó vão, a mando do pai, aoEgito em busca de provisões e são reconhecidos por José,mas não o reconhecem. Não há necessidade de se narraraqui toda a história com todos os detalhes, mas deverá elaser totalmente lida e até mesmo estudada com calma. Joséfoi visto pelos Padres dos Primórdios como uma "figura" de Jesus,que vendido pelos irmãos, humilhado e após grande sofrimento,inocente e resignado, atinge a glória, os perdoa, salva e prepara-lhesum lugar.

José que já demonstrara especialsabedoria e discernimento no governo, também vai fazê-lo notrato com seus irmãos. Imediatamente após reconhecê-los,formando eles um grupo coeso de dez "es-trangeiros", os acusa de espiões,estratagema que usa para forçá-los a se identificarem totalmente,pelo que fornecem todos os detalhes familiares. Conhecia-os suficientementebem pelo que lhe fizeram e até mesmo os motivos, por isso quis notíciasdo pai e principalmente da integridade do único irmão uterino,Benjamim, também filho de Raquel, a amada, fonte dos ciúmesque poder-lhe-iam ter infligido igual represália. Fez tudo o quepôde até conseguir que o trouxessem a sua presençapara vê-lo e se certificar de sua incolumidade. Também comtais manobras e não deixando transparecer que entendia o que conversavam,ouviu quando manifestaram com angústia o arrependimento do que fizeramcom ele, aceitando os dissabores por que José os fazia passar comose fora um castigo pelo que lhe haviam feito de mal. Depois de muita peripécia,buscando conhecer e certificando-se da condição moral e dascondições de vida dos irmãos, seu relacionamento como pai e principalmente com o seu irmão Benjamim, depois de prová-los,José se dá a conhecer (Gn 42-45):

"Disse, então, José a seusirmãos: Eu sou José; vive ainda meu pai? E seus irmãosnão lhe puderam responder, pois estavam pasmados diante dele. Josédisse mais a seus ir-mãos: Chegai-vos a mim, peço-vos. Eeles se chegaram. Então ele prosseguiu: Eu sou  José,vosso irmão, a quem vendestes para o Egito. Agora, pois, nãovos entris-teçais, nem vos aborreçais por me haverdes vendidopara cá; porque para preservar vida é que Deus me enviouadiante de vós. Porque já houve dois anos de fome na terra,e ainda restam cinco anos em que não haverá lavoura nem sega.Deus enviou-me adiante de vós, para conservar-vos descendênciana terra, e para guardar-vos em vida por um grande livramento. Assim nãofostes vós que me enviastes para cá, senão Deus, queme tem posto por pai de Faraó, e por senhor de toda a sua casa,e como governador sobre toda a terra do Egito" (Gn45,3-8).

Aparece aqui além de grande sabedoriade José o seu conhecimento das coisas de Deus pelo que tranqüilizaos irmãos, com o mesmo sinal da presença da fé aliadacom o amor pelos homens que vimos em Abraão, reconhecendo em todoo acontecimento o dedo de Deus a tudo dirigindo (Gn50,19). Levam a notícia de que estava vivo e de sua posiçãoao pai, que demorou a crer e não foi fácil convencê-lode que José, além de vivo, governava o Egito:

"Então subiram do Egito, vieramà terra de Canaã, a Jacó seu pai, e lhe anunciaram,dizendo: José ainda vive, e é governador de toda a terrado Egito. E o seu coração des-maiou, porque não osacreditava. Quando, porém, eles lhe contaram todas as palavras queJosé lhes falara, e vendo Jacó, seu pai, os carros que Joséenviara para levá-lo, rea-nimou-se-lhe o espírito; e disseIsrael: Basta; ainda vive meu filho José; eu irei e o verei antesque morra. Partiu, pois, Israel com tudo quanto tinha e veio a Bersabéia,onde ofereceu sacrifícios ao Deus de seu pai Isaac"(Gn45,25-46,1).

A princípio quis apenas rever seufilho antes de morrer. Chegando a Bersabéia, local onde residiaAbraão, temeu pelo prosseguimento da Aliança em terra estranhadistinta da prometida, até aquele momento indefinido, o que o levouao oferecimento do sacrifício, buscando saber qual seria a vontadede Deus:

"Partiu, pois, Israelcom tudo quanto tinha e veio a Bersabéia, onde ofereceu sacrifí-ciosao Deus de seu pai Isaque. Falou Deus a Israel em visões de noite,e disse: Jacó, Jacó! Respondeu Jacó: Eis-me aqui.E Deus disse: Eu sou Deus, o Deus de teu pai; não temas descer parao Egito; porque eu te farei ali uma grande nação. Eu desce-reicontigo para o Egito, e certamente te farei tornar a subir; e Joséporá a sua mão so-bre os teus olhos"(Gn 46,1-4).

O "não temas" da resposta evidenciaa indecisão de Jacó, temor que sempre assalta o eleito faceao contraditório do mundo com os planos de Deus (Gn15,1; 26,24c). Após o sacrifício e pela visãoque teve fica-lhe claro que no Egito, em prosseguimento da Aliança,formar-se-ia dele "uma grande nação" e então desce,não mais para apenas "ver José antes de morrer", mas comtodos os seus familiares e bens, toda a Tribo dos Filhos de Israel. Láfixariam residência "em peregrinação", mas desde oinício com certa animosidade, pois "os egípcios detestamtodos os pastores de rebanhos" (Gn 46,33-34),o antigo preconceito aos nômades naturalmente. Assim previu José,levando-os para a região de Gessem, onde poderiam permanecer ouse mover sem molestar ou serem molestados, e onde a sua religiãopoderia ser preservada incólume, sem se contaminar com a idolatriaegípcia.


12. A ALIANÇA E AS BÊNÇÃOSDE JACÓ NO EGITO

Após tal reviravolta, Jacó,já vivendo no Egito, se volta para a rotina do passado e passa ase lembrar de vários acontecimentos que lhe exigiram a atençãona época, agora quase esquecidos, com os quais até se conformarae que agora se lhe apresentavam novamente com vigor renovado:

"...viremos, eu etua mãe, e teus irmãos, a inclinar-nos com o rosto em terradian-te de ti? ... seu pai meditava o caso no seu coração"(Gn 37,10-11).

 É mais que evidente que "meditavao caso no seu coração" quanto ao que ocorria com referênciaà Aliança procurando saber por onde Deus a prosseguiria.Tudo lhe mostrava então que era por meio de José e sua descendênciaque ela se concretizaria, e passa a agir na direção que selhe descortinava "o sinal dos tempos". Com o seu desaparecimento tudo mudarae Jacó passara a viver de acordo com o que Deus dispusera, uma vezque por si mesmo nada podia fazer. Agora, porém, que "o sonho deJosé se realiza" tal como "meditava", exige do filho, por primeiro,que não o sepulte em terra estrangeira, naquele tempo comparadoa uma terrível maldição, fazendo-o jurar "com a mãodebaixo da coxa", comprometendo-se assim na própria virilidade talcomo se usava (Gn 47,29-31). Em segundo lugar,sabendo para onde caminhava o Plano de Deus com referência àAliança, passa a preparar o terreno onde plantar a Bênçãoda Primogenitura e onde transplantar a Bênção da Aliança,tal como foi esta prometida a Abraão, que a deu ao seu pai Isaace este lha transmitiu, como vinha de novo "meditando em seu coração"(Gn 37,11). Adoecendo, José leva-lheseus dois filhos, Efraim e Manassés, nascidos no Egito de seu casamentocom Asenete (Gn 41,45.50-52). Concluídoque é em José que te-ria prosseguimento, é a ele quedestina ambas as bênçãos, e lhe entrega a dupla parteda herança (Dt 21,17) em forma de adoçãodos dois filhos dele como seus, tornando-os herdeiros como qualquer umdos outros filhos e com eles concorrendo à herança (Gn48,5-6):

"E disse Jacó a José: O DeusTodo-Poderoso me apareceu em Luz, na terra de Canaã, e me abençoou,e me disse: 'Eis que te farei  frutificar e te multiplicarei; tornar-te-eiuma multidão de povos e darei esta terra à tua descendênciadepois de ti, em possessão perpétua'. Agora, pois, os teusdois filhos, que nasceram na terra do Egito antes que eu viesse a ti noEgito, são meus: Efraim e Manassés serão meus, comoRúben e Simeão; mas a prole que tiveres depois deles serátua; se-gundo o nome de seus irmãos serão eles chamados nasua herança. (...) Quem são es-tes? Respondeu Joséa seu pai: Eles são meus filhos, que Deus  me tem dado aqui.Continuou Israel: Trazei-mos aqui, e eu os abençoarei. (...) E Josétomou os dois, a Efraim com a sua mão direita, à esquerdade Israel, e a Manassés com a sua mão es-querda, àdireita de Israel, e assim os fez chegar a ele. Mas Israel, estendendoa mão direita, colocou-a sobre a cabeça de Efraim, que erao menor, e a esquerda sobre a cabeça de Manassés, dirigindoas mãos assim propositadamente, sendo embora este o primogênito.E abençoou a José, dizendo: O Deus em cuja presençaandaram os meus pais Abraão e Isaac, o Deus que tem sido o meu pastordurante toda a minha vida até este dia, o anjo que me tem livradode todo o mal, abençoe estes meninos, e seja chamado neles o meunome, e o nome de meus pais Abraão e Isaac; e multipliquem-se abundantementeno meio da terra" (Gn 48,3-16).

Acreditava-se que pelas mãos secomunicavam estado, poderes ou virtudes da pessoa (Lv1,4), mais ainda pela mão direita, que era assim depositadana cabeça do primogênito, alvo de maior bênção.Há uma inversão e Jacó abençoa Efraim comose fora o mais velho de José e Manassés como o mais novo,anunciando a preeminência dele sobre o irmão maior (Gn48,17-20). Apesar do protesto do pai deles, encerra esse primeiromomento praticando o ato a que se propusera, mantendo as mãos trocadas,repetindo a mesma tônica da bênção de Abraão(Gn 12,2-3) e, separadamente a José,antecipa uma doação de propriedade (Gn38,18-20) antes da conquista e do sorteio que se fará daTerra Prometida:

"Depois disse Israela José: Eis que eu morro; mas Deus será convosco, e vos farátor-nar para a terra de vossos pais. E eu te dou um pedaço de terraa mais do que a teus irmãos, o qual tomei com a minha espada e como meu arco da mão dos amorreus"(Gn 48,21-22).

Essa determinação tem a mesmadimensão da que fará José a seus irmãos (Gn50,24-25), o que evidencia a transitoriedade da mudança dotribo para o Egito. Além disso, consoante a Bênçãode Ja-có, a Tribo de Efraim na realidade será bem mais numerosae de grande projeção e poder no seio do Povo de Israel, eirá se destacar durante a Monarquia, quando irá fundar, constituire conduzir o Reino do Norte, na sedição das tribos (1Rs11,26 / 1Rs 12). Sua preeminência será tão notóriaque o próprio Moisés a afirmará, já no seutempo, comparando-a com Manassés:

"...Eis o seu novilhoprimogênito; ele tem majestade; e os seus chifres são chifresde boi selvagem; com eles rechaçará todos os povos, sim,todas as extremidades da terra. Tais são as miríades de Efraim,e tais são os milhares de Manassés" (Dt33,17c).

Além disso, aqui nesse trecho, opróprio Moisés trata José como "novilho primogênito,com majestade e chifres de boi selvagem". Esta narrativa da Bênçãodos filhos de José é um ótimo exemplo daquela Regraoferecida na Introdução para não se ater aos capítulose versículos, mas sempre observar o começo e o fim do assuntoque se lê. Observe-se que a divisão entre capítulo48 e 49 não tem sentido e é aleatória, nãose tratando de momentos diferentes mas do prosseguimento de um mesmo ato,a Bênção de Jacó a todos os seus filhos. Então,após confirmar a Aliança de Abraão, com a distribuiçãoinicial da Bênção para José e seus filhos Efraime Manassés, Jacó se volta para seus outros filhos e completao seu trabalho com uma locução, que se conhece ora como oráculo(Gn 49,1b) ora como bênção(Gn 49,28c):

"Depois chamou Jacóa seus filhos, e disse: Ajuntai-vos para que eu vos anuncie o que vos háde acontecer nos dias vindouros. Ajuntai-vos, e ouvi, filhos de Jacó;ouvi a Israel vosso pai..." (Gn 49,1-2) / "Todas  estas sãoas doze tribos de Israel: e isto é o que lhes falou seu pai quandoos abençoou; a cada um deles abençoou segundo a sua bênção"(Gn49,28).

Ao que tudo indica porém, teriasido proferida próximo da própria morte que, com o desenrolarda História do Povo de Israel, foi sendo acrescida de fatos pertinentesàs tribos que tinham referência até mesmo remota comas palavras de Jacó, mantidos no contexto pelo narrador tudo o quelhe chegou por tradição oral, e na forma de um poema. Issoacontece muito em Bíblia eis que não se escreve o fato nomomento de sua ocorrência, mas muito tempo após, jámesclado com várias acomodações. Por causa disso,é necessário que o oráculo de Judá seja examinado,principalmente no seu conteúdo religioso, destacando-se o seu teormessiânico. Ainda, no aspecto cultural é de se verificar aexistência de detalhes da primogenitura que vai nos realçara sua importância, principalmente quando se dirige a Rubem, que comojá vimos traiu o pai, praticando um "incesto" com a concubina dele,Bala, a serva de Raquel (Gn 35,22):

"Rúben, tués meu primogênito, minha força e as primíciasdo meu vigor, preemi-nente em dignidade e preeminente em poder. Impetuosocomo a água, não reterás a preeminência; porquantosubiste ao leito de teu pai; então o profanaste. Sim, ele su-biuà minha cama" (Gn49,3-4).

Este trecho exibe parte da importânciado primogênito principalmente quando o define como "minha forçae as primícias do meu vigor", qual seja, onde se manifesta a forçageradora de Jacó com toda a capacidade, no sentido bíblicode "primícias", como o impulso inicial e o princípio de fecundidade,anunciando farta colheita. Por isso é por natureza "preeminenteem dignidade e preeminente em poder", sendo assim por si só, umaqualidade de sua própria constituição (cfr.Gn 43,33). Tudo isso ele perdeu - "subiste ao leito de teu pai,e o profanaste", "não te pertencerá mais a preeminênciaque tens direito de gozar". Essa preeminência compreende atémesmo a chefia do clã ou da tribo ou da família:

"De Hosa, dos filhosde Merári, foram filhos: Sínri o chefe, ainda que nãoera o pri-mogênito, contudo seu pai o constituiu chefe..."(1Cro 26,10).

O pai tinha o direito de ratificar ou retiraro direito do primogênito. Assim, perdido por Ru-bem, o direito teriade ir logicamente para Simeão e Levi, mas, por sua vez, tambémtraíram o pai (Gn 34,25-31), no caso de Dina, e não o recebem,com o ato deles não querendo compactuar Jacó:

"Simeão e Levisão irmãos; as suas espadas são instrumentos de violência.No seu con-cílio não entres, ó minha alma! com a suaassembléia não te ajuntes, ó minha glória!porque no seu furor mataram homens, e na sua ira estropiaram bois. Malditoo seu fu-ror, porque violento! maldita a sua ira, porque cruel! Dividi-los-eiem Jacó, e os es-palharei em Israel"(Gn 49,5-7).

 A frase "dividi-los-ei em Jacóe os espalharei em Israel" mostra a modificação operada notexto com os acontecimentos que ocorreram após o seu pronunciamento.Jacó não tinha condições de saber que o seupovo seria conhecido por "Israel", nem que ambas as tribos seriam tragadaspelas outras, praticamente desaparecendo. Mas, ambos praticaram juntoso ato injusto e comprometedor de que se ressente ainda e juntos deveriamparticipar das conseqüências e da mesma perda. Assim, alémde não gozar da Primogenitura, Simeão vai se mesclar no territóriode Judá (Js 19,1-9) e Levi, apesardo exercício do sacerdócio que lhe adveio pela postura noepisódio do Bezerro de Ouro (Ex 32,26-29),teve suas propriedades disseminadas por toda a nação (Js21,1-40). Ora, os vaticínios bíblicos nunca sãomencionados assim com tanta clareza, sem simbologia adequada e misteriosa.Por causa desse fato, não faz mal repetir, o que se referiu a cadaum e a todos os filhos de Israel, bem como aquilo do vaticínio deJacó que se entendeu haver sido cumprido de alguma forma, foi "esclarecido"por um redator posterior, acrescido e incorporado ao contexto, o que sedenomina de glosa, que os copistas e tradutores respeitaram e mantiveramcomo parte do conteúdo.

Percebe-se que deve ter sido um problema difícilpara Jacó esse de desenvolver e conciliar o prosseguimento da Aliançaentre os filhos, pois caso seguisse uma ordem normal e lógica, aprimoge-nitura caberia agora a Judá, que assim esperava, ficandodefinido o caminho. Não que necessariamente devesse seguir uma hierarquiadeterminada pela ordem cronológica dos nascimentos, mas deve terse-guido uma qualquer, mesmo que pensada, planejada e amadurecida no decorrerde sua vida toda. Ago-ra, o advento de José da forma como aconteceualterou tudo clamando por uma revisão, já que um novo elementovem integrar a disposição racional já deliberada epronta. Principalmente por "conser-var na memória os fatos" (Gn37,11b), e já lhe "ter urdido uma túnica talar" (Gn37,3c), e os "sonhos que teve" (Gn 37,5.9),que naquele tempo eram vistos como presságios do futuro, o convenceremen-tão do lugar onde iria desaguar a corrente da Aliança.Sendo assim, o que planejara com o seu desapa-recimento ficaria alteradonão mais se admitindo que seguiria tudo apenas em Judá e,com o retorno de José, impunha-se uma revisão total, peloque parece afirmar:

"Judá, a tite louvarão teus irmãos; a tua mão será sobreo pescoço de teus inimigos: diante de ti se prostrarão osfilhos de teu pai. Judá é um leão novo. Voltaste dapresa, meu filho. Ele se encurva e se deita como um leão, e comouma leoa; quem o desperta-rá? O cetro não se afastaráde Judá, nem o bastão de comando dentre seus pés,até que venha aquele a quem pertence; e a ele obedecerãoos povos. Atando ele o seu jumentinho à vide, e o filho da sua jumentaà videira seleta, lava as suas roupas em vinho e a sua vestiduraem sangue de uvas. Os olhos serão escurecidos pelo vinho, e os dentesbrancos de leite" (Gn49,8-12).

O colorido messiânico desse vaticínioé facilmente visível, onde aparece a força guerreira(Gn 49,9), fartura e prosperidade (Gn49,11-12), realçadas com imagens simbólicas, sem necessidadede muita análise. É preciso, porém, ler um trechode um livro bem adiante, para melhor precisar outros acontecimentos a quese subordinaram esse oráculo de Jacó, modificando-o:

"Quanto aos filhosde Rúben, o primogênito de Israel, pois ele era o primogênito;mas, porquanto profanara a cama de seu pai, deu-se a sua primogenituraaos filhos de José, filho de Israel, de sorte que a sua genealogianão é contada segundo o direito da primogenitura; pois Judáprevaleceu sobre seus irmãos, e dele proveio o príncipe;porém a primogenitura foi de José..." (1Cro5,1-2).

E é o próprio redator dolivro de Crônicas quem nos revela, pela boca de Davi, o modo comoJudá prevaleceu sobre seus irmãos:

"Todavia o SenhorDeus de Israel escolheu-me de toda a casa de meu pai, para ser rei sobreIsrael para sempre; porque a Judá escolheu por príncipe,e na casa de Judá a casa de meu pai, e entre os filhos de meu paise agradou de mim para me fazer rei sobre todo o Israel" (1Cro28,4).

Assim, em Davi, descendente de Judá,foi cumprido o oráculo:

"Judá, a tite louvarão teus irmãos; a tua mão será sobreo pescoço de teus inimi-gos: diante de ti se prostrarão osfilhos de teu pai" (Gn49,8).

 Uma comparação mostraráque já nos primórdios se dava a esse oráculo um sentidoprofundamente messiânico, como se lê em Apocalipse, que tiroua denominação de "leão" para Jesus das palavras deJacó:

Gn 49,9
Ap 5,5
Judá é um"E disse-me um dentre os anciãos:Não chores; eis que o 
leãozinho. Voltaste da presa, meufilho. 
Ele se encurva e se deita como um leão, 
e como uma leoa; quem o despertará?"
Leão da tribo de Judá, araiz de Davi, 
venceu para abrir o livro e romper osseus sete selos."

E é muito aceitável esseconteúdo messiânico por causa de um fato muito conhecido doEvangelho de Mateus, quando nos narra a visita dos Reis Magos, onde édigno de nota o que perguntaram e o que aconteceu por causa disso:

"Onde estáaquele que é nascido rei dos judeus? pois do oriente vimos a suaestrela e viemos adorá-lo. O rei Herodes, ouvindo isso, perturbou-se,e com ele toda a Jeru-salém; e, reunindo todos os principais sacerdotese os escribas do povo, pergunta-va-lhes onde havia de nascer o Cristo.Responderam-lhe eles: Em Belém da Ju-déia..."(Mt 2,2-5).

Com base neste trecho, pergunta-se:

Essas indagações mostramque ao tempo de Herodes, o Messias (Cristo, em grego) era esperado, eisque o rei se perturbou e só quis saber "onde nasceria", do que foiinformado, tendo como certa a sua existência. É que quandoHerodes, que não era israelita nem da Tribo de Judá, foinomeado rei por Roma, quando o cetro não mais pertenceu àTribo de Judá, cumpria-se o vaticínio de Jacó, umavez que "viria já aquele a quem pertence e a ele obedecerãoos povos" (Gn 49,10cd). Tanto é as-sim,que, com base nas informações que recebeu, "Herodes mandoumatar todos os meninos de até dois anos" (Mt2,16), pelo que o Evangelista viu cumprido antigo oráculo(Jr 31,15).

Tudo mostra que, pelos acontecimentos acrescidos,a Judá foi preservada a chefia quando Israel se constituíssecomo os outros povos em reino, já que fala em "cetro", com um colorido"messiâ-nico". Não é oportuno se discutir isso aquimas parece uma glosa para justificar a posse de Judá pela coroaisraelita, eis que impossível para Jacó prever que Israelseria uma monarquia em certa ocasião histórica, pela imprecisãonormal de todos os vaticínios que a Escritura no oferece (Gn49,1-10), e a resistência oferecida por Samuel com base nadoutrina quando o povo a pediu (1Sm 8).
Porém, a José é dadaa Bênção da Primogenitura, com todos os seus elementos,"todas as bênçãos", inclusive a indispensávelconsagração, prosseguindo-se nele a Aliança:

"José é um ramo frutífero,ramo frutífero junto a uma fonte; seus raminhos se estendem sobreo muro. Os flecheiros lhe deram amargura, e o flecharam e perseguiram,mas o seu arco permaneceu firme, e os seus braços foram fortalecidospelas mãos do Pode-roso de Jacó, o Pastor, o Rochedo de Israel,pelo Deus de teu pai, o qual te ajuda-rá, e pelo Todo-Poderoso,o qual te abençoara, com bênçãos dos céusem cima, com bênçãos do abismo que jaz embaixo, combênçãos dos seios e da madre. As bênçãosde teu pai excedem as bênçãos dos montes eternos, ascoisas desejadas dos eternos outeiros; sejam elas sobre a cabeçade José, e sobre o alto da cabeça daquele que foi consagradode seus irmãos" (Gn 49,22-26).

À tribo de Efraim, "pela imposiçãoda mão direita de Jacó", caberia então o exercícioda chefia do clã, após José, na forma da tradiçãocultural, correspondente ao equilíbrio tribal em vigor na época.Tudo fica mais claro com uma revisão sucinta do passado, que agoranos impõe para maior clareza e necessidade ao raciocínio.É que José era o filho predileto de Jacó e os seusirmãos o odiavam por isso e por sonhos dele que previam sua supremaciafutura (Gn 37,3-4.5-11), sonhos esses quese cumpri-ram (Gn 42,6.9). José e Judásão os dois filhos primogênitos de ambas as mulheres de Jacó,Raquel e Lia. De Lia, Judá seria o primogênito em lugar deRúben, Simeão e Levi que perderam o direito (Gn49,4-6); e, de Raquel, José, a quem Jacó amava compredileção e a quem devolveu a primogenitura. Por sua vezfora a tribo de Judá abençoada por Jacó com um coloridomessiânico (Gn 49,8-12), e ca-bia-lheo direito da primogenitura na ordem cronológica de nascimento (Gn29,31-35). Assim como Esaú odiou de morte a Jacó porcausa da primogenitura, pelo mesmo motivo é de se esperar o ressen-timentode Judá quando seria destinada por predileção a José.Não se deve perder de mira que foi Judá quem chefiou a vendade José para os ismaelitas (Gn 37,26-27),contra a vontade de Rúben que o que-ria restituir ileso ao pai (Gn37,22), e isso se deu antes da bênção de Jacó(Gn 49). E, no futuro, tanto com a correspondentebênção, como com Efraim e Manassés igualadosa Rúben e Simeão (Gn 48,5) ena porção maior dada a José (Gn48,22), Jacó restabelece a José o seu lugar. A issoé que Judá não concorda, se propõe e consegueretomá-la. Assim, os antagonismos familiares fervilhavam, fermentan-do-seuma divisão futura que irá certamente ocorrer. Nãoé à toa que em Dt. 21,17 sevai proibir a preferência do pai pelo primogênito da mulheramada, coincidência demais com os fatos da tribo de Jacó.

Os demais elementos integrantes do oráculode Jacó e atinentes a seus outros filhos, as mais das vezes históricosou geográficos de cada tribo, podem ser facilmente verificados namedida em que os demais livros da Bíblia mencionarem o nome deles,quando então dever-se-á fazer uma comparaçãocom esse texto. A essa altura é bom que se recorde que nem sempreé possível conhecer de imediato todos os detalhes integrantesdas Escrituras, eis que condicionando-se à cultura humana com todasas suas implicações, muitas vezes hoje não se podecompreender com exatidão o sentido das narrativas escritas paraos homens daquele tempo e não para os atuais. Um exemplo melhoresclarecerá: suponhamos que alguém nesses dias escreva algoassim: "então embananou o meio do campo e tudo acabou em samba".Ora, se tal escrito for guardado durante quatro mil anos e entãoalguém ler essa frase, se desconhecer a "bananada", o "futebol"e a "nossa música", entenderá alguma coisa? Claro que não,e aquilo que hoje não tem nenhum mistério para nós,ele não irá nunca compreender se não fizer um estudoaprofundado de nossa cultura. E se não conseguir fazê-lo teráque se contentar com uma compreensão total de nossa épocae enquadrar a afirmação o melhor possível. Assim acontecemuitas ve-zes quando se lê a Bíblia. Jesus Cristo équem vai esclarecer o que é essencial, com a Revelaçãodefi-nitiva que faz, e que sem Ele é impossível, como afirmaSão Paulo (2Cor 3,14-16).

erminadas as Bênçãos,Jacó se despede:

"Depois lhes deu ordem,dizendo-lhes: Eu  estou para ser congregado ao meu povo; sepultai-mecom meus pais, na cova que está no campo de Efrom, o heteu, na covaque está no campo de Macpela, que está em frente de Manre,na terra de Canaã, cova esta que Abraão comprou de Efrom,o heteu, juntamente com o respectivo campo, como propriedade de sepultura.Ali sepultaram a Abraão e a Sara, sua mulher; ali sepultaram a Isaque e a Rebeca, sua mulher; e ali eu sepultei a Lia. O campo e a covaque está nele foram comprados aos filhos de Hete. Acabando Jacóde dar estas instruções a seus fi-lhos, encolheu os seuspés na cama, expirou e foi congregado ao seu povo"(Gn 49,29-33).

Quando Abraão comprou a gruta ondesepultou Sara (Gn 23,1-20), tal como se pensavana antigüidade, tomou posse da Terra Prometida, sua residênciapara sempre, e é para o mesmo lugar que deverá ser transportadoJacó, "para ser congregado ao seu povo", tal como se acreditavana "vida após a morte", como se verá também em outroslugares da Escritura, o que foi feito (Gn 50,7-14).Sepultado o pai, José é assediado pelos irmãos, quedele agora temiam uma represália pelo que lhe fizeram, ao que lhescomunica a isenção de qualquer mágoa e de profundafé na direção dos acontecimentos por Deus (Gn50,15-21). E, quando se aproxima o fim de seus dias, bem vividos,dita as últimas ordens a seus irmãos, o que comprova a suaqualidade de "chefe", de "primogênito no exercício de suasfunções" em direção aos compromissos da Aliança:

"Depois disse Joséa seus irmãos: Eu morro; mas Deus certamente vos visitará,e vos fará subir desta terra para a terra que jurou a Abraão,a Isaque e a Jacó. E José fez jurar os filhos de Israel,dizendo: Certamente Deus vos visitará, e fareis transportar daquios meus ossos. Assim morreu José, tendo cento e dez anos de idade;e o embalsamaram e o puseram num caixão no Egito"(Gn 50,24-26)


"Moisés levouconsigo os ossos de José, porquanto havia este solenemente ajuramentadoos filhos de Israel, dizendo: Cer-tamente Deus vos visitará; e vóshaveis de levar daqui convosco os meus ossos" (Ex 13,19) / "Os ossos deJosé, que os filhos de Israel trouxeram do Egito, foram enterra-dosem Siquém, naquela parte do campo que Jacó comprara aos filhosde Hamor, pai de Siquém, por cem peças de prata, e que setornara herança dos filhos de José"(Js 24,32) .

Aqui termina o Livro de Gênesis,base de todo estudo da Bíblia, trazendo gloriosa e santa históriados Patriarcas Abraão, Isaac e Jacó, que lançaramos fundamentos de nossa fé. Nenhuma menção honrosaserá maior que a da própria Igreja, cujos alicerces lançarame ergueram:

"Para reunir a humanidadedispersa, Deus escolheu Abrão, chamando-o para "fora do seu país,da sua parentela e da sua casa" (Gn 12,1), para o fazer Abraão,quer dizer, "pai duma multidão de nações" (Gn 17,5):"Em ti serão abençoadas todas as nações daTerra" [Gn12,3 LXX (cfr. Gl 3,8)]".

"O povo saídode Abraão será o depositário da promessa feita aospatriarcas, o povo eleito (Rm 11,28), chamado a preparar a reunião,um dia, de todos os filhos de Deus na unidade da Igreja (Jo 11,52; 10,16).Será o tronco em que serão enxertados os pagãos tornadoscrentes (Rm11,17-18,24)".

"Os patriarcas, osprofetas e outras personagens do Antigo Testamento foram, e se-rãosempre, venerados como santos, em todas as tradições litúrgicasda Igreja" (Catecismo da Igreja Católica, n s.º 59, 60 e 61- destaques a propósito)".


Baixe aqui a revisão atualizada (21/08/2012) deste capitulo, no formado PDF.

 
MUNDO CATÓLICO   - Página revisada em 21/08/2012-
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