Quinta Parte
DEUTERENÔMIO
A Unificação de Israel
ISRAEL SE UNIFICA E ASSUME A SUA MISSÃO

Entre os Israelitas este livro é conhecido pelas primeiras palavras com que se inicia: - 'elleh haddebarîm = estas são as palavras. Correspondente ao quinto rolo, em que teria sido dividida a Torah, da Escritura Hebraica, ou o Pentateuco, da versão Grega dos Setenta (LXX), a Septuaginta. Recebeu o nome de Deuteronômio, em virtude da tradução de um versículo, pelo qual teria o sentido de "Recapitulação da Lei", ou "Segunda Lei", diferentemente do original hebraico, onde melhor significa - "cópia desta lei":

"Também, quando se assentar no trono do seu reino, escreverá para si uma cópia desta lei num livro, do que está diante dos levitas sacerdotes" (Dt. 17,18).

Não se trata da elaboração de nova legislação, mas do ordenamento mais sistemático e da atualização da existente, com as várias modificações advindas dos seus efeitos ou dos resultados da sua aplicação na vida em comum. Manifestava-se ainda, em forma rudimentar, contaminada com as mais variadas narrativas, que lhe incutiram as diferentes personalidades grupais e que deram origem à variegada tradição israelita. Aqui transparece a procura sistemática de unidade na diversidade, ainda que incipiente, característica básica do intricado acolchoado em que foi tecida a História da Salvação. Como sói acontecer num agrupamento humano, não foram poucos os desencontros e desajustes havidos durante a peregrinação pelo deserto. Então, em virtude dessas situações, incorporaram-se e sedimentaram-se aperfeiçoamentos diversos na vida social, familiar e religiosa. Por outro lado, não poucas diferenças das tradições, tanto tribais como grupais, aí foram acrescentando-se e adaptando-se em forma ordenada. [Foi já esclarecido anteriormente, que "se reconhece, na contextura das Escrituras Sagradas, a existência de narrativas oriundas de várias tradições documentárias, destacando-se dentre elas as denominadas de "Eloísta" e "Javista", conforme o texto se refira à tradição de Elohim ou à tradição de Iahweh, tal o nome dado a Deus. (...) Só se pode concluir que Moisés seja o patrono do nome "Iahweh" (Ex 3,13-15; 6,2-3), cabendo-lhe a sua "apresentação" ao Povo de Israel que o designava com os nomes: Elohim e Iahweh (Gn 1,1; 4,6.26; 12,1; Ex 6,2-4), El-Shaddai (Gn 17,1; 28,3; 43,14; Ex 6,3), El Elyon (Gn 14,18-24), El '0lam (Gn 21,33), El Ro'i (Gn 16,13), Iahweh Yir'el (Gn 22,14), El Bete (Gn 31,13; 35,7), Adonai (Gn 15,2.8) etc." (cfr. o n.º 4, Capítulo 4)].

Nesta oportunidade, ao se iniciar esta análise, ainda que sucinta, é bom que se mencionem outras tradições que parecem compor o texto vétero testamentário:

    • - a "Deuteronomista", neste livro mais concentrada, com características identificáveis facilmente nas conotações do contexto, pela busca da unidade; e,
    • - a "Sacerdotal", que aqui também aparece, bem como nos demais livros, acentuadamente em Levítico, com os seus elementos mais voltados ao Sacerdócio, ao Culto e à Lei.

Tradições assim variegadas e reunidas num mesmo contexto, integrando-se à Torah, tal como foram aceitas e reconhecidas pela comunidade Israelita, caracterizam a identificação delas com o conjunto doutrinário, somando-se e nunca se anulando. Qualquer que fora a denominação que se usasse para Deus, - Iahweh, Elohim, El Shadday, Ya, Adonai -, era indispensável que a tradição correspondente, e a adoração ou o culto, então se dirigisse a um só Deus, numa variedade então apenas nominal. Algumas tribos usavam o nome Elohim, outras outro, enquanto os Patriarcas usaram El Shadday (Ex 6,3), até que, com Moisés (Ex 2,13-14 / Ex 6,2-3), erige-se o nome de Iahweh para a Nação Israelita (Ex 6,7-8 / Ex 32,25-26), nome já em uso também. Buscava-se agora, principalmente, uma identificação mais objetiva e mais ampla com as exigências da Aliança com Iahweh, a partir de Abraão, ratificada com Moisés, e em função do fiel cumprimento da Missão de Israel:

"Quando Iahweh, teu Deus, te introduzir na terra que passas a possuir, e tiver expulsado muitas nações de tua frente, (...) votá-las-ás totalmente ao interdito. Não farás com elas aliança, nem terás piedade delas; nem contrairás matrimônio com os filhos delas. Não darás tuas filhas a seus filhos, nem tomarás suas filhas para teus filhos; pois elas desviariam teus filhos de mim, para que servissem a outros deuses; e a ira de Iahweh se acenderia contra vós e depressa vos destruiria. Porém assim lhes fareis: derrubareis os seus altares, quebrareis as suas colunas, cortareis os suas estelas e queimareis as suas imagens de escultura. Porque tu és povo consagrado a Iahweh, teu Deus; Iahweh, teu Deus, te escolheu, para que lhe fosses o seu povo particular, (...) porque Iahweh vos amava e, para guardar o juramento que fizera a vossos pais, Iahweh vos tirou com mão poderosa e vos resgatou da casa da servidão, do poder de Faraó, rei do Egito. Saberás, pois, que Iahweh, teu Deus, é Deus, o Deus fiel, que guarda a aliança e a misericórdia até mil gerações com os que o amam e cumprem os seus mandamentos; (...) se, ouvindo estes juízos, os guardares e cumprires, Iahweh, teu Deus, te guardará a aliança e a misericórdia prometida sob juramento a teus pais..." (Dt 7,1-12).

Em si mesmo considerado, o livro sintetiza uma coletânea de advertências ou exortações feitas por Moisés, preocupado com a fidelidade à Aliança e buscando maior integração religiosa do povo em torno de uma só denominação nacional de Deus, Iahweh. E, conhecendo suficientemente o seu povo, temia que a ocupação da Terra Prometida, com a acomodação na sua respectiva "herança" (Gn 13,15-17 / 15,18 / Ex 15,17 / 19,5-6), o desvirtuasse e corrompesse. Ainda mais quando, com a sua índole versátil, era culturalmente contagiado pelos costumes profanos dos outros povos, e já comprometido por demais pelas várias sedições e heresias acontecidas. Ao lado de tudo isso, e até por isso mesmo, era indispensável um estímulo ao cumprimento da Lei, com a evocação memorial da glória do passado e a tomada de consciência da atual e irrevogável concretização das Promessas de Iahweh, às vistas da Terra Prometida. Tudo isso, inseparável da fidelidade e dedicação ao cumprimento da Missão de Israel; pelo que, adverte quanto às nefastas conseqüências de uma apostasia e rompimento com Iahweh, por uma perigosa adesão à idolatria supersticiosa e moralmente corrupta, profusamente reinante no mundo de então.

Principalmente quanto ao paganismo da Terra de Canaã, em que se praticavam atos repugnantes, tais como a prostituição sagrada ou efeminada e os sacrifícios humanos, como oferendas aos seus "baals". Assim condicionado historicamente, poderia vir a se sujeitar a tais costumes sacrílegos já derrogados de há muito tempo de Israel (Gn 22,12-13 / 19,5-11), mas vigentes e obrigatórios onde falsos deuses imperavam. Isso levou Moisés a temer pela concretização da Aliança com Iahweh, o "deus ciumento" (Dt 5,9), que não aceita parelha com os falsos deuses, os ídolos que os demais povos adoravam. Havia o contágio cultural, de que não se escapa com facilidade, da crença na existência de vários deuses, cada um dominando um povo, dos quais Iahweh é superior, "o Deus dos deuses":

"Guarda-te não levantes os olhos para os céus e, vendo o sol, a lua e as estrelas, a saber, todo o exército dos céus, sejas seduzido a inclinar-te perante eles e dês culto àqueles, coisas que Iahweh, teu Deus, repartiu a todos os povos debaixo de todos os céus" (Dt 4,19) / "É a Iahweh, teu Deus, temerás, a ele servirás, e, pelo seu nome, jurarás. Não seguirás outros deuses, nenhum dos deuses dos povos que houver à roda de ti, porque Iahweh, teu Deus, é Deus ciumento no meio de ti, para que a ira de Iahweh, teu Deus, se não acenda contra ti e te destrua de sobre a face da terra" (Dt 6,14-15) / "Pois Iahweh, vosso Deus, é o Deus dos deuses e o Senhor dos senhores, o Deus grande, poderoso e temível, que não faz acepção de pessoas, nem aceita suborno..." (Dt 10,17) / "Então, se dirá: Porque desprezaram a aliança que Iahweh, Deus de seus pais, fez com eles, quando os tirou do Egito; e se foram, e serviram a outros deuses, e os adoraram; deuses que não conheceram e que ele não lhes havia designado. Pelo que a ira de Iahweh se acendeu contra esta terra, trazendo sobre ela toda a maldição que está escrita neste livro (Dt 29,25-27)".

Além disso, acreditava-se que, da "bênção" do deus local dependeria a fertilidade e fecundidade da região que lhe pertencia, pelo que deveriam os israelitas travar relacionamento mais estreito com os cananeus e com seus deuses. Culturalmente, poder-se-ia pretender e até mesmo crer que isso não comprometeria o relacionamento com Iahweh, donde a necessidade das várias advertências feitas, não se permitindo a vigência de tal falsa postura. Ainda mais quando, impunha-se o costume de adotar e se submeter ao deus da região, quando para ela se deslocasse para nela se fixar residência definitiva (Rt 1,14-15). O maior perigo seria o afrouxamento do fervor e da fidelidade exclusivos, tal como comprometido, "pelo que a ira de Iahweh se acenderia contra esta terra, trazendo sobre ela toda a maldição que está escrita neste livro (Dt 29,25-27)". Pronuncia então essas alocuções, exortando fidelidade e obediência a Iahweh, que formam um conjunto orgânico e ordenado, reunidas no final da peregrinação (Dt 1,5), naturalmente bem antes da sua morte. É claro que o seu óbito teria sido aí incorporado por outro narrador, que a tradição Israelita aponta como sendo provavelmente Josué.

É mais prático então que se faça um estudo com base nas várias alocuções feitas, três discursos e uma conclusão histórica, evidenciando as várias acomodações feitas, bem como as inovações surgidas, tais como a unicidade de santuário com as implicações disso nos sacrifícios, oferendas e festas. Em si não haverá novidade de monta que ainda não tenha sido vista, nem mesmo instituição absolutamente nova. Apenas e tão somente se vislumbrará como algo novo os implementos que forem feitos à legislação vigente, ou mesmo a regulamentação prática do que a Lei já previa.

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